Séries: outra tendência da videomusicalidade

Let England Shake (2011) e The Defamation of Strickland Banks (2010-2011): dois exemplos eloquentes da recente tendência da videomusicalidade para as séries

Para além do surgimento de médias-metragens, outra tendência manifesta da convergência dos vídeos musicais nas plataformas digitais é o surgimento de séries videomusicais. Até ao virar do milénio, a produção de um vídeo musical era um exercício relativamente bissexto em comparação com o enorme débito musical da indústria discográfica. Os vídeos musicais estavam reservados aos singles das bandas com uma dimensão comercial suficiente para que as editoras caucionassem a produção de um vídeo musical: se o tema não entrasse no hit parade, o investimento não faria sentido pela simples razão que o mesmo não teria espaço televisivo para a sua difusão. Com a convergência do formato e as possibilidades da difusão digital, o débito da produção videomusical aproximou-se muito significativamente da produção musical, quer através do aumento do número de vídeo musicais produzidos de forma convencional (isto é, resultante da encomenda de editoras), quer através da produção vernacular das próprias bandas e respectivos fãs.

Contrariamente às médias-metragens, cuja origem podia ser traçada a partir das óperas rock das décadas de 60 e 70, os precursores das séries videomusicais são os video albums, objectos físicos materializados em suportes electromagnéticos constituídos por vídeos musicais cujo alinhamento correspondia à sequência de faixas de um álbum musical. Curiosamente, a origem desse formato é ainda anterior ao surgimento da própria MTV e remonta a 1979, ano em David Mallet realizou um vídeo musical para todas as canções de Eat To The Beat dos Blondie. Apesar de os video albums virem a obter alguma notoriedade nas décadas seguintes com o desenvolvimento do mercado do VHS e dos DVDs, a verdade é que os mesmos, devido aos custos de produção, continuavam em grande medida restritos a projectos musicais mainstream. Com a convergência digital, o âmbito das séries videomusicais ampliou-se consideravelmente, não obstante o facto de a ausência de um formato físico dificultar a sua fruição como um todo ou mesmo a sua inteligibilidade enquanto unidade.

Também em oposição às médias-metragens, as séries videomusicais não implicam a construção de uma sequência narrativa na medida em que estão directamente subordinadas à sequência do seu duplo (conjunto de temas musicais de um álbum) e a sua unidade enquanto objecto artístico está sobretudo ligada à sensibilidade estética do realizador responsável pela sua criação. Desta forma, o formato é consideravelmente mais livre, podendo ser fruído de diversas formas por parte dos utilizadores: parcial ou totalmente e sem uma sequência pré-determinada.

Deixo aqui três exemplos recentes (e ainda incompletos) de séries videomusicais que utilizam de forma muito sábia a interface do YouTube para conferir uma certa unidade na experiência de fruição ao reunirem sob o mesmo username os diferentes elementos que a constituem. A primeira é a referente a The Defamation of Strickland Banks de Plan B (Daniel Wolfe, 2010-2011), a segunda referente a Salvé! dos The Magnetic Zeros (Edward Sharpe, 2009-2011) e a terceira a Let England Shake de PJ Harvey (Seamus Murphy, 2011). Nota para o facto de esta última série, e contrariamente às anteriores, não se limitar a ilustrar as faixas musicais do disco de PJ Harvey, acrescentando diversos momentos musicais performativos que são exclusivos do formato. Eis dois “episódios” das referidas séries:

 

 

 

NOTA: post actualizado em 18/04/2011.

4 comments on “Séries: outra tendência da videomusicalidade

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