Experiencing Music Video: Aesthetics and Cultural Context (1.1 VERNALLIS 2004) é ainda a principal obra de Carol Vernallis, talvez a mais prolífera autora no domínio do estudo dos vídeos musicais. A sua abordagem encara o vídeo musical como um formato distinto dos seus precursores (cinema, televisão e fotografia), isto é, como um medium que possui uma forma específica de organizar materiais e explorar temas num determinado fluxo temporal. Segunda a autora, essa articulação é passível de ser descrita através de uma análise aprofundada da forma como códigos musicais e visuais interagem para dar origem a um objecto artístico portador de um variável aparato ideológico (idem: X), fazendo vir ao de cima alguns aspectos fundamentais do vídeo musical como a sua volatilidade, fragmentação, densidade e ludicidade (idem: 285).
Na realidade, a abordagem de Vernallis é muito semelhante à de Andrew Goodwin (1.1 GOODWIN 1992), não apenas porque valoriza a componente musical do formato, mas sobretudo porque privilegia a sua análise textual: a obra equivale a uma genuína gramática descritiva do vídeo musical enquanto objecto televisivo, com particular ênfase na sua lexicologia, isto é, no estudo do significado (semântica) e da forma como se combinam (sintaxe) os diversos elementos que entram em acção na videomusicalidade. É o caso da importância da edição (ou montagem) , cujo efeito elíptico se institui como uma forma autónoma e peculiar de expressão (1.1 VERNALLIS 2004: 27-53), a performance das personagens (idem: 54-72), a influência dos géneros musicais na sua configuração estilística e espacial (idem: 73-98), o papel do cenário, dos objectos em contexto (props), do guarda-roupa, da dimensão espácio-temporal, da cor, textura e outros efeitos de pós-produção (idem: 99-136), o vasto leque de possibilidades de interacção entre a imagem, as letras e a música (idem: 137-198), a compatibilidade (e potencial complementaridade) entre a sua dimensão promocional e artística (idem: 202-206) e a sua tipologia (idem: 3-26). Todo este acervo é de seguida aplicado em meticulosos exercícios de close reading a três vídeos musicais (idem: 209-284) cuja metodologia faz, novamente, lembrar a utilizada por Andrew Goodwin em exercícios similares (1.1 GOODWIN 1992: 117-130).
É este vasto elenco de tópicos teóricos aplicado em casos concretos por Carol Vernallis que tornam Experiencing Music Video uma obra incontornável no estudo do vídeo musical enquanto objecto televisivo. Para além de ignorar a emergência do conceito de autor no universo dos vídeos musicais e a sua (na altura, já detectável) convergência para as plataformas digitais, as principais debilidades apontáveis à sua investigação são a ausência de reflexão sobre as relações que os vídeos musicais estabelecem entre si (e outros formatos) e o pessimismo relativamente ao futuro da videomusicalidade que, por vezes, consegue assombrar a obra:
Today it is arguable that what can be done with music video has already been accomplished; with the high-bandwidth Internet soon to transform the genre into something unrecognizable, it is quite possible that music video has passed its prime. (1.1 VERNALLIS 2004: 287)
Gostar disto:
Gosto Carregando...