Taylor-made

A Taylor Swift tem um novo vídeo realizado por Mark Romanek que anda a causar um imenso furor (mais de 5 milhões de visualizações nas primeiras 24h) e a gerar um imenso burburinho (que grande desilusão, Earl). O vídeo é, para ir direito ao assunto, perfeito. Impecavelmente filmado, divertido, edição fluente, performances fabulosas e referências, imensas referências: a outros vídeos, à Lady Gaga, ao Skrillex, à Audrey Hepburn, ao Black Swan, ao tutting ao twerking, à dança contemporânea, à ginástica rítmica, ao cheerleading, ao break-dance, aos b-boys – enfim, um verdadeiro catálogo de citações e alusões da cultura pop. Um vídeo absolutamente incontornável em 2014 e que tem uma mensagem (just be yourself) que, apesar de inócua, tem a suprema virtude de provocar urticária à malta que tem a mania de ter a mania. Ticks on pretty much all the boxes out there.

faina videomusical #30

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DyE (ft. Egyptian Lover): «She’s Bad» (real. Dent de Cuir)

Quando pensava que o chroma-key já tinha dado tudo o que tinha para dar, eis que surge isto. Fabuloso.

Woodkid: «The Golden Age» (real. Yoann Lemoine)

Apesar de não ser, de facto, um fã dos Woodkid, é inegável que o trabalho videográfico que Yoann Lemoine desenvolveu para o seu próprio projecto musical é um dos mais espectaculares que invadiram a rede nos últimos anos (os mais distraídos e desconfiados podem tirar tudo a limpo aqui, aqui e aqui). O mais recente e derradeiro vídeo para o seu disco de estreia é mesmo capaz de ser a sua obra-prima.

Foxygen: «How Can You Really?» (real. Grant Singer)

O primeiro trabalho a sério que tive foi em 1994 num “open space” muito parecido com o que serve de cenário para o fabuloso novo vídeo retro-pop dos Foxygen. Mas o mais incrível é o facto de ter sido precisamente nesse ambiente de trabalho que um colega me apresentou a música de Todd Rundgren, cujo cancioneiro inclui um tema que é muito parecido com o single da dupla californiana. Ou seja: era mesmo impossível não adorar isto.

Janelle Monáe: «Electric Lady» (real. Alan Ferguson)

Só mesmo esta miúda para fazer um tão descarado product placement uma cena cool.

Batida: «Pobre e Rico» (real. Pedro Coquenão)

O DIY em todo o seu esplendor: «Como fazer um vídeo “Pobre e Rico? Assumir o espaço onde faço quase tudo, como cenário real e viável. Limpar o chão da rua. Esperar que a iluminação pública se apague. Iluminar com candeeiro próprio. Filmar com câmara acabada de chegar, cheia de pó do Sambizanga. Usar coreografia e vídeo criados para a performance ao vivo. Juntar adereços sem custo: 2 chinelas do MPLA.» (Pedro Coquenão)

Digitalism (ft. Youngblood Hawke): «Wolves» (real. Nelson de Castro)

Beauty is in the eye of the beholder. Literally.

Recensão crítica a obras sobre o formato videomusical

cover_issue_9_pt_PTÉ tão raro (eufemismo) isto acontecer que faço questão de referi-lo aqui no blogue: acaba de sair no número 2 do volume 1 da revista portuguesa de imagem em movimento aniki uma recensão crítica de Sérgio Dias Branco sobre não uma, mas quatro obras dedicadas aos estudos videomusicais: dois clássicos (a obra de Vernallis e o volume organizado por Frith, Goodwin e Grossberg), uma obra que envelheceu menos bem (a de Kaplan), e outra que, para grande gáudio meu, desconhecia e que vou comprar já de seguida (a da dupla Laurent Jullier e Julien Péquignot). A amostra é interessante (pessoalmente, se tivesse de escolher 4 obras, apenas trocaria o livro de Kaplan pelo clássico incontornável de Goodwin e incluiria o volume organizado em 2010 por Keazor e Wubbena) e o texto cheio de reflexões argutas sobre alguns dos contributos e sofismas dos estudos videomusicais.

“Weird Al” Yankovic: és o maior, caramba!

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Numa semana particularmente importante para mim (more about that later), não pude deixar de achar fabulosa a coincidência de ter sido ontem que o grande “Weird Al” Yankovic conseguiu finalmente chegar ao primeiro lugar da tabela da Billboard.

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Para os mais distraídos, “Weird Al” Yankovic é o genuíno precursor da produção videomusical vernacular que actualmente povoa a rede, o génio visionário que começou logo na década de 80 a parodiar vídeos musicais de temas como o «Like a Virgin» de Madonna (Like a Surgeon, 1985), «Bad» de Michael Jackson (Fat, 1988), «Smells Like Teen Spirit» dos Nirvana (Smells Like Nirvana, 1992) ou «Born This Way» da Lady Gaga (Perform This Way, 2011), só para referir os mais famosos.

É por isso mais do que justo que, no preciso momento em que o formato videomusical é o mais consumido e disseminado na emergente paisagem mediática musical, o “Weird Al” conquiste ao fim de três décadas o primeiro lugar da tabela de vendas norte-americana com (o fabuloso) Mandatory Fun. E como é que ele conseguiu? Como é óbvio, com paródias videomusicais: nada mais do que oito disponibilizadas no YouTube ao longo de oito dias consecutivos (podem vê-los todos aqui). Há de tudo para todos os gostos e, no meu caso, confesso que não há nenhum que não tenha conseguido pelo menos arrancar-me uma valente gargalhada. Deixo de seguida o meu favorito da série. E parabéns Al! O teu sucesso mexeu mesmo comigo, caramba.

ADENDA: isto.

Your MTV Top 20

Quatro anos de investigação ensinaram-me que a convergência da fruição musical para a emergente paisagem mediática digital é um fenómeno complexo do qual apenas me atrevo a identificar meia-dúzia de tendências: o crescimento da importância de coisas como o formato videomusical, o streaming, o YouTube e a produção vernacular e a progressiva perda de protagonismo de outras como a MTV e os grandes tubarões (vulgo majors) da indústria musical. É por isso que a notícia de que a MTV teria criado uma tabela chamada Your MTV Top 20 provocou em mim pouco mais do que um bocejo e o leve prenúncio de uma irritação cutânea.

A ideia que a MTV quer fazer passar é que a referida tabela ordena os vídeos musicais mais disseminados pelos fãs nas redes sociais, mas basta uma leitura mais atenta à notícia para perceber que a coisa se limita a contabilizar o número de visualizações (directas ou via facebook e/ou Twitter) dos vídeos presentes em cada um dos 60 portais que a MTV tem na rede e que reflectem o que é transmitido pelos 160 canais que a mesma MTV tem espalhados pelo planeta. Para dar mais credibilidade à tabela, a MTV contratou os serviços da The Echo Nest para obter dados webométricos que, no entanto, apenas serão utilizados para apurar a popularidade de um determinado artista ou eventuais novas tendências musicais, isto é, para eventualmente (tá bem, abelha) incluir ou excluir um determinado vídeo do referido Top 20 (que na verdade vai até ao número 50).

Trocado por miúdos, o que temos é uma tabela que recorre marginalmente às redes sociais e a dados webométricos pouco claros para, supostamente, apurar a popularidade de uma selecção de vídeos musicais transmitidos pelos diversos canais da MTV. E como é que são escolhidos esses vídeos musiciais? Como é óbvio, através de playlists que resultam muito simplesmente de acordos comerciais celebrados entre a própria MTV e as editoras discográficas. Isto é: social media-powered music video chart – my ass. Tudo não passa de uma operação de camuflagem para encobrir uma das mais vergonhosas (porque pouco claras e dissimuladas) fontes de rendimento da MTV. Desta forma, não me admiraria nada que os dados fornecidos pela Echo Nest à MTV sirvam única e exclusivamente para o canal apurar a posição negocial dos seus parceiros comerciais caso a caso, isto é, vídeo a vídeo.