Sobre a difusão de vídeos na Web social

Os infográficos são uma praga comparável ao PowerPoint, mas vale a pena atentar a este sobre a difusão de vídeos na Web social (via Mashable):

 

 

O infográfico contém alguma informação interessante, de resto já reiterada por outros estudos, como o facto de a brevidade ser uma mais-valia na definição do número potencial de fruidores e de o facebook ser cada vez mais incontornável na fruição e na difusão de conteúdos audiovisuais. Existem, no entanto, diversos aspectos não referidos pelo infográfico que me parecem importantes num esboço, por mais sucinto que seja, da difusão audiovisual na Web social. Isto dá, obviamente, pano para mangas, mas vou tentar ser breve:

- a duração de um vídeo está longe de esgotar o rol de características capazes de despertar o desejo de fruição num utilizador e o seu agenciamento na difusão do conteúdo. Existe um vasto e complexo leque de factores que vão da definição da identidade à expressão da individualidade dos utilizadores que interferem nas suas escolhas de fruição e de disseminação. Esses factores podem ser de natureza emocional ou estética, ou de natureza mais racional, caso da obtenção ou da partilha de informação relevante para os utilizadores.

- o infográfico parece ignorar que o YouTube é, de facto, uma rede social (só assim se explica a sua não inclusão no segundo tópico);

- a difusão de conteúdos não possui apenas uma dimensão quantitativa (quantos utilizadores vêem um vídeo), mas qualitativa (é o grau de empenho despertado pela fruição de um vídeo que poderá levar ao agenciamento do utilizador na sua disseminação). Mais: o infográfico ignora o facto de haver utilizadores com maior capacidade de difusão do que outros por razões tão diversas como a sua predisposição ou motivação em partilhar informação e conhecimento (peritos) ou o facto de possuírem uma rede social mais vasta (conectores). É a clássica Law of the Few explorada por Malcom Gladwell em The Tipping Point (2.1, GLADWELL, 2000), que distingue os meros consumidores dos multiplicadores (2.1, McCRACKEN, 2005).

- o terceiro tópico poderá induzir em erro os menos atentos devido ao facto de se focar nas marcas (brands). Como é óbvio, o entretenimento (e, em particular, a música) é o sector mais audiovisualmente disseminado na Web, facto facilmente comprovado por diversos estudos que apontam os vídeos musicais como o formato mais fruído nas plataformas digitais.

- quaisquer dados demográficos convencionais (sexo, idade, etc.) são pouco úteis para definir o perfil dos utilizadores que consomem e disseminam conteúdos audiovisuais, na medida em que estes não contemplam os efeitos da plenitude (2.1, McCRACKEN, 2010) que levaram à fragmentação de uma audiência global em nichos de utilizadores cada vez mais específicos e diferenciados que formam a longa cauda (2.1, ANDERSEN, 2006) do mercado das plataformas digitais. E esses nichos, repito, não são identificáveis através do mero recurso a dados demográficos convencionais e implica, forçosamente, um estudo aprofundado de fenómenos como o fanismo.

Para terminar, um elogio: o infográfico (contrariamente ao artigo do portal onde foi retirado) jamais cai na tentação de reduzir os utilizadores das plataformas digitais a meros pacientes ou veículos que são “infectados” (a metáfora é essa) pelas características supostamente virais de certos conteúdos audiovisuais. Na difusão de qualquer objecto, há sempre 3 factores a ter em conta: o medium, o objecto e o utilizador. Ao insistir nesta metáfora viral, o marketing digital tem, nos últimos anos, vindo a menosprezar a importância deste último e decisivo factor: o humano.

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