Ariel Pink: «Witchhunt Suite for World III» (Animal Charm, 2011)

Mais um recentíssimo exemplo de uma média-metragem videomusical que, nem de propósito, tem uma estética muito semelhante ao trio de vídeos abordados no último post: um magma retro de imagens onde se fundem toneladas de gravações em VHS que vão de anúncios a noticiários, passando por filmes e séries televisivas.

Lana Del Rey: videografia

Lana Del Rey é, para os mais desatentos, um dos mais recentes fenómenos musicais de popularidade no YouTube (entrevista à Pitchfork aqui e ao Guardian ali). Sinal dos tempos digitais em que vivemos, a cantora norte-americana de 24 anos não editou ainda qualquer disco (o primeiro single sai no próximo dia 9 de Outubro pela Stranger Records) e a fama que conquistou deve-se única exclusivamente aos três vídeos musicais que disponibilizou na sua página do YouTube: «Video Games», «Blue Jeans» e «Kinda Outta Luck».

Não querendo penetrar nos meandros dos segredos do que torna um determinado conteúdo audiovisual popular (mentira), não deixa de ser curioso verificar que, contrariamente ao que poderá parecer aos mais precipitados, o trabalho videomusical de Lana Del Rey está em absoluta sintonia com as tendências de gosto dominantes do seu (nosso) tempo, isto é, com uma actual sensibilidade estética digital identificável não apenas na dimensão retro da sua música (ver a obra fundamental de Simon Reynolds), mas também na estética dos seus vídeos que consistem sempre num mosaico (ou exercício de colagem) das mais diversas citações videográficas retiradas do YouTube com algumas imagens da sua persona que não destoam (pela sua baixa fidelidade, ar retro, e vlogging look) do conjunto. Como é óbvio, este tipo de música e de vídeos enquadram-se na perfeição no horizonte de expectativas (e de experiências) dos utilizadores dos media digitais. E será também por aí que passa algum do seu sucesso.

Ena! Hiperligações!

1) A secção do blogue referente aos Estudos Quantitativos continua em permanente actualização. Desta vez, destaque para:
– uma série de infográficos do Search Engine Journal com dados recolhidos a partir de diversas fontes sobre a evolução dos media sociais (tomem lá um PDFzito e não digam que foram daqui);
– um relatório da ComScore, onde se comprova que o conteúdo mais consumido no YouTube pelos utilizadores norte-americanos no mês de Julho foi… pois é, o vídeo musical – 40% dessa malta viu pelo menos um vídeo musical no referido mês.
– um estudo do Bit.ly que demonstra que a “meia-vida” (é ir lá ler) de uma hiperligação no YouTube é 2,5 maior (7,4 horas) do que a média (3 horas). Este gráfico é giro e elucidativo:

2) Um interessantíssimo artigo de Pat Muchmore sobre notação musical ergótica (utilizo aqui o termo no sentido definido por Espen J. Aarseth), onde se comprova que ímpeto multimédia da criação e fruição musical remonta pelo menos ao séc. XV (Baude Cordier);

3) Um dos clássicos absolutos da música indie da década de 90 tem agora um videojogo em formato arcade.

4) Uma bela selecção de vídeos musicais da década de 80 pode ser acedida aqui. Reparem lá nesta passagem que está em total sintonia com os argumentos que tenho utilizado para justificar a pertinência do meu projecto de investigação:

Thanks to the ubiquity of social media, the music video has vaulted from curiosity to shiny new toy to killer app, an artist-controlled platform for launching talent into mass consciousness, judging by the overnight success of growing numbers of YouTube sensations.

5) Este livrinho tem muitas similitudes com o formato do vídeo musical. Descubram lá quantas e quais.

6) E pronto, para terminar, uma adenda a este post. Cortesia de duas das maiores estrelas da era digital dos vídeos musicais: os Ok Go e os Muppets. Oh yeah.

Mais dois livrinhos

Duas entradas frescas e importantes na secção da bibliografia.

A primeira delas é o mais recente volume da recomendável colecção Music & The Moving Image da Universidade de Edimburgo: Music Video and the Politics of Representation de Diane Railton e Paul Watson. A obra é mais um exemplo do filão mais fértil de abordagens ao formato (o dos Estudos Feministas) e, curiosamente, acaba por ser quando se afasta dessa ortodoxia que o livro, na minha opinião, se torna mais interessante, nomeadamente nas considerações que os autores tecem sobre os conceitos de autoria e autenticidade (pp. 66-86) ou, sobretudo, quando arriscam enveredar pelas areais movediças da divisão do formato em géneros (pp. 41-65) propondo quatro categorias analíticas de vídeos musicais: pseudo-documentary; art; narrative e staged performance music video.

A segunda obra é, provavelmente, o grande fenómeno literário do ano na área dos livros sobre cultural popular (e, em particular, musical): Retromania de Simon Reynolds. Ainda apenas folheei o livro, mas há muito tempo que sinto empiricamente a tese defendida pelo seu autor – a de que o presente (e o futuro) da cultura popular vive, e viverá, obcecada com o seu passado e de que as novas tecnologias vieram intensificar essa tendência ao tornar acessível a uma vasta audiência um corpus cultural (vídeos, música, filmes, séries, etc.) outrora muitos mais dificilmente acessível.

Setembro e Outubro prometem ser dois meses de intensas leituras, até porque (confesso) ainda tenho alguns livrinhos desta listinha para ler.

Descubram as diferenças

Cheguei a este vídeo através do Huffington Post. Quando ia a meio do que parecia ser uma pequena “reportagem” ou “registo audiovisual” das fabulosas façanhas de Jeb Corliss com os já famosos wingsuits é que me apercebi que, afinal, estava a ver nada mais nada menos do que um vídeo musical. Como é óbvio, jamais entrará nas estatísticas como tal, mas desafio qualquer um a demonstrar o contrário. Deixo logo a seguir, em jeito de comparação, um vídeo musical dos Boards of Canada: ora descubram lá as diferenças.