Them Jeans: «Balloons» (Walter Robot, 2011)

A censura dos vídeos musicais é uma tradição com uma longa e rica história na difusão televisiva, quase sempre resultante da invocação de três pretextos: sexo, violência e product placement (ou derivados modernos e pseudo-sofisticados como o soft sponsoring). Convirá, no entanto, modalizar o discurso relativamente ao vasto histórico de censura da MTV: os seus actos resultaram não raras vezes de regras impostas pelas diversas entidades que regulam o sector televisivo e do receio de serem alvos de processos (milionários) por parte dos seus próprios telespectadores. A história da censura ao formato remonta a 1982, ano em que a MTV baniu o vídeo de Body Language dos Queen e teve como mais recente e famoso episódio a não difusão por parte da MTV de Telephone de Lady Gaga no mercado norte-americano. Com a convergência digital do formato, não apenas passaram a estar disponíveis os vídeos musicais alvo de censura nos últimos 30 anos pela MTV e por outros canais, como, devido às características da difusão digital, se tornou praticamente impossível censurar qualquer objecto videomusical. Quando, em Abril de 2010, o YouTube censurou o clipe realizado por Romain Gavras para o tema Born Free de M.I.A, a reacção dos utilizadores foi tão massiva que o portal não voltaria, passados poucos dias, a impedir o seu carregamento e visualização.

Como é óbvio, os resultados desta ausência pragmática de censura fruto da convergência digital dos vídeos musicais não deixou de ter consequências na produção do formato, sendo patente uma crescente tendência para a inclusão de conteúdos violentos ou de cariz manifestamente sexual, o que conferiu ao formato possibilidades de expressão estética que lhe estavam vedadas enquanto objecto promocional televisivo. E o mais recente exemplo que conheço é o fabuloso vídeo que vos deixo de seguida e que veio aterrar ontem, com algum estrondo, nas plataformas digitais. É por estas e por outras que o HTML é, cada vez mais, o ecossistema predilecto dos vídeos musicais. E dos seus fruidores.

As sextas-feiras nunca mais voltarão a ser o que eram

A novela continua e, 65 milhões de visualizações depois em apenas um mês, temos agora o desaparecimento momentâneo do vídeo no YouTube e um novo record de dislikes no portal (cerca de 1,3 milhões, é obra) tudo isto apesar da quase total ausência de airplay radiofónico. E, pelos vistos, a menina vai doar o (pouco) dinheiro que fez com vídeo ao Japão e à sua escolinha. Que queriducha.

Duas figuras (tristes)

Deixo aqui duas figuras (tristes porque monocromáticas) que procuram esquematizar algumas reflexões anteriormente expostas no blogue sobre a convergência digital dos vídeos musicais.

A primeira surge na sequência destes dois posts e sintetiza a convergência de três formatos videomusicais nas plataformas digitais: o videoclipe (optei por essa designação para sublinhar o facto de estar a falar de um objecto de difusão eminentemente televisiva) em vídeo musical na Web (no projecto de investigação, irei optar pelo neologismo fluxo videomusical); o video album (VHS e DVD) em séries videomusicais e as óperas-rock (espectáculo performativo ou cinematográfico) em médias-metragens videomusicais.

Convergência digital de formatos videomusicais

 

A segunda deriva deste post, onde procurei expor a complexidade da definição dos vídeos musicais no contexto da sua convergência digital decorrente do facto dos contornos do formato estarem cada vez mais esbatidos ou menos nítidos, sobrepondo-se a outros formatos audiovisuais que vão dos convencionais videoclipes televisivos ao cinema, passando pelos spots publicitários, a vídeo-arte, os jogos de vídeo, trailers e conteúdos gerados pelos utilizadores (CGUs) com os fan-made videos, o vlogging, entre outras formas de produção vernacular.

Convergência digital de formatos audiovisuais para a videomusicalidade

Séries: outra tendência da videomusicalidade

Let England Shake (2011) e The Defamation of Strickland Banks (2010-2011): dois exemplos eloquentes da recente tendência da videomusicalidade para as séries

Para além do surgimento de médias-metragens, outra tendência manifesta da convergência dos vídeos musicais nas plataformas digitais é o surgimento de séries videomusicais. Até ao virar do milénio, a produção de um vídeo musical era um exercício relativamente bissexto em comparação com o enorme débito musical da indústria discográfica. Os vídeos musicais estavam reservados aos singles das bandas com uma dimensão comercial suficiente para que as editoras caucionassem a produção de um vídeo musical: se o tema não entrasse no hit parade, o investimento não faria sentido pela simples razão que o mesmo não teria espaço televisivo para a sua difusão. Com a convergência do formato e as possibilidades da difusão digital, o débito da produção videomusical aproximou-se muito significativamente da produção musical, quer através do aumento do número de vídeo musicais produzidos de forma convencional (isto é, resultante da encomenda de editoras), quer através da produção vernacular das próprias bandas e respectivos fãs.

Contrariamente às médias-metragens, cuja origem podia ser traçada a partir das óperas rock das décadas de 60 e 70, os precursores das séries videomusicais são os video albums, objectos físicos materializados em suportes electromagnéticos constituídos por vídeos musicais cujo alinhamento correspondia à sequência de faixas de um álbum musical. Curiosamente, a origem desse formato é ainda anterior ao surgimento da própria MTV e remonta a 1979, ano em David Mallet realizou um vídeo musical para todas as canções de Eat To The Beat dos Blondie. Apesar de os video albums virem a obter alguma notoriedade nas décadas seguintes com o desenvolvimento do mercado do VHS e dos DVDs, a verdade é que os mesmos, devido aos custos de produção, continuavam em grande medida restritos a projectos musicais mainstream. Com a convergência digital, o âmbito das séries videomusicais ampliou-se consideravelmente, não obstante o facto de a ausência de um formato físico dificultar a sua fruição como um todo ou mesmo a sua inteligibilidade enquanto unidade.

Também em oposição às médias-metragens, as séries videomusicais não implicam a construção de uma sequência narrativa na medida em que estão directamente subordinadas à sequência do seu duplo (conjunto de temas musicais de um álbum) e a sua unidade enquanto objecto artístico está sobretudo ligada à sensibilidade estética do realizador responsável pela sua criação. Desta forma, o formato é consideravelmente mais livre, podendo ser fruído de diversas formas por parte dos utilizadores: parcial ou totalmente e sem uma sequência pré-determinada.

Deixo aqui três exemplos recentes (e ainda incompletos) de séries videomusicais que utilizam de forma muito sábia a interface do YouTube para conferir uma certa unidade na experiência de fruição ao reunirem sob o mesmo username os diferentes elementos que a constituem. A primeira é a referente a The Defamation of Strickland Banks de Plan B (Daniel Wolfe, 2010-2011), a segunda referente a Salvé! dos The Magnetic Zeros (Edward Sharpe, 2009-2011) e a terceira a Let England Shake de PJ Harvey (Seamus Murphy, 2011). Nota para o facto de esta última série, e contrariamente às anteriores, não se limitar a ilustrar as faixas musicais do disco de PJ Harvey, acrescentando diversos momentos musicais performativos que são exclusivos do formato. Eis dois “episódios” das referidas séries:

 

 

 

NOTA: post actualizado em 18/04/2011.

Foster The People: «Helena Beat» (Daniels, 2011)

Juntar no mesmo vídeo seres caninos e desportos radicais (sobretudo skate) é sempre um bom princípio para um vídeo alcançar alguma notariedade (com certeza que se lembram deste artista, já com mais de 15 milhões de visualizações). Se se transformar esse hipotético objecto num vídeo musical, acrescentando uma trilha sonora e subordinando a edição das imagens à mesma, adicionando ainda efeitos especiais à maneira, o resultado, haja mestria e talento, não andará muito longe disto:

 

O facto de, pelos vistos, a promoção da trilha sonora não ter estado na origem da produção deste vídeo musical (que tem um título, Dogboarding, que não coincide com o da faixa musical) é apenas mais um exemplo da expansão e do esbater das fronteiras do formato nas plataformas digitais.