Lindsay Lohan x 2

No espaço de um mês, dois eloquentes exemplos de convergência de práticas artísticas plásticas (fotografia, pintura e cinema) para a videomusicalidade foram parar a Web com a curiosa coincidência de ambos gravitarem em torno de uma das personalidades mais emblemáticas e polémicas de Hollywood: Lindsay Lohan. O primeiro consiste num vídeo musical de 48 segundos realizado pelo fotógrafo Tyler Shields onde Lindsay Lohan surge (literalmente) vampirizada ao lado do actor Michael Trevino ao som de Playground Love dos Air. O segundo é da autoria do pintor Richard Phillips que filma ao longo de menos de dois minutos a actriz norte-americana com uma sensibilidade manifestamente hitchcockiana sob uma trilha sonora especialmente composta por Tamaryn and Rex John Shelverton. Apesar de o primeiro segmento poder ser visto como um mero conteúdo promocional do portal e do trabalho do fotógrafo e o segundo como videoarte (que, de resto, estará em exibição na Gogosian Gallery entre os próximos dias 1 a 5 de Junho), a verdade é que ambos são não apenas manifestos exercícios de videomusicalidade, como a sua fruição converge inapelavelmente para as plataformas digitais.

Relatório #4

1) Consegui atingir o objectivo que tinha definido o mês passado. Na verdade até o superei: concluí não apenas o capítulo introdutório como compilei uma série de capítulos finais, entre os quais a bibliografia, a fluxografia, os estudos quantitativos e o glossário (as respectivas versões do documento da tese diferem ligeiramente das incluídas nas hiperligações). Neste momento, a versão que irei apresentar no próximo mês de Julho tem 143 páginas. Podem aceder aqui ao índice (a vermelho os capítulos ainda não redigidos). Contrariamente às minhas expectativas iniciais, a redacção do capítulo introdutório, longe de ser um exercício precoce, revelou ser fundamental para estruturar na minha cabeça aquilo que será a organização final do documento. Fica portanto a dica: não deixem o primeiro capítulo para a fase final do trabalho, na medida em que o exercício pode ser frutífero numa fase inicial da redacção. Pelas minhas contas, estarei sensivelmente a meio do trabalho. O objectivo é manter esta velocidade de cruzeiro e, antes das férias de Agosto, proceder à conversão do segundo capítulo da tese em dois artigos em Português. A ver vamos.

2) Irei dedicar as duas próximas semanas à redacção do artigo em Inglês que irei apresentar no Hermes 2011. Desta forma, prevejo que o ritmo de actualizações no blogue decresça nesse mesmo período. Curiosamente, Maio acabou por ser o mês com a maior média diária de acessos (30) de sempre do blogue. No total, desde Janeiro de 2011, já tive o privilégio de contar com mais de 4000 leitores.

3) Quanto às corridas, participei no passado dia 22 de Maio na mais árdua prova da minha curta carreira de corredor: a Meia Maratona do Douro Vinhateiro. O percurso, ao contrário do que afirmava a organização, estava longe de ser plano: nada mais nada menos do que 215 m de ganho de elevação ao longo de 21 kms que foram percorridos sob uma temperatura imprópria para corridas: 30ºC. Acabei por, naturalmente, fazer o meu pior tempo de sempre na distância: 1h53m45s, mas aí o que conta foi ter mesmo conseguido terminar (com um alto bronze) uma prova onde vi muita gente graúda ficar pelo caminho. No mês de Junho, irei participar em mais duas corridas: nos 7 kms da Corrida pelo Desporto Limpo em Gaia (dia 12) e nos 15 kms da Corrida de São João no Porto (dia 26). Mais importante, no entanto, é o facto de, no próximo dia 20 de Junho, iniciar o meu plano de 20 semanas de treinos rumo àquela que será, em Novembro, se tudo correr bem, a minha primeira Maratona. Não vai ser fácil, mas não vejo a hora de mergulhar neste desafio.

Da TV norte-americana no final do serão para a Web planetária a qualquer hora do dia

Desta vez, o meu timing deixou-me ficar mal. Ando há semanas para escrever umas barbaridades sobre a convergência de um género muito específico de vídeos musicais nas plataformas digitais: o das actuações musicais nos denominados late-night TV shows norte-americanos. Pois bem, Ryan Dombal acaba de publicar hoje mesmo na Pitchfork um artigo bem interessante intitulado Last Night: Independent Music and Late-Night TV que aborda sensivelmente a mesma temática (ide lá ler que vale bem a pena). Destaque para três factos referidos no artigo: i) a presença de projectos musicais alternativos em programas mainstream; ii) a quase automática transposição (ou convergência) desses segmentos videomusicais para a Web através da acção dos seus utilizadores, entre os quais se destaca Michael Banks, um antigo funcionário da indústria musical, responsável pelo portal de curadoria digital Audio Perv; e iii) a relação entre os responsáveis pelos referidos programas televisivos e os utilizadores das plataformas digitais ser manifestamente simbiótica e, mais importante ainda, ambas as partes reconhecerem a mais-valia dessa relação.

Tyler, The Creator: «Yonkers» (Wolf Haley, 2011)

Contra mim falo: apenas ouvi falar dos Odd Future Wolf Gang Kill Them All em Março deste ano graças a este mui recomendável artigo da Pitchfork. Os Odd Future são um conjunto de rappers de Los Angeles, a maioria deles nascida em plena década de 90 (estou a ficar velho), que tem causado um certo furor na imprensa especializada e uma genuína histeria nas plataformas digitais. Este colectivo, caracterizado pelo seu humor cáustico e politicamente incorrecto (Kill People! Burn Shit! Fuck School! é um dos seus refrões mais emblemáticos), é liderado por Tyler, The Creator, um absoluto caso de estudo à espera de ser estudado sobre a ascensão da criatividade vernacular nas plataformas digitais. Vejam, por exemplo, o facebook, o Tumblr ou a catadupa de vídeos no canal oficial do YouTube do colectivo e ainda a constante ebulição do Twitter e do Formsping pessoais de Tyler, The Creator: a forma intensa como todas estas redes sociais são utilizadas representa um dos mais eloquentes exemplos de um novo paradigma de relacionamento entre artistas e a sua audiência. No fundo, é como se não houvesse nenhuma distância: os artistas desceram do Olimpo do Estrelato (ainda promovido pela indústria discográfica em fenómenos cada vez mais raros como a Lady Gaga) e confundem-se cada vez mais com os fãs, seus absolutos semelhantes.

Há cerca de dois meses, Tyler, The Creator disponibilizou na Web um vídeo musical que demonstra não apenas a sua capacidade dramática e familiaridade com as novas tecnologias (Wolf Haley é um pseudónimo do rapper), como um equilíbrio perfeito entre sofisticação e sobriedade que apenas surpreenderá quem nunca viu as suas anteriores produções audiovisuais. Um vídeo musical que, apesar de estar em absoluta consonância com a criatividade vernalucar que pulula nas plataformas digitais (clipe performativo embrulhado em dois longos planos-sequência de baixo orçamento), consegue ainda assim emancipar-se dessa condição pela forma subtil e extremamente eficaz como são utilizadas técnicas cinematográficas como a focagem (e a correspondente profundidade de campo), a iluminação (primorosa) ou o lip-sync. Fabuloso.

ICPD – Summer Doctoral Consortium

O programa doutoral em que está inserido o meu projecto de investigação está a organizar, no âmbito da Universidade de Verão 2011 da Universidade do Porto, o evento supra-referido que terá lugar nos próximos dias 6, 7 e 8 de Julho em Arouca. Para além de servir como momento de avaliação dos doutorandos para a unidade curricular Seminário II, pretende-se que o encontro seja um genuíno espaço de discussão crítica e de convívio entre docentes, investigadores e estudantes. Caso haja por aí alguém interessado nestas doutas e etéreas matérias, podem inscrever-se no simpósio até ao próximo dia 12 de Junho. Afinal de contas, estamos a falar de cerca de duas dezenas de projectos de investigação que cobrem uma vasta gama de temas relacionados com a informação e a comunicação em plataformas digitais, pelo que não faltarão motivos de interesse suplementar para quem, repito, se interessa por estas coisas. Para mais informações, podem consultar aqui o folheto do evento que, na minha opinião, deveria conter pelo menos o título dos projectos de investigação que irão ser discutidos (se acharem o mesmo, digam-mo por favor, que depois farei chegar a nossa indignação a quem de direito). Estarei por lá, obviamente, não apenas para apresentar o estado do meu projecto de investigação e assistir às apresentações dos meus colegas, mas também para dar por lá umas valentes corridas. Vejam lá isso.

Why I (Still) Want My MTV (Kevin Williams, 2003)

Why I (Still) Want My MTV: Music Video and Aesthetic Communication de Kevin Williams (1.1, WILLIAMS, 2003) é uma das obras mais fascinantes jamais publicadas sobre o vídeo musical. Não obstante ser um estudo relativamente anacrónico tendo em conta o que eram, na data da sua publicação, as tendências do formato e a conjuntura mediática em que estava inserida a MTV, o livro é um exemplar absolutamente bissexto de uma abordagem filosófica ao fenómeno da videomusicalidade. A partir de conceitos teóricos como a estética fenomenológica e a cognição incorporada de filósofos como Edmund Husserl, Martin Heidegger e Maurice Merleau-Ponty (pp. 233-262), Kevin Williams propõe um estudo descritivo do estilo videomusical como um feixe reversível (pp. 187-206) de expressões de experiências perceptivas (produção) e de percepções de experiências expressivas (recepção) de e num determinado espaço e momento cultural:

Music video style expresses the possibilities inherent in the perceptual world. In turn, what we perceive, at a given cultural moment, is transformed, amplified, diminished, or augmented by acts of expression. (1.1, WILLIAMS, 2003, p. 7)

Kevin Williams enceta as suas reflexões afirmando que uma descrição da relação entre som e imagem através de categorias como diegético e não-diegético ou uma divisão tipológica do vídeo musical similar às definidas por autoras como Marsha Kinder (1.1, KINDER, 1984) ou E. Ann Kaplan (1.1, KAPLAN, 1987) são teoricamente inoperantes. Em alternativa, é proposta uma concepção rizomática (2.1, DELEUZE et al, 2007) da MTV, que sustenta teoricamente a efectiva abolição operada pelo canal de dicotomias como rádio vs. televisão, música vs. vídeo ou programa vs. publicidade (1.1, WILLIAMS, 2003, pp. 39-76). A criação da MTV corresponderia, desta forma, ao surgimento de um fluxo gerador de estados de espírito (mood enhancer flow) nos telespectadores que assenta no facto de a fruição televisiva não exigir necessariamente à sua audiência um grau elevado de atenção, podendo ser experienciado de múltiplas maneiras. Segundo o autor, a MTV acabou por criar um estilo que representa uma forma complexa de mediação tecnológica que não apenas gera uma nova forma de expressão (produção) como revela novas formas de percepção (recepção) (pp. 19-38). Kevin Williams sustenta essa sua afirmação ao analisar o fluxo da MTV, no qual identifica diversos segmentos regidos por ritmos sazonais, diários, horários e musicais que conferem ao canal um contiguidade estilística que une os vídeos musicais, os spots publicitários, os blocos noticiosos, as promos e os ids (logos animados) que formam a sua programação (pp. 77-90). Kevin Williams apoda o referido estilo de visualidade-musical (musical-visuality) e caracteriza este conceito-chave da sua investigação i) pela atribuição da mesma importância à música e à imagem na sua sintaxe (pp. 125-140); ii) pela sua produção de sentido sublimar os sentidos produzidos – the message is the style (pp. 91-124); iii) por uma representação hiperrealista da performance musical (pp. 141-164); e iv) por uma estética que se baseia na experiência sinestésica (p. 165-186), na qual palavras, música e imagens se combinam para criar um echos, isto é, numa nova forma de produção e recepção multimédia onde o todo é imensamente superior à soma das partes (pp. 207-232). Desta forma, Kevin Williams conclui que é fundamental instituir uma abordagem ecológica à comunicação estética da MTV que englobe a relação entre a expressão, a recepção e o contexto, isto é, uma metodologia capaz de descrever a sintaxe existente entre os objectos, a iconografia pop, as letras, os ritmos, as figuras políticas, as canções e os corpos que surgem na paisagem mediática televisiva sob a forma de um fluxo rizomático de sons e imagens:

MTV is more than just another cable television network, more than a corporate, capitalistic institution, more than a play of excessive, ambiguous and contradictory imagery. MTV is an access to understanding the postmodern age of television, the interconnections between video-technology and the contemporary, culturally lived world and our conceptions of the World. (1.1, WILLIAMS, 2003, p. 231)

A densidade das reflexões filosóficas que Kevin Williams devota a um objecto de estudo tão prosaico como o vídeo musical e a escolha de um título manifestamente infeliz e redutor poderão, até certo ponto, explicar o facto de o seu meritório trabalho não ser citado por nenhum dos autores que se dedicaram posteriormente ao estudo do vídeo musical. Tal não deixa, no entanto, de ser motivo de alguma perplexidade se for tido em conta o carácter inovador e a amplitude da sua incursão pela videomusicalidade.

Pomplamoose: «Angry Birds Theme Song» (Pomplamoose, 2011)

 

Apesar de não concordar minimamente com a ideia peregrina de David Kusek que os supostos video songs que a dupla Pomplamoose tem vindo a disponibilizar no YouTube representam uma novidade do universo dos vídeos musicais (há mais de 30 anos que outros artistas têm feito vídeos musicais com o making of dos temas), tenho de abrir uma pequena excepção para este último clipe da banda. Isto porque estamos perante um caso eloquente de convergência transmediática para o formato videomusical nas plataformas digitais: o tema de introdução do famosíssimo jogo Angry Birds é sujeito a uma versão feita por uma banda que transforma a sua concepção num vídeo musical cuja estrutura está directamente relacionada com a dinâmica do jogo. A consequência é uma ampliação da dimensão promocional do formato: para além de promover a banda e a versão do tema disponível no iTunes, o vídeo promove igualmente o próprio jogo e ainda um smartphone da Samsung, num exercício transmediático que, novamente, demonstra a importância do formato na actual paisagem digital. O resultado está à vista: um milhão de visualizações no YouTube em apenas 5 dias. Estou certo que veremos muitos exercícios similares nos próximos tempos.

Glossário (actualização)

Uma das dificuldades que tenho sentido no projecto de investigação prende-se com o facto de estar a redigir a tese em Português. Essa opção prende-se com a minha genuína dificuldade em conformar-me com a actual hipervalorização do Inglês e o seu estatuto de língua franca da comunidade científica. No caso das ciências da comunicação, e como já o referi anteriormente, os resultados dessa hipervalorização são bem visíveis: i) uma ingénua desvalorização da qualidade do discurso face à ilusória universalidade de um “conteúdo” não raras vezes expresso em broken English; ii) a proliferação de anglicismos desnecessários em textos científicos escritos em Português; e iii) o consequente empobrecimento lexical da terminologia científica do referido idioma. Partilho, de resto, a opinião do linguista Nicholas Ostler (2.1, OSTLER, 2010), de que existem óbvios indicadores sociais, económicos e tecnológicos para crer que caminhamos (e ainda bem) para um futuro em que produção científica será manifestamente multilingue.

A principal dificuldade decorrente desta opção linguística reside no facto de se ter revelado imperiosa a criação de um aparato terminológico que não apenas traduzisse, em Português, algumas expressões anglo-saxónicas (user-generated contents, prosumers, spreadibility, drillability, etc.), mas que incluísse igualmente alguns neologismos (acafã, fanismo, transfluência, etc.) para enquadrar epistemologicamente a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais. Desta forma, tenho vindo, desde Janeiro de 2011, a criar um glossário que inclui, por ordem alfabética, uma definição concisa não apenas do referido léxico, como de termos que são, por vezes, usados por outros autores com uma acepção distinta da que é utilizada no projecto de investigação, sobretudo quando os mesmos correspondem a conceitos operatórios isolados ou a conceitos sistémicos do modelo de análise (utilizador, blips, cânone, fruição, curadoria, propagação, disseminação, etc.).

Vem tudo isto a propósito do facto de, nas últimas semanas, ter vindo a actualizar de forma mais intensa o referido glossário. Actualmente, o mesmo já comporta 35 termos devidamente definidos e contextualizados no âmbito do projecto de investigação. Fica a dica para os eventuais leitores que queiram estar mais sintonizados com a linguagem técnica que utilizo para abordar, com variável enfado, os temas que são uma das razões de ser deste blogue.

Rome (ft. Norah Jones): «3 Dreams of Black» (Chris Milk, 2011)

Chris Milk está definitivamente na linha de frente da tecnologia de interacção na videomusicalidade. Depois de ter sido nomeado 9 vezes para os Webby Awards, o realizador norte-americano surge-nos agora com um belo exercício interactivo em 3D. Podem ter acesso a esta experiência aqui. Único senão: a coisa exige a instalação do Google Chrome. Mas pronto, vale bem os 5 minutos de seca da instalação.

Mais posts sobre interactividade nos vídeos musicais podem ser lidos aqui.