Do download ao streaming

Eu já não devia espantar-me, mas a verdade é que continua a causar-me uma certa perplexidade o facto de tanto analista continuar a ignorar a importância do YouTube e do formato videomusical nas práticas de fruição musical na rede. Há algumas semanas, este artigo da Billboard causou um certo frenesim nas redes sociais ao analisar dados numéricos que parecem indiciar que as vendas de música digital através do descarregamento de ficheiros (download) no mercado norte-americano iriam, pela primeira vez, cair em 2013.

Estes dados poderão ser de grande importância pois, como afirma Ben Lovejoy, isto significa que 2013 poderá vir a juntar-se a 2003, 1989 e 1980 para formar as datas em que diferentes formatos (MP3, CDs, K7s e LPs, respectivamente) de suporte musical atingiram o seu pico de vendas. E a tendência tem sido de descida constante se exceptuarmos o ligeiro ressurgimento do vinil.

Ora o que me irrita é o facto de serem muitos poucos os que se lembram de incluir o YouTube no leque de possibilidades de fruição musical por streaming disponíveis na rede: ele é Spotify, Rdio, Rhapsody, Google Play, Deezer, Xbox Music (Microsoft) e Music Unlimited (Sony), mas YouTube é de grilo. Parece que vai ser preciso a malta começar a ter de pagar para ver qualquer vídeo no portal, para a plataforma mais popular entre os nativos digitais receber a atenção que merece por parte dos analistas. Ou talvez haja aqui alguma razão política para este sistemático esquecimento. To be continued.

I Blame the Product Placement

Numa altura em que anda meio mundo à procura de formas alternativas de rendimento para a indústria e o empreendedorismo musicais, a Sky Ferreira acaba de mostrar com relativa pinta e assinalável estrondo que o formato videomusical pode ser um trunfo importante para proveitosos negócios na emergente paisagem mediática digital.

Em vez de estrear o seu novo vídeo no YouTube, a menina e a sua editora mandaram para lá apenas um teaser a anunciar que o mesmo estaria disponível no portal da Ssense, uma loja online de roupas e acessórios trendy). Vale bem a pena ir ao portal não apenas para ver o vídeo (que já anda a provocar alguma polémica para gáudio da Sky, da editora e da própria loja) e o respectivo making of (já disponível igualmente no sítio do costume), mas também para apreciar a forma (pouco subtil mas ainda assim artificiosa) como a loja consegui fazer o seu imprescindível product placement. Lembro que, no tempo da televisão musical, a MTV proibia este tipo de marketing no formato – a não ser, como é óbvio, que o canal estivesse previamente envolvido no negócio.

Está-se mesmo a ver que, daqui a algumas semanas, uma cópia do vídeo será carregada para o YouTube com a “benção” (ler: “ao abrigo de uma cláusula incluída no contrato”) da artista, da editora e da lojinha online.

Sequências videomusicais

É uma espécie de subgénero dentro da recente tendência das médias-metragens videomusicais, mas algo que se tem tornado suficientemente comum nos últimos meses para ser notório e, em muitos casos, até notável. Estou a falar de vídeos musicais que consistem na sequência de dois temas musicais (ou canções) da mesma banda (oriundos do mesmo álbum ou não). À falta de melhor nome, apodo os mesmos de sequências videomusicais e correspondem, no fundo, a um equivalente visual dos temas contíguos em álbuns pop cuja transição é efectuada sem qualquer pausa (eis dois exemplos clássicos). Utilizei o termo “equivalente” e não “duplo”, porque de facto a sequência dos temas foi produzida especificamente para o(s) vídeos musical(ais) e não reproduz algo que já existia no disco (o que, só por si, denota mais uma vez o vigor do formato).

Coincidência ou não, os três exemplos que deixo de seguida estão no meu Top 10 dos melhores vídeos musicais que vi na última década. Ah pois é.

Warpaint: «Disco/Very + Keep It Healthy» (real. Laban Pheidias)

Tema #7 + tema #2 do álbum Warpaint (2014)

Phoenix: «Trying To Be Cool + Drakkar Noir» (real. CANADA)

Tema #4 + tema #6 do álbum Bankrupt (2013)

The Shoes: «America + Time To Dance» (real. Daniel Wolfe)

Tema #1 do EP Stade de Reims (2009) + Tema #1 do EP Time To Dance (2012)

faina videomusical #22

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Future Islands: «Seasons (Waiting on You)» (real. Jay Buim)

A interpretação que os Future Islands fizeram do seu novo single no programa do David Letterman (já leva mais de um milhão de visualizações no momento em que escrevo) é um daqueles momentos mágicos da videomusicalidade, em que a música pop não fica a dever nada a qualquer outra arte performativa. É pena, no entanto, que esses 3 memoráveis minutos estejam a ofuscar o vídeo oficial que Jay Buim filmou para o tema e que é uma comovente elegia à vida quotidiana dos vaqueiros norte-americanos em pleno séc. XXI. E olhem que quem escreve isto é um vegetariano.

Liars: «Mess on a Misson» (real. Luis Cerveró)

Há uns anos atrás, os Hot Chip já nos tinham presenteado com um vídeo que operava uma fabulosa desconstrução do chroma-key. Mas o que Luis Cerveró faz aqui com o tema dos Liars é transpor literalmente para as imagens a ironia daquele verso armado em axioma: facts are facts and fiction is fiction, o tanas. Podem ler mais sobre este vídeo aqui.

Queens of The Stone Age: «Smooth Sailing» (real. Hiro Murai)

Work hard, play hard. Ou a Snorricam em todo o seu splendor.

Tenho andado afastado do blogue mais do que gostaria, devido aos últimos retoques na tese (a ver se é desta, caramba) e à preparação do próximo número da ESC:ALA. Prometo novidades em breve.

Dados videomusicais 2013

No preciso momento em que estou a dar os últimos retoques na minha tese de doutoramento (coisa para ficar fechada esta semana), acabam de sair alguns dados vertiginosos sobre o consumo videomusical digital em 2013.

O número de Março da edição norte-americana da revista Wired inclui, nas páginas 86 e 87, uma infografia (indisponível na edição online da rubrica How To Find Music, mas podem consultar um snapshot que tirei do mesmo a partir da versão iPad aqui) em que se refere que em 2013 foram visualizados mais de 400 mil milhões de vídeos musicais no YouTube. Apesar de saber que a Google Inc tem sempre muita parcimónia em libertar este tipo de dados, a verdade é que me causa alguma perplexidade o facto de não ter encontrado (à excepção deste tweet) qualquer outra referência a este número na Web. Já entrei em contacto com a Wired para saber onde foram sacar esta informação e aguardo pacientemente uma resposta. O número é, de facto, impressionante e demonstra bem a furiosa popularidade do formato.

Uma potencial indicação da verosimilhança deste dado astronómico pode ser encontrada nesta notícia da Bloomberg, onde se refere que 55 mil milhões de vídeos musicais foram visualizados o ano passado no Vevo (como sabem, aqui em Portugal, o Vevo não está disponível e resume-se a um mero canal do YouTube). Ora, este ratio de 13,75% do Vevo sobre o total dos vídeos musicais visualizados no YouTube sounds just about right to me, apesar de estar convencido que a importância do Vevo ainda assim está infeccionada devido à forma conservadora com que o YouTube considera o que é um vídeo musical: apenas os vídeos musicais oficialmente reconhecidos pelas respectivas bandas e/ou editoras.

Ou seja: o Pandora, o IHeartRadio, o Grooveshark, o Spotify, o Slacker e o Rhapsody estão longe, muito longe, de fazer sombra ao YouTube no domínio do consumo (video)musical na rede.

Vídeo

Gaga 2014

O novo vídeo da Lady Gaga (8 milhões de visualizações nas primeiras 24h) tem quase 12 minutos de duração. A boa notícia é que os últimos 4 são integralmente ocupados pela ficha técnica.

Jamais deux sans trois

Ainda a propósito do post anterior, acaba de ser disponibilizado mais um fabuloso vídeo musical textual (ou lyric music video) de um projecto musical tuga. Aspecto curioso (e muito meritório) é o facto de We Trust ser o projecto musical de André Tentugal, nome que os leitores deste blogue facilmente reconhecerão pois não me canso de repetir que ele é um dos mais talentosos realizadores de vídeos musicais do nosso país. Apesar disso (ou, se calhar, exactamente por isso), o André faz sempre questão de contratar os serviços de outros realizadores para os vídeos da sua banda. Depois do mega-sucesso do primeiro vídeo (que, à data em que escrevo, já vai com cerca de 750 mil visualizações no YouTube), este segundo vídeo (uma animação de Robert Wallace) tem tudo para lhe seguir as pisadas.

Dois vídeos tugas cheios de letra

Os vídeos musicais textuais (ou lyric music videos) começam a ser um caso sério em Portugal. Como é óbvio, este subgénero videomusical não funcionará para qualquer canção ou sequer projecto musical, mas os dois exemplos recentes que vos trago aqui são uma bela demonstração das potencialidades do formato.

O primeiro é uma bela tipografia cinética realizada por Joana Faria para o novo tema dos Diabo na Cruz e a coisa funciona tão bem que já me apanhei a cantarolar o tema no carro com as imagens do vídeo a invadirem-me a cachimónia. O tema presta-se muito a este tipo de tratamento visual devido aos trocadilhos, às rimas internas e, claro, ao ritmo com que o Jorge Cruz debita uma letra que agarra bem o Zeitgest actual do nosso país.

Coisa bem distinta é a proposta dos Clã e do realizador Victor Hugo Pontes em que o formato textual é um mero pretexto para um genuíno exercício coreográfico filmado num único take que faz, de imediato, recordar a perícia dos Ok Go (e o Hélder Gonçalves está mesmo super-parecido com o baixista da banda norte-americana). Está a ser giro acompanhar esta aventura dos Clã na promoção do seu novo disco: estão a arriscar e, pouco a pouco, a tentar sair da sua zona de conforto. Espero ansiosamente pelos novos capítulos.

faina videomusical #21

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Capicua (com M7): «Mão Pesada» (real. Vasco Mendes)

Existe uma espécie de complementaridade entre os dois vídeos mais recentes da Capicua: se o primeiro se focava na parte inferior do corpo da protagonista, este último filma apenas o busto das figuras que vão surgindo no ecrã. O movimento circular alternado parece-me ser uma forma (bem subtil e inteligente) que o Vasco Mendes terá encontrado para ilustrar com imagens o significado nome da rapper portuense que consegue o feito de promover o seu novo disco com dois fabulosos vídeos musicais. Chapeau to that.

Haim: «If I Could Change Your Mind» (real. Warren Fu)

Perfeição videomusical. Da coreografia (cortesia de Fatima Robinson) à fabulosa iluminação, passando pela edição e, claro, pela performance magnética daquelas manas. Não ficará na memória de muitos, é certo, mas não me parece que vai haver muitos vídeos este ano capazes de ombrear com esta brutal demonstração de virtuosismo de Warren Fu.

Damon Albarn: «Lonely Press Play» (real. Damon Albarn)
Major Lazer (ft. Moska & RDX): «Lose Yourself» (real. Diplo)

Para além da excelência das trilhas sonoras, há muito pouco em comum entre o novo vídeo de Damon Albarn e de Major Lazer (aka Diplo). A não ser isto: ambos foram realizados pelos próprios artistas com equipamentos caseiros de gravação (o Damon com o seu tablet e Diplo com a sua própria câmara de filmar digital). Penso que este será uma tendência que se irá acentuar nos próximos anos: a dos músicas assumirem cada vez mais uma visão holística do seu trabalho artístico. Se os resultados forem sempre tão bons e diversos, não vejo motivos para o cidadão se preocupar.

Pussy Riot: «Putin Will Teach How To Love» (real. Pussy Riot)

O vídeo musical mais importante do ano. E o melhor vídeo punk de sempre. Nem mais.