Sequências videomusicais

É uma espécie de subgénero dentro da recente tendência das médias-metragens videomusicais, mas algo que se tem tornado suficientemente comum nos últimos meses para ser notório e, em muitos casos, até notável. Estou a falar de vídeos musicais que consistem na sequência de dois temas musicais (ou canções) da mesma banda (oriundos do mesmo álbum ou não). À falta de melhor nome, apodo os mesmos de sequências videomusicais e correspondem, no fundo, a um equivalente visual dos temas contíguos em álbuns pop cuja transição é efectuada sem qualquer pausa (eis dois exemplos clássicos). Utilizei o termo “equivalente” e não “duplo”, porque de facto a sequência dos temas foi produzida especificamente para o(s) vídeos musical(ais) e não reproduz algo que já existia no disco (o que, só por si, denota mais uma vez o vigor do formato).

Coincidência ou não, os três exemplos que deixo de seguida estão no meu Top 10 dos melhores vídeos musicais que vi na última década. Ah pois é.

Warpaint: «Disco/Very + Keep It Healthy» (real. Laban Pheidias)

Tema #7 + tema #2 do álbum Warpaint (2014)

Phoenix: «Trying To Be Cool + Drakkar Noir» (real. CANADA)

Tema #4 + tema #6 do álbum Bankrupt (2013)

The Shoes: «America + Time To Dance» (real. Daniel Wolfe)

Tema #1 do EP Stade de Reims (2009) + Tema #1 do EP Time To Dance (2012)

faina videomusical #22

.
.
Future Islands: «Seasons (Waiting on You)» (real. Jay Buim)

A interpretação que os Future Islands fizeram do seu novo single no programa do David Letterman (já leva mais de um milhão de visualizações no momento em que escrevo) é um daqueles momentos mágicos da videomusicalidade, em que a música pop não fica a dever nada a qualquer outra arte performativa. É pena, no entanto, que esses 3 memoráveis minutos estejam a ofuscar o vídeo oficial que Jay Buim filmou para o tema e que é uma comovente elegia à vida quotidiana dos vaqueiros norte-americanos em pleno séc. XXI. E olhem que quem escreve isto é um vegetariano.

Liars: «Mess on a Misson» (real. Luis Cerveró)

Há uns anos atrás, os Hot Chip já nos tinham presenteado com um vídeo que operava uma fabulosa desconstrução do chroma-key. Mas o que Luis Cerveró faz aqui com o tema dos Liars é transpor literalmente para as imagens a ironia daquele verso armado em axioma: facts are facts and fiction is fiction, o tanas. Podem ler mais sobre este vídeo aqui.

Queens of The Stone Age: «Smooth Sailing» (real. Hiro Murai)

Work hard, play hard. Ou a Snorricam em todo o seu splendor.

Tenho andado afastado do blogue mais do que gostaria, devido aos últimos retoques na tese (a ver se é desta, caramba) e à preparação do próximo número da ESC:ALA. Prometo novidades em breve.

Dados videomusicais 2013

No preciso momento em que estou a dar os últimos retoques na minha tese de doutoramento (coisa para ficar fechada esta semana), acabam de sair alguns dados vertiginosos sobre o consumo videomusical digital em 2013.

O número de Março da edição norte-americana da revista Wired inclui, nas páginas 86 e 87, uma infografia (indisponível na edição online da rubrica How To Find Music, mas podem consultar um snapshot que tirei do mesmo a partir da versão iPad aqui) em que se refere que em 2013 foram visualizados mais de 400 mil milhões de vídeos musicais no YouTube. Apesar de saber que a Google Inc tem sempre muita parcimónia em libertar este tipo de dados, a verdade é que me causa alguma perplexidade o facto de não ter encontrado (à excepção deste tweet) qualquer outra referência a este número na Web. Já entrei em contacto com a Wired para saber onde foram sacar esta informação e aguardo pacientemente uma resposta. O número é, de facto, impressionante e demonstra bem a furiosa popularidade do formato.

Uma potencial indicação da verosimilhança deste dado astronómico pode ser encontrada nesta notícia da Bloomberg, onde se refere que 55 mil milhões de vídeos musicais foram visualizados o ano passado no Vevo (como sabem, aqui em Portugal, o Vevo não está disponível e resume-se a um mero canal do YouTube). Ora, este ratio de 13,75% do Vevo sobre o total dos vídeos musicais visualizados no YouTube sounds just about right to me, apesar de estar convencido que a importância do Vevo ainda assim está infeccionada devido à forma conservadora com que o YouTube considera o que é um vídeo musical: apenas os vídeos musicais oficialmente reconhecidos pelas respectivas bandas e/ou editoras.

Ou seja: o Pandora, o IHeartRadio, o Grooveshark, o Spotify, o Slacker e o Rhapsody estão longe, muito longe, de fazer sombra ao YouTube no domínio do consumo (video)musical na rede.

Vídeo

Gaga 2014

O novo vídeo da Lady Gaga (8 milhões de visualizações nas primeiras 24h) tem quase 12 minutos de duração. A boa notícia é que os últimos 4 são integralmente ocupados pela ficha técnica.

Jamais deux sans trois

Ainda a propósito do post anterior, acaba de ser disponibilizado mais um fabuloso vídeo musical textual (ou lyric music video) de um projecto musical tuga. Aspecto curioso (e muito meritório) é o facto de We Trust ser o projecto musical de André Tentugal, nome que os leitores deste blogue facilmente reconhecerão pois não me canso de repetir que ele é um dos mais talentosos realizadores de vídeos musicais do nosso país. Apesar disso (ou, se calhar, exactamente por isso), o André faz sempre questão de contratar os serviços de outros realizadores para os vídeos da sua banda. Depois do mega-sucesso do primeiro vídeo (que, à data em que escrevo, já vai com cerca de 750 mil visualizações no YouTube), este segundo vídeo (uma animação de Robert Wallace) tem tudo para lhe seguir as pisadas.

Dois vídeos tugas cheios de letra

Os vídeos musicais textuais (ou lyric music videos) começam a ser um caso sério em Portugal. Como é óbvio, este subgénero videomusical não funcionará para qualquer canção ou sequer projecto musical, mas os dois exemplos recentes que vos trago aqui são uma bela demonstração das potencialidades do formato.

O primeiro é uma bela tipografia cinética realizada por Joana Faria para o novo tema dos Diabo na Cruz e a coisa funciona tão bem que já me apanhei a cantarolar o tema no carro com as imagens do vídeo a invadirem-me a cachimónia. O tema presta-se muito a este tipo de tratamento visual devido aos trocadilhos, às rimas internas e, claro, ao ritmo com que o Jorge Cruz debita uma letra que agarra bem o Zeitgest actual do nosso país.

Coisa bem distinta é a proposta dos Clã e do realizador Victor Hugo Pontes em que o formato textual é um mero pretexto para um genuíno exercício coreográfico filmado num único take que faz, de imediato, recordar a perícia dos Ok Go (e o Hélder Gonçalves está mesmo super-parecido com o baixista da banda norte-americana). Está a ser giro acompanhar esta aventura dos Clã na promoção do seu novo disco: estão a arriscar e, pouco a pouco, a tentar sair da sua zona de conforto. Espero ansiosamente pelos novos capítulos.

faina videomusical #21

.
.
Capicua (com M7): «Mão Pesada» (real. Vasco Mendes)

Existe uma espécie de complementaridade entre os dois vídeos mais recentes da Capicua: se o primeiro se focava na parte inferior do corpo da protagonista, este último filma apenas o busto das figuras que vão surgindo no ecrã. O movimento circular alternado parece-me ser uma forma (bem subtil e inteligente) que o Vasco Mendes terá encontrado para ilustrar com imagens o significado nome da rapper portuense que consegue o feito de promover o seu novo disco com dois fabulosos vídeos musicais. Chapeau to that.

Haim: «If I Could Change Your Mind» (real. Warren Fu)

Perfeição videomusical. Da coreografia (cortesia de Fatima Robinson) à fabulosa iluminação, passando pela edição e, claro, pela performance magnética daquelas manas. Não ficará na memória de muitos, é certo, mas não me parece que vai haver muitos vídeos este ano capazes de ombrear com esta brutal demonstração de virtuosismo de Warren Fu.

Damon Albarn: «Lonely Press Play» (real. Damon Albarn)
Major Lazer (ft. Moska & RDX): «Lose Yourself» (real. Diplo)

Para além da excelência das trilhas sonoras, há muito pouco em comum entre o novo vídeo de Damon Albarn e de Major Lazer (aka Diplo). A não ser isto: ambos foram realizados pelos próprios artistas com equipamentos caseiros de gravação (o Damon com o seu tablet e Diplo com a sua própria câmara de filmar digital). Penso que este será uma tendência que se irá acentuar nos próximos anos: a dos músicas assumirem cada vez mais uma visão holística do seu trabalho artístico. Se os resultados forem sempre tão bons e diversos, não vejo motivos para o cidadão se preocupar.

Pussy Riot: «Putin Will Teach How To Love» (real. Pussy Riot)

O vídeo musical mais importante do ano. E o melhor vídeo punk de sempre. Nem mais.

Jackpot videomusical

 

Ora aqui está uma pequena maravilha videomusical interactiva integralmente saída da cabeça de um trio português: Luís Clara Gomes (aka Moullinex), Sílvio Teixeira e Ana Magalhães. A história vem toda muito bem explicadinha neste artigo do P3 pelo que não há nada como irem lá ler. A engenhoca pode ser acedida aqui.

moullinexslotHá muito que admirar e elogiar nesta slot machine videomusical dos Moullinex: o conceito é original e inovador; a concretização é engenhosa e divertida (excelente o trabalho de caracterização, encenação e fotografia); a interacção homem-máquina é simples (um mero clique); a vertente promocional é diversificada (banda, música e concertos); e, sobretudo, existe uma genuína interacção entre o utilizador e a trilha sonora.

Gostei menos do facto de o URL da coisa remeter para a página de entrada do portal da banda (de certeza que não vai ficar lá para sempre, o que dará depois inevitavelmente origem a hiperligações que, em vez de remeter para a experiência interactiva, irão remeter para o que estiver no futuro nessa mesma página de entrada); da brincadeira ter encravado duas vezes (culpa do Vimeo: eu compreendo que o recurso ao portal deve ter facilitado imenso a engenharia da coisa, mas quando o Vimeo falha – e falha muitas vezes – isto tem logo repercussões dramáticas na fruição do utilizador); do prémio em caso de jackpot ser três faixas áudio e vez de um genuíno vídeo musical que poderia muito bem consistir numa montagem das (belas) imagens usadas na slot machine (a sério, penso que perderam aqui uma belíssima oportunidade); e, finalmente, do esquema manhoso para sacar endereços de e-mail (é cena de marketeiro, não havia necessidade).

Também se poderá argumentar se isto é, ou não, um vídeo musical. You know me: para mim, a definição do que é um vídeo musical será sempre algo em permanente mutação e esta belíssima LIVE MACHINE dos Moullinex é um contributo bem original para voltarmos a equacionar as fronteiras movediças do formato.

Resumindo: fabulosa empreitada. E os envolvidos estão todos de parabéns.

Caseiro e de trazer por casa

cabecalhoJP

Como já tive a oportunidade de referir anteriormente, o primeiro número da ESC:ALA inclui um artigo meu sobre um caso de estudo que é simultaneamente único e exemplar na forma como ilustra as vicissitudes da convergência do formato videomusical para as plataformas digitais.

O referido artigo consiste numa adaptação do primeiro caso de estudo da tese que irei defender, se tudo correr bem, no início do segundo semestre deste ano. O artigo, por sua vez, teve a sua génese neste blogue através de um dos primeiros posts que aqui escrevi no distante dia 24 de Janeiro de 2011 e isso numa altura em que ainda estava longe de ter uma ideia definida dos casos de estudo que iria incluir na minha dissertação.

É de facto impossível sobrevalorizar a importância que este blogue teve ao longo dos últimos três anos da minha investigação. Caso haja por aí algum leitor em vias de se meter na aventura de escrever uma tese, já sabem: vale mesmo a pena criar um blogue e utilizar os posts para escrever memorandos ou meras notas de investigação. Quando derem por ela e se sentarem para escrever a tese, já terão metade do trabalho feito no HTML.

    TÍTULO
    Caseiro e de trazer por casa: a odisseia videomusical de Average Homeboy

    AUTOR
    João Pedro da Costa

    RESUMO
    Após ter sido recusado para ser teledifundido pela MTV em 1989, o vídeo musical caseiro Average Homeboy de David Hazen tem vindo a transformar-se, desde 2006, num dos maiores fenómenos de popularidade do YouTube. O presente artigo pretende, a partir de um exercício transdisciplinar com os Estudos Literários, articular uma análise comparativa entre as relevantes diferenças contextuais das referidas tentativas de difusão com uma análise textual e transtextual do vídeo musical. O objectivo final deste exercício é fornecer algumas pistas relevantes para explicar, por um lado, a recusa inicial da televisão musical em teledifundir Average Homeboy e, por outro, o sucesso da sua posterior difusão na Web e nas redes sociais.

    PALAVRAS-CHAVE
    vídeo musical, televisão musical, Web, YouTube, redes sociais, kitsch, camp, cool.

    REFERÊNCIA
    COSTA, João Pedro da; (2014), Caseiro e de trazer por casa: a odisseia videomusical de Average Homeboy, ESC:ALA - Revista electrónica de estudos e práticas interartes, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, n.º 1.

Descubra as diferenças

Foi uma bela jogada de marketing por parte do 180 Creative Lab terem escolhido no passado mês de Setembro o Mac DeMarco para protagonizar um vídeo realizado por grande Hiro Murai (sobretudo porque o tema é inédito e apenas irá sair no próximo mês de Abril). O vídeo foi integralmente filmado numa tarde na bela cidade de Guimarães (ou arredores).

Se a façanha funcionou do ponto de vista da assinalável visibilidade que o canal 180 e o seu bendito Creative Lab ganharam esta semana, o resultado não apenas não corresponde às expectativas, como é verdadeiramente constrangedor, na medida em que copia integralmente a ideia original que é a razão de ser deste clássico absoluto. Sinceramente, esperava-se mais, muito mais, de um vídeo que envolve gente como o talento e gabarito de Hiro Murai e Mac DeMarco. Estou inconsolável.