Lady Gaga: «Born This Way» (2011, Nick Knight)

Hoje, até o Diário de Notícias dedicou uma página inteira à estreia do novo vídeo musical da Lady Gaga. Nem nos tempos mais áureos da MTV, o lançamento de um clipe de um Michael Jackson ou de uma Madonna era capaz de gerar tanto burburinho. Entretanto, o vídeo (sinceramente inconsequente e desinteressante) está a ter tantos acessos que bloqueou o contador do YouTube e, só na primeira hora, foram publicados comentários a um ritmo médio de 5 por segundo. Oh yeah.

De Alan Crosland a Garth Jennings com um apeadeiro em D.A. Pennbaker

Três momentos emblemáticos da videomusicalidade: The Jazz Singer (1927), Subterranean Homesick Blues (1965) e Lotus Flower (2010)

1.
No dia 6 de Outubro de 1927, a Warner Bros, na altura a enfrentar graves problemas financeiros, estreia em Nova Iorque The Jazz Singer, realizado por Alan Crosland. No filme, apesar de ainda subsistirem algumas passagens mudas, era possível ver e ouvir o actor Al Jolson, pintado de negro, a cantar acompanhado por uma banda jazz.

2.
Em 1965, o realizador D.A. Pennbaker filma um documentário intitulado Don’t Look Back sobre a primeira digressão de Bob Dylan no Reino Unido. O segmento de abertura do documentário, filmado no dia 8 de Maio, consistia num plano fixo no exterior do Hotel Savoy em Londres em que Bob Dylan, virado para a câmara, mostrava sucessivamente 64 cartazes ao som do seu mais recente single Subterranean Homesick Blues.

3.
No dia 20 de Fevereiro de 2011, os Radiohead disponibilizam no seu canal do YouTube, sem qualquer tipo de pré-aviso para a imprensa ou a sua comunidade de fãs, o vídeo musical do tema Lotus Flower, no qual se pode ver, a preto e branco, uma sequência de planos meticulosamente enquadrados e editados por Garth Jennings que captam o líder do grupo Thom Yorke a dançar e a mimar a letra do tema.

1+2.
Os dois primeiros segmentos entraram para a História por razões diferentes: o primeiro marca o início do cinema sonoro e o segundo inaugura a era moderna do vídeo musical. No entanto, facilmente se perceberá que ambos consistem no mesmo esforço: o da articulação, num único objecto, de uma sequência de imagens com uma trilha sonora (que, curiosamente, é musical em ambos os casos). O que verdadeiramente separa estes dois momentos históricos é a forma como cada um hierarquiza os elementos que o constituem. Em The Jazz Singer, o sonoro está subordinado ao visual, prenunciando o fim do cinema mudo; ao passo que no segmento de Don’t Look Back, as imagens pretendem de certa forma ilustrar o tema «Subterranean Homesick Blues», uma vez que os cartazes usados no registo vídeo reproduzem visualmente, de forma síncrona e com alguns erros voluntários («Suckcess» em vez de «Success», por exemplo), algumas palavras-chave cantadas por Bob Dylan, sublimando o impacto da letra.

3. (reprise)
Apesar de alguns evidentes e fulgurantes indícios (como o facto de ter ultrapassado a barreira das 5 milhões de visualizações em menos de uma semana), será ainda porventura prematuro afirmar que o terceiro segmento deixará a sua marca na história. Os Radiohead, no entanto, já têm o seu nome inscrito nos anais do vídeo musical, não apenas por possuir na sua videografia obras que são clássicos absolutos do formato (ver, por exemplo, os realizados por Magnus Carlsson, Jonathan Glazer, Grant Gee ou Michel Gondry), mas sobretudo por estarem associados ao momento inaugural da convergência do formato nas plataformas digitais. Em Outubro de 2000, como forma de colmatar a ausência de singles e de vídeos musicais para o álbum Kid A, a banda sugeriu à sua editora, a Capitol Records, a encomenda aos colectivos Shynola e The Vapour Brothers uma série de blips (3.1, SHYNOLA et al., 2000) destinados a promover na Internet o lançamento do novo disco da banda. Os blips mais não eram do que pequenos vídeos musicais em Java applet exportável, cuja duração média de 20 segundos era imposta pela então modesta velocidade de acesso à Internet. A inovação que os blips de Kid A representaram é bem visível no facto de alguns autores não terem hesitado em os apodarem, com alguma precipitação, de anti-vídeos (1.2, TATE, 2005, p. 103).

O sucesso dos blips foi tão significativo entre os utilizadores da rede que, passadas algumas semanas, era possível vê-los na MTV não como um spot publicitário, mas integrado na playlist do canal à semelhança de qualquer outro vídeo musical tradicional (2.3, COHEN, 2000). Parafraseando Henry Jenkins, o paradigma da convergência permite-nos entender este momento inaugural da presença do vídeo musical na Internet não apenas como o fluxo de um determinado conteúdo (vídeo musical) através de múltiplas plataformas (televisão e Web), como a cooperação entre diferentes indústrias dos media (indústria discográfica e televisiva) e o comportamento migratório de audiências (fãs da banda) que recorrem a todos os meios (televisor e computador) na busca das experiências de entretenimento (videomusicalidade) que procuram (2.1, JENKINS, 2006a, p. 2).

1+2+3.
Apesar dos anos que separam cada um destes três momentos videomusicais, todos partilham, curiosamente, 3 características fulcrais: o preto e branco; a performatividade; e a representação de uma persona. No caso de Al Jolson, essa persona remete mesmo para a etimologia grega da palavra, na medida em que usa, literalmente, uma máscara; enquanto que, nos casos de Dylan e de Yorke, as respectivas performances, como cue card holder e bailarino, respectivamente, operam um efeito surpresa que, tanto em 1965 como em 2011, não terá deixado de criar uma certa perplexidade nos fãs. Mais importante ainda, os três segmentos representam igualmente um período de transição mediática ou de remediatização: do cinema mudo para o sonoro; do vídeo musical como objecto autónomo que viria, a partir da década de 80, a imperar como formato televisivo; e, finalmente, do apogeu do formato enquanto objecto digital, incorporando características evidentes do vlogging. O facto de os três segmentos videomusicais partilharem, num intervalo de 84 anos, tantos similitudes parece indiciar que há sempre algo que se mantém neste jogo fascinante de sinestesia aplicada à cultura popular, seja ele oriundo do music-hall, do folk-rock ou do dubstep e seja ele fruído numa sala de cinema, num televisor ou num dispositivo ligado à net. Se tal vos parecer uma evidência, mil perdões. A mim, que tenho dedicado tantas horas ao estudo e à fruição da evolução do formato, tudo isto me soa a epifania, a descoberta.

2+3.

1+3.

The song’s much talked-about video, featuring Yorke’s postmodern vaudeville act, dramatizes all the more vividly this tug-of-war between the organic inspiration and tech-driven art that Radiohead finds itself caught in the middle of: While online smart alecks have set Yorke’s un-self-conscious moves to “Single Ladies” and goofed on his herky-jerky boogie as his version of Elaine’s dance from Seinfeld, it’s actually the Chaplin-esque bowler the frontman is wearing in the clip that might hold a clue to understanding the method to his madness. Maybe it’s reading too much into things, but Yorke’s unsynchronized, idiosyncratic grooving represents the body and music in a moment of liberation, however fleeting, the flipside and bookend to the iconic factory scene in Modern Times when, as film scholars have noted, Chaplin critiqued modern life by making pop art out of vamping the automaton-like gestures of working on the assembly line. As much as people may point and giggle at Yorke in what’s his most vulnerable moment, the video and the song are really providing a glimmer of hope for reaching out and touching someone in a virtual world. (Arnold Pan, PopMatters, negritos meus)

Remix Flower

A propósito disto, o frenesim continua. Uma bela amostra da velocidade a que se produz, distribui e consome vídeos musicais hoje em dia.

Teasers e trailers (reprise)

Mais um caso exemplar que demonstra a enorme fluidez dos vídeos musicais ao nível das suas referências e do papel da cultura vernacular na produção de um clipe com um orçamento superior a 100 mil dólares.

Tudo começa com o belo e original trailer de Gaspar Noé para o seu filme Enter The Void (2009).

No ano seguinte, Kanye West lança a sua obra-prima My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Em Novembro do mesmo ano, um utilizador, com o pseudónimo 5846 Productions, publica no Vimeo um mash-up de um tema desse disco, «All Of The Lights», com imagens do filme de Gaspar Noé.


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A semana passada, é apresentado ao mundo o novo vídeo de Kanye West para o single «All Of The Lights», realizado pelo famosíssimo e veterano Hype Williams. Ora comparem.

Desta história exemplar, vale a pena sublinhar o que me parece ser mais digno de nota: o facto de ter sido um mero utilizador a estabelecer pela primeira vez, através de um mash-up, a relação entre o tema de uma estrela como Kanye West com um filme de um prestigiado realizador como Gaspar Noé, tendo a referida relação posteriormente ecoado no trabalho criativo do mais bem pago realizador de vídeos musicais do planeta, Hype Williams. Ou então, claro, pode-se sempre acreditar em coincidências.

Radiohead: «Lotus Flower» (Garth Jennings, 2011)

Era para ter escrito sobre isto ontem, mas confesso que passei as últimas 36 horas completamente submerso em The King Of The Limbs o novo álbum dos Radiohead. Na senda de In Rainbows (2007), o grupo britânico continua não apenas a subverter o modus faciendi da indústria discográfica, os ditames dos manuais de marketing e a própria mecânica da imprensa musical (que foi duplamente apanhada desprevenida com o anúncio feito há 4 dias e a antecipação do lançamento para ontem e que agora anda feita barata tonta a disparar críticas impressionistas feitas em cima do joelho), como volta a conseguir algo de muito raro no actual panorama mediático: pôr uma imensidão de utilizadores a ouvir pela primeira vez o seu novo disco sensivelmente ao mesmo tempo. Chapeau.

E por falar em chapéus, era para mim óbvio que a forma a todos os níveis original como o disco foi lançado (com total secretismo, revelando apenas a capa e o título 4 dias antes do lançamento e sem a prévia edição de qualquer single) não poderia jamais dispensar o recurso a um vídeo musical. E que vídeo caramba (dois milhões de visualizações em pouco mais de 24 horas).

Muito se tem escrito sobre este soberbo «Lotus Flower» (Garth Jennings, 2011). Uma possível similitude com dois clássicos do formato (tendo a concordar sobretudo com o segundo exemplo), o seu caracter vaudevilliano e, como não podia deixar de ser, a sua particular apetência para exercícios de remistura. É, em todo o caso, um absoluto caso de estudo ao qual prometo voltar nos próximos dias. Há aqui pano para fartas mangas.