Kanye West Unchained

As possibilidades do formato videomusical são infindas, haja imaginação (e alguns meios) para explorar as suas possibilidades. Vejam, por exemplo, o caso de Kanye West que resolveu apresentar um tema novo do seu próximo disco através de um vídeo musical que (e aqui é que a coisa se torna interessante) foi projectado em 66 edifícios em 10 cidades de 3 continentes (o portal oficial indica a localização precisa de cada projecção). Como é óbvio, apesar de a façanha não ter sido publicitada, o YouTube já está repleto de gravações do acontecimento. Eis um deles (gravado em Brooklyn, NY). Tudo converge para a rede, de facto, não obstante os desvios. Mas são precisamente desvios como este que conseguem chamar a atenção dos utilizadores.

Quatro livrinhos quatro

4bks

E há para todos os gostos. Em primeiro lugar, um elogio para a Orfeu Negro que publicou duas traduções portuguesas de obras de referência: A Arte da Performance de RoseLee Goldberg (que já vai na 2.ª edição) e A Poética da Dança Contemporânea de Laurence Louppe. São obras clássicas de grande fôlego que abordam, o primeiro mais numa perspectiva historicista e o segundo através de uma abordagem manifestamente mais teórica, a arte da performance e da dança contemporânea. Os dois temas são, como é óbvio, tangentes ao universo da videomusicalidade: não raras vezes, o formato videomusical funciona como um registo audiovisual de exercícios performativos coreografados e, por exemplo, uma das videografias de maior sucesso do processo da convergência videomusical na Web Social (a dos Ok Go) guia-se por uma poética que assenta precisamente nesta dupla dimensão. A importância destas duas obras no meu projecto de investigação prende-se precisamente com o facto da videografia musical dos Ok Go ser um dos seus casos de estudo. O preço das obras é que é, para variar, proibitivo: as edições originais estão disponíveis por metade do preço. Mas o cuidado e rigor de ambas as edições quase que compensam a exorbitância.

The Gift. Creativity and the Artist in the Modern World de Lewis Hyde é uma obra que cheguei tarde, muito tarde, mas cuja leitura (em processo) irá sem dúvida enriquecer algumas páginas da minha tese. A obra, inicialmente publicada em 1979, destinava-se sobretudo a abordar o labor poético que, na época, era o exemplo paradigmático de como uma obra de arte é sobretudo uma dádiva e não um bem económico: «a work of art can survive without the market, but with no gift there is no art» (p. xvi). Está bom de ver que as reflexões de Lewis Hyde viriam a ganhar uma importância ímpar com a emergência das plataformas digitais que trouxe enormes desafios à mercantilização (“comodification”) ou a transformação em produtos de uma economia de mercado das criações artísticas – e os vídeos musicais são um caso flagrante dessa realidade. É por isso que prefiro o termo “dádiva” a “doação” para traduzir a noção hydiana de “gift”, na medida em que é o que melhor recobre a sua bissemia: a de oferta e de dom ou talento. Acho que nunca li uma obra tão à frente do seu tempo.

Finalmente, Viral Loop de Adam L. Penenberg é um dos maiores pastelões que li na minha humilde vida. É uma obra destinada a marketeiros (pun intended) sedosos de descobrir a arte da viralidade na era da mediação tecnológica (sobre o tema remeto novamente para este meu texto). A novidade desta obra em relação às restantes do mesmo género (e não falo aqui dos estudos meméticos, mas sim dos livros de marketing viral) é o facto de Penenberg procurar compatibilizar a noção de “espalhabilidade” (spreadibility) de Henry Jenkins com a de viralidade – tarefa simplesmente impossível, na medida em que o conceito foi, precisamente, desenvolvido como uma crítica à metáfora viral. Sintomático é o facto de Henry Jenkins não ser jamais citado ou sequer referido na obra, o que faz com que um leitor menos esclarecido possa julgar que o conceito é da autoria do menino. Enfim, lamentável. E a evitar a todo o custo.

YouTube: everything with no roadblocks

Raramente encontro na rede alguém com uma visão que partilho a 100% sobre a convergência da fruição musical multimediática para o formato videomusical. É por isso que faço questão de deixar aqui esta pequena citação de Frank Woodworth no hypebot (sublinhados meus):

The other interesting thing about YouTube as a destination for music discovery is that playlists and curation are not driving it. Just like Wikipedia, IMDB or Google itself, YouTube is a conversion of offline conversations into online discovery. It works with our natural rhythms. This makes me wonder if the race to have the perfectly curated service is necessary. There are a numerous places for music discovery, but the best service is one that has everything with no roadblocks so that if a song or artist enters a conversation a fan can search and play the music seamlessly. Currently, this is YouTube. It has the largest selection and no walls. (fonte)

faina videomusical #9

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Is Tropical: «Dancing Anymore» (real. Megaforce)

Este fabuloso vídeo dos gauleses Megaforce parodia os vídeos pornográficos que pululam na rede para mergulhar no imaginário sexual de um nativo digital. A partir do cliché da dona da casa madura e sensual que explica como limpar a piscina (as primeiras palavras ditas no víde são hilariantemente polissémicas: “Alors, il faut bien enfoncer jusqu’au bout, sinon ça se défait”) passa-se rapidamente para as fantasias sexuais de um adolescente que, não por acaso, não são povoadas por mulheres de carne e osso, mas por avatars em 3D. De génio.

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Empire Of The Sun: «Alive» (real. JD Dillard)

A escala deste épico sci-fi xunga é uma absoluta raridade nos dias que correm. Parece saído directamente da década de 90. É um assim um vídeo retro-futurista de produção anacrónica. Mais pós-moderno, não há.

Janelle Monáe (ft. Erykah Badu): «Q.U.E.E.N.» (real. Alan Ferguson)

Este encontro de titãs só poderia dar origem a um prodígio videomusical cheio de pinta. Mas o que parecia ser um mero (porém sublimemente executado) exercício de estilo, rapidamente desliza para um vídeo politicamente empenhado. Possui uma subtileza que, hoje em dia, é muita rara de se encontrar no mainstream.

David Guetta (ft. Akon & Neyo): «Play Hard» (real. Andreas Nillson)

Aplicam-se aqui as considerações que teci neste post: o Andreas Nillson parece apostado em descontruir através de inauditos pastiches todos os clichés videomusicais do mainstream. Que ele o faça com um pastelão musical que junta três estrelas do calibre de Guetta, Akon e Neyo deve ser apenas visto como uma magnífica oportunidade para atacar o monstro no seu âmago. E o rapaz não deixou os seus créditos em mão alheia. Uma delícia.

Kap Bambino: «Devotion» AKA «Killer Shoes» (real. NORTON)

Este rebuçado tem quase um ano, mas apenas o descobri recentemente por ter ganho o prémio de melhor vídeo musical não oficial do LAMVF. Depois de o verem, não deixem de espreitar o making of.

The National: «Sea of Love» (Sophia Peer, 2013)

Comparem o novo vídeo dos The National com o de uma banda russa filmado em 1997. Não fosse a faixa musical e o quinto elemento da banda e estaríamos no limiar do pastiche e da falsificação. Assim, estamos perante um exercício paródico que mima com elevado rigor a encenação e performance de um vídeo obscuro que os fãs rapidamente identificaram devido à elevadíssima permeabilidade da Web Social. Uma forma mais simples de dizer tudo isto é recorrer a uma única palavra: homenagem.

Clássicos XII – PJ Harvey: «Mansize» (Maria Mochnacz, 1994)

A icónica capa de «Rid of Me» (1993) da autoria da fotógrafa e realizadora Maria Mochnacz

A icónica capa de «Rid of Me» (1993) da autoria da fotógrafa e realizadora Maria Mochnacz

A verdade, verdadinha, é que poderia praticamente escolher qualquer vídeo realizado pela fotógrafa Maria Muchnacz para a PJ Harvey para esta rubricazinha, mas o de «Mansize» é, provavelmente, a obra-prima desta dupla.

O trabalho que ambas desenvolveram ao longo de mais uma década no campo videomusical constitui um dos capítulos mais fascinantes da história do formato: aquele em que o género feminino deixou definitivamente de ser um mero tema para se emancipar como uma genuína estratégia de modalização da experiência subjectiva, levando ainda mais longe o percurso iniciado no final da década de 80 por artistas como Madonna ou Queen Latifah.

Como Afirma Saul Austerlitz:

Mochnacz’s videos capture something essential to Harvey’s raucous, elegant music: its air of continuous self-invention, of knowingly, constantly taking on new roles. (1.1 AUSTERLITZ 2007: 160)

O papel que a PJ Harvey assume em «Mansize» (oriundo de um disco que está neste momento a festejar o seu vigésimo aniversário) é o de um predador masculino cujo discurso desconstrói o estereótipo do macho simultaneamente obcecado com a sua genitália e impotente perante os encantos do sexo “fraco”: «Silence my lady head / Get girl out of my head / Douse hair with gasoline / Set it light and set it free». O vídeo consiste praticamente num plano médio fixo em que PJ Harvey demonstra mais uma vez o seu feroz talento performativo: as expressões faciais e o movimento da parte superior do corpo conseguem a proeza de serem ainda mais eloquentes do que a própria letra. E depois, há aquele fabuloso momento de cinéma vérité aos 2’09″ que jamais poderia ter sido colocado no guião e que assenta que nem uma luva na dimensão conceptual do vídeo.

Adenda: É apenas no final da visualização do vídeo que o plano de abertura ganha um significado distinto aos olhos do espectador: o que parecia de início ser uma pequena encenação de guarda-roupa passa a ser, devido à personagem masculina encarnada pela PJ Harvey, um exercício inconfessável de travestimento e, no limite, na poderosa e subtil expressão de um desejo de mutação de género.

Seen Your Video

Recomendo a leitura deste belíssimo artigo de Lindsay Zoladz publicado na Pitchfork que, a pretexto deste evento, faz um interessante (e pessoalíssimo) balanço entre a era doirada do formato videomusical na década de 90 e o seu vigoroso renascimento nas plataformas digitais. Gosto muito desta passagem (negritos meus):

A favorite video was different from a favorite record; you couldn’t possess it, you never knew quite when you’d see it again, and if you tried to remember it later, your imagination had to fill in the blanks. That was part of the frustration, and the fun. [...] For better and for worse, what the internet has rendered extinct is that elusive quality the music video experience used to have: the excitement of not knowing what was coming on next, the feeling that you had to fully immerse yourself in a video because you didn’t know when you’d see it again. In the age of YouTube, it’s now the viewer, not the station programmer (or the sock-puppet VJ) calling the shots and deciding what to watch and when to watch it. But isn’t this the sort of breakthrough I was dreaming about back in my home-taping days? Turns out that the downside of instant access to everything all the time is that it often feels like there are too many videos out there to watch – and there’s reason to fear that our average attention spans are whittling down to something shorter than the music video itself.

faina videomusical #8

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Low: «Just Make It Stop» (real. Philip Harder)

Entre as inúmeras virtudes dos Low, conta-se a de terem sido das primeiras bandas a perceberem a importância da dimensão visual do seu trabalho musical. Prova disso é o facto de terem encetado uma relação profissional com o realizador Philip Harder ainda antes do lançamento do primeiro disco (em 1993) e de a mesma se ter mantido até hoje (de resto, para celebrar o vigésimo aniversário da banda, o realizador acaba de lançar um documentário cujo trailer pode ser visto aqui). O mais recente fruto desta longa e frutífera colaboração é mais uma prova de que faz todo o sentido considerar Philip Harder o genuíno e omnipresente terceiro membro da banda.

Basement Jaxx: «Back 2 The Wild» (real. Mat Maitland)

O seapunk está bem e recomenda-se. Sobretudo se for usado para celebrar o regresso de um dos melhores projectos de música de dança de todos os tempos.

Skaters: «Armed» (real. Danilo Parra)

Este vai direitinho para a minha lista de melhores do ano.

Light Light: «Kilo» (real. Moniker)
Boys Noize: «Stop» (real. Barzolff)

E, para terminar em beleza, dois vídeos musicais interactivos. O segundo é giro, mas o primeiro consiste numa ideia de crowd sourcing que é genuinamente original.

Da TV para a Web: dados quantitativos da migração do formato videomusical

Acrescentei no sítio do costume dados quantitativos importantes que vêm colmatar uma lacuna da minha investigação. Se a convergência do formato videomusical para a Web Social é uma realidade facilmente comprovada por diversos estudos incluídos na mesma página do blogue, a verdade é que me faltavam dados quantitativos que comprovassem a fuga do formato do seu outrora quase exclusivo medium: a televisão musical.

Pois bem, um gráfico comparativo do número de vídeos musicais transmitidos pela televisão musical norte-americana (MTV, Black Entertainment Television, Country Music Television e VH1) reproduzido pela Time a partir de dados da Nielsen vem precisamente confirmar a premissa:

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No espaço de 13 anos, a quota do formato videomusical desceu mais de 62%, o que comprova que a convergência para as plataformas digitais se assemelha (e muito) a um movimento migratório da TV para a Web.