Why I (Still) Want My MTV (Kevin Williams, 2003)

Why I (Still) Want My MTV: Music Video and Aesthetic Communication de Kevin Williams (1.1, WILLIAMS, 2003) é uma das obras mais fascinantes jamais publicadas sobre o vídeo musical. Não obstante ser um estudo relativamente anacrónico tendo em conta o que eram, na data da sua publicação, as tendências do formato e a conjuntura mediática em que estava inserida a MTV, o livro é um exemplar absolutamente bissexto de uma abordagem filosófica ao fenómeno da videomusicalidade. A partir de conceitos teóricos como a estética fenomenológica e a cognição incorporada de filósofos como Edmund Husserl, Martin Heidegger e Maurice Merleau-Ponty (pp. 233-262), Kevin Williams propõe um estudo descritivo do estilo videomusical como um feixe reversível (pp. 187-206) de expressões de experiências perceptivas (produção) e de percepções de experiências expressivas (recepção) de e num determinado espaço e momento cultural:

Music video style expresses the possibilities inherent in the perceptual world. In turn, what we perceive, at a given cultural moment, is transformed, amplified, diminished, or augmented by acts of expression. (1.1, WILLIAMS, 2003, p. 7)

Kevin Williams enceta as suas reflexões afirmando que uma descrição da relação entre som e imagem através de categorias como diegético e não-diegético ou uma divisão tipológica do vídeo musical similar às definidas por autoras como Marsha Kinder (1.1, KINDER, 1984) ou E. Ann Kaplan (1.1, KAPLAN, 1987) são teoricamente inoperantes. Em alternativa, é proposta uma concepção rizomática (2.1, DELEUZE et al, 2007) da MTV, que sustenta teoricamente a efectiva abolição operada pelo canal de dicotomias como rádio vs. televisão, música vs. vídeo ou programa vs. publicidade (1.1, WILLIAMS, 2003, pp. 39-76). A criação da MTV corresponderia, desta forma, ao surgimento de um fluxo gerador de estados de espírito (mood enhancer flow) nos telespectadores que assenta no facto de a fruição televisiva não exigir necessariamente à sua audiência um grau elevado de atenção, podendo ser experienciado de múltiplas maneiras. Segundo o autor, a MTV acabou por criar um estilo que representa uma forma complexa de mediação tecnológica que não apenas gera uma nova forma de expressão (produção) como revela novas formas de percepção (recepção) (pp. 19-38). Kevin Williams sustenta essa sua afirmação ao analisar o fluxo da MTV, no qual identifica diversos segmentos regidos por ritmos sazonais, diários, horários e musicais que conferem ao canal um contiguidade estilística que une os vídeos musicais, os spots publicitários, os blocos noticiosos, as promos e os ids (logos animados) que formam a sua programação (pp. 77-90). Kevin Williams apoda o referido estilo de visualidade-musical (musical-visuality) e caracteriza este conceito-chave da sua investigação i) pela atribuição da mesma importância à música e à imagem na sua sintaxe (pp. 125-140); ii) pela sua produção de sentido sublimar os sentidos produzidos – the message is the style (pp. 91-124); iii) por uma representação hiperrealista da performance musical (pp. 141-164); e iv) por uma estética que se baseia na experiência sinestésica (p. 165-186), na qual palavras, música e imagens se combinam para criar um echos, isto é, numa nova forma de produção e recepção multimédia onde o todo é imensamente superior à soma das partes (pp. 207-232). Desta forma, Kevin Williams conclui que é fundamental instituir uma abordagem ecológica à comunicação estética da MTV que englobe a relação entre a expressão, a recepção e o contexto, isto é, uma metodologia capaz de descrever a sintaxe existente entre os objectos, a iconografia pop, as letras, os ritmos, as figuras políticas, as canções e os corpos que surgem na paisagem mediática televisiva sob a forma de um fluxo rizomático de sons e imagens:

MTV is more than just another cable television network, more than a corporate, capitalistic institution, more than a play of excessive, ambiguous and contradictory imagery. MTV is an access to understanding the postmodern age of television, the interconnections between video-technology and the contemporary, culturally lived world and our conceptions of the World. (1.1, WILLIAMS, 2003, p. 231)

A densidade das reflexões filosóficas que Kevin Williams devota a um objecto de estudo tão prosaico como o vídeo musical e a escolha de um título manifestamente infeliz e redutor poderão, até certo ponto, explicar o facto de o seu meritório trabalho não ser citado por nenhum dos autores que se dedicaram posteriormente ao estudo do vídeo musical. Tal não deixa, no entanto, de ser motivo de alguma perplexidade se for tido em conta o carácter inovador e a amplitude da sua incursão pela videomusicalidade.

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