Scroll down videomusical (actualizado)

A criatividade vernacular digital não pára de me surpreender, sobretudo no que diz respeito ao universo dos vídeos musicais.

Eis o que uma dupla de utilizadores (Audy Graulund e Matt Miles) fez para o clássico «Bohemian Rhapsody» dos Queen: uma sucessão de imagens (repletas de referências transtextuais e transmediáticas) que acompanham visualmente o tema (via YouTube, por exemplo) e cujo sincronismo depende do scroll down do utilizador. Estamos assim perante um vídeo musical digital, interactivo, karaoke e fortemente inspirado na lógica pictórica e espacial da banda desenhada. Simples e inovador.

Podem ter acesso ao original aqui ou simplesmente na continuação deste post. Confesso que não resisti à tentação e que copiei a totalidade do ficheiro gif (700 x 28027 píxeis) para a memória do blogue.

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Scenes From The Suburbs (Spike Jonze, 2011)

Está finalmente disponível no HTML a muito aguardada média-metragem que Spike Jonze realizou para o último disco dos Arcade Fire. Para já, o filme está disponível aqui (como legendas em Português e tudo), embora seja previsível que o mesmo vá parar nas próximas horas ao sítio do costume.

Particularmente significativo o facto de a média-metragem ser oficialmente disponibilizada nas plataformas digitais mais de um mês antes da sua edição física (dia 2 de Agosto como parte integrante da reedição de The Suburbs), o que mais uma vez demonstra a furiosa convergência da videomusicalidade na Web Social.

Chamo a vossa atenção para a forma prodigiosa como a música dialoga com as imagens do filme através de um vasto e diversificado conjunto de técnicas que, para além de potencializar experiências de fruição sinestésica, liberta a música do seu mero estatuto de banda sonora.

Podem ainda ler uma entrevista de Win Butler, líder da banda canadiana, sobre a média-metragem aqui.

Relatório #5

 

1) Concluída a minha participação no Hermes 2011, falta-me agora aguardar pelo Summer Coiso. Antes das férias em Agosto, há pelo menos duas tarefas que quero despachar: conversão do segundo capítulo da tese em dois artigos e implementar a secção da Lyra Digital (mais detalhes sobre isto em tempo oportuno). Se houver tempo, arrancar com o terceiro capítulo da tese também era giro. A ver vamos.

2) Já iniciei o meu plano de treinos de 20 semanas rumo à minha primeira maratona (em Novembro). Na verdade, terminei hoje a primeira semana: cerca de 62km que deixaram as suas marcas no corpo – hoje mesmo participei em mais uma prova (com uma temperatura acima dos 30ºC) e as dores musculares foram por vezes bastante eloquentes. Faltam 19 semanas e, hoje, o objectivo parece-me muito mais longínquo do que no início da semana. O que, como é óbvio, só pode ser bom sinal.

Experiencing Music Video: Aesthetics and Cultural Context (Carol Vernallis, 2004)

Experiencing Music Video: Aesthetics and Cultural Context (1.1 VERNALLIS 2004) é ainda a principal obra de Carol Vernallis, talvez a mais prolífera autora no domínio do estudo dos vídeos musicais. A sua abordagem encara o vídeo musical como um formato distinto dos seus precursores (cinema, televisão e fotografia), isto é, como um medium que possui uma forma específica de organizar materiais e explorar temas num determinado fluxo temporal. Segunda a autora, essa articulação é passível de ser descrita através de uma análise aprofundada da forma como códigos musicais e visuais interagem para dar origem a um objecto artístico portador de um variável aparato ideológico (idem: X), fazendo vir ao de cima alguns aspectos fundamentais do vídeo musical como a sua volatilidade, fragmentação, densidade e ludicidade (idem: 285).

Na realidade, a abordagem de Vernallis é muito semelhante à de Andrew Goodwin (1.1 GOODWIN 1992), não apenas porque valoriza a componente musical do formato, mas sobretudo porque privilegia a sua análise textual: a obra equivale a uma genuína gramática descritiva do vídeo musical enquanto objecto televisivo, com particular ênfase na sua lexicologia, isto é, no estudo do significado (semântica) e da forma como se combinam (sintaxe) os diversos elementos que entram em acção na videomusicalidade. É o caso da importância da edição (ou montagem) , cujo efeito elíptico se institui como uma forma autónoma e peculiar de expressão (1.1 VERNALLIS 2004: 27-53), a performance das personagens (idem: 54-72), a influência dos géneros musicais na sua configuração estilística e espacial (idem: 73-98), o papel do cenário, dos objectos em contexto (props), do guarda-roupa, da dimensão espácio-temporal, da cor, textura e outros efeitos de pós-produção (idem: 99-136), o vasto leque de possibilidades de interacção entre a imagem, as letras e a música (idem: 137-198), a compatibilidade (e potencial complementaridade) entre a sua dimensão promocional e artística (idem: 202-206) e a sua tipologia (idem: 3-26). Todo este acervo é de seguida aplicado em meticulosos exercícios de close reading a três vídeos musicais (idem: 209-284) cuja metodologia faz, novamente, lembrar a utilizada por Andrew Goodwin em exercícios similares (1.1 GOODWIN 1992: 117-130).

É este vasto elenco de tópicos teóricos aplicado em casos concretos por Carol Vernallis que tornam Experiencing Music Video uma obra incontornável no estudo do vídeo musical enquanto objecto televisivo. Para além de ignorar a emergência do conceito de autor no universo dos vídeos musicais e a sua (na altura, já detectável) convergência para as plataformas digitais, as principais debilidades apontáveis à sua investigação são a ausência de reflexão sobre as relações que os vídeos musicais estabelecem entre si (e outros formatos) e o pessimismo relativamente ao futuro da videomusicalidade que, por vezes, consegue assombrar a obra:

Today it is arguable that what can be done with music video has already been accomplished; with the high-bandwidth Internet soon to transform the genre into something unrecognizable, it is quite possible that music video has passed its prime. (1.1 VERNALLIS 2004: 287)

Vídeos musicais e genéricos

A relação entre os vídeos musicais e os genéricos televisivos terá sido pela primeira vez identificada por John Fiske no capítulo «Carnival and Style» da sua obra Television Culture (1.1 FISKE 1987). Fiske estende a ausência de produção homogénea de sentido que tinha identificado no vídeo musical aos genéricos («title sequences») e aos spots publicitários sob o pretexto destes três formatos televisivos partilharem duas características fundamentais: a de promoverem um bem («commodity») e a de terem sido produzidos para serem fruídos diversas vezes durante um determinado período de tempo. Estas características têm como consequência a partilha de diversas características estilísticas, conformando-os como potenciais textos producentes, isto é, textos que exigem um assinalável esforço criativo por parte dos telespectadores que desejam empenhar-se na sua fruição, aqui conceptualizada como um acto de leitura (1.1 FISKE 1987: 251).

Ora a convergência dos vídeos musicais na Web Social, tornou ainda mais visível esta similitude estética e estrutural entre os dois formatos, tendo sido recorrente o surgimento de vídeos musicais que mais não são do que imaginativos exercícios de justaposição de diversos genéricos, sejam eles cinematográficos ou televisivos. Deixo-vos aqui 3 exemplos particularmente engenhosos para faixas de Dan Black, Justice e Buck 65.