Tilt-Shift

Há pelo menos uma semana, que este magnífico vídeo musical (porque é mesmo disto que se trata) tem feito furor nas plataformas digitais. Realizado pela dupla Keith Loutit e Jarbas Agnelli, o vídeo utiliza uma técnica fotográfica com quase meio-século (o tilt-shift) para retratar em poucos minutos o desfile deste ano do Carnaval do Rio de Janeiro (por favor, vejam isto em full screen do princípio ao fim, vão ver que não se arrependem).

Esta técnica cinematográfica (que consiste na edição de fotogramas captados em tilt-shift com diversos segundos de intervalo) cria, sob um efeito de fast-forward, a ilusão que estamos a assistir a uma versão miniaturizada de um acontecimento em grande escala, em que as pessoas parecem brinquedos animados em stop motion.

Este método de filmagem e edição tem gozado de uma grande popularidade nos últimos anos e, como não podia deixar de ser, chegou à fruição dos utilizadores da Web através de outro vídeo musical intitulado The Sandpit de Sam O’Hare (2010).

É esta, de resto, uma (das muitas) razões para o protagonismo que o formato goza na Web Social: o facto de os vídeos musicais serem muitas vezes o medium onde são testadas e exploradas novas técnicas de gravação e edição de som e imagem. Já falei de um caso semelhante aqui.

Vídeos musicais interativos: análise de uma nova tendência da videomusicalidade (parte I)

No âmbito da construção do modelo de análise da convergência dos vídeos musicais na Web Social, tive a oportunidade de referir anteriormente uma distinção teórica fundamental definida por Henry Jenkins entre a interatividade, que consiste numa característica tecnológica, e a participação, de cariz sociocultural.

Na Web Social, todos os vídeos musicais são potencialmente passíveis de despoletar fenómenos participativos nos utilizadores devido às características do medium, que podem ir do mero contacto (suficiente para despoletar um mecanismo de difusão nos portais de partilha de vídeos) a fenómenos mais complexos como a curadoria digital ou exercícios de paródia, pastiche e colagem videomusical.

Outra nova tendência da videomusicalidade resultante da sua convergência na Web Social é a proliferação de vídeos musicais interativos que, como o próprio nome indica, remetem para um tipo específico de vídeos musicais diretamente manipuláveis pelos utilizadores através do recurso a tecnologias de interação que são parte integrante do formato (2.1 JENKINS 2006b: 137 e 305). Já tive a oportunidade de aqui referir diversos exemplos de vídeos musicais interativos e este post é o primeiro de uma série de dois que pretende analisar de forma mais abstracta as características deste novo género videomusical.

O quadro supra lista, por ordem alfabética, uma amostra representativa de vinte vídeos musicais interativos (todos acessíveis com um mero clique na página de videografia musical do blogue). As características da amostra podem ser resumidas através dos seguintes tópicos:

• os vídeos musicais da amostra são todos oficiais;

• à exceção de King of Dogs de Iggy Pop (BOIVIN 2009), todos os vídeos musicais encontram-se fora da sua plataforma habitual da Web Social (os portais de partilha de vídeos) e estão alojados ou em portais criados especificamente para esse fito (disponibilização na Web) ou na App Store da Apple (apps);

• os vídeos musicais da amostra podem ser fruídos a partir de qualquer terminal de acesso à Web (computador, laptops, smartphones, tablets, etc.) com à exceção dos 4 vídeos musicais que são apps e que apenas podem ser fruídos a partir de três equipamentos específicos da Apple: o iPod Touch, o iPhone e o iPad;

• à data em que escrevo, uma porção considerável da amostra (5 vídeos musicais – 25%) encontra-se inativa, ou seja, esses 5 portais já não alojam os respetivos vídeos, estando por isso inacessíveis aos utilizadores da Web Social;

• os efeitos da interação tendem a incidir sobretudo no texto visual dos vídeos musicais, havendo apenas 3 vídeos que permitem uma interação com a componente sonora;

• o controlo da interação da amostra é feita através de periféricos como o rato, o teclado e a webcam; no caso das apps, os vídeos musicais potencializam características específicas do iPod Touch, do iPhone e do iPad: o touchscreen e o osciloscópio.

As características desta amostra de vídeos musicais interativos legitimam uma evidente aproximação deste arquigénero aos formato dos videojogos online e, em particular, aos videojogos casuais (casual games), na medida em que i) o seu público-alvo é vasto; ii) possuem regras simples de jogabilidade; iii) não exigem um empenhamento considerável ou duradouro por parte dos utilizadores; iv) tendem a ser gratuitos; e v) o seu custo de produção e distribuição é relativamente baixo (2.2 BOYES 2008). Esta aproximação é ainda sustentada pelo facto de vídeos musicais interativos como 3 Dreams of Black dos Rome (MILK 2011) ou Biophilia da Björk (SNIBE et al. 2011) incluírem diversos easter eggs, isto é, mensagens escondidas que podem ser descobertas pelos utilizadores ao longo da sua fruição (2.2 ROBINETT 2006: 713).

A figura supra ilustra a influência que a convergência dos videojogos (casuais) na Web Social tem no surgimento dos vídeos musicais interativos. Como é óbvio, tanto a ludicidade como a jogabilidade dos vídeos musicais interativos da amostra estão ainda longe de atingir a maturidade ou sofisticação da maioria dos videojogos casuais que povoam a Web Social, até porque os mesmos denotam uma tendência para se focar apenas na vertente visual do formato, deixando quase sempre o texto musical intacto ou fora do âmbito da interação dos utilizadores/jogadores.

Ainda mais significativo é, no entanto, o efeito que a introdução de uma dimensão interativa nos vídeos musicais provoca nas potencialidades participativas do formato na Web Social. Abordarei o referido efeito num próximo post.

Director’s cuts

Outra das novidades (óbvia, mas a que nunca fiz referência aqui) da convergência nos vídeos musicais na Web Social é a possibilidade dos realizadores poderem disponibilizar aos utilizadores das plataformas digitais as suas director’s cuts, isto é, as edições ou montagens com as quais mais se identificam ou, se preferirem, as versões que seriam oficialmente disponibilizadas caso o resultado final não dependesse igualmente da aprovação dos seus clientes (editora ou projecto musical). Eis aqui um belo e recente exemplo videomusical da autoria de Luci Schroder. Tentem clicar em play de forma quase simultânea nos dois vídeos para se aperceberam das (subtis) diferenças.

Versão Oficial

Director’s Cut

Glossário

Atirei-me finalmente a uma tarefa chatérrima que é a actualização do glossário (página do blogue e futuro anexo da tese). Acrescentei 12 novos termos relacionados sobretudo com as novas tendências da videomusicalidade (Capítulo IV): neste momento, o glossário totaliza o redondo número de 50 entradas. Tenho tentado manter essa página do blogue actualizada, porque continuo a acreditar que a mesma pode ser uma ferramenta rápida e útil para os eventuais leitores destes nacos de HTML. A propósito: apesar de ainda irmos no dia 19, Fevereiro já é o mês com mais visitas desde a criação do blogue em Janeiro de 2011 com quase um milhar de acessos. Anda tudo doido. E eu agradeço a doideira.

Supercuts

Ainda a propósito de colagens videomusicais, tenho reparado nas últimas semanas uma assinalável produção de supercuts, um termo vernacular que designa a colagem de uma grande série de imagens oriundas de diversos formatos (mas sobretudo filmes e séries de TV) cujos protagonistas pronunciam segmentos da letra do vídeo musical original: os primeiros segundos da colagem exibem esse vídeo na íntegra e depois apenas permanece a música que serve de base para a inteligibilidade da colagem. O exemplo mais bem conseguido que conheço é este dos sempre prodigiosos Ecletic Method a partir do clássico 99 Problems de Jay-Z. Um prodígio.