Colagens videomusicais

As colagens videomusicais são produções vernaculares (videomusicais) de um vídeo musical em que impera o que John Hartley apoda de “cultura da redação” (redaction culture): «the production of new material by the process of editing existing contents» (2.1 HARTLEY 2008: 112).

A prática de produções artísticas eminentemente redaccionais tem uma vasta tradição em diversas áreas da criação artística, entre as quais se destaca a técnica de “corte e cose” desenvolvida pelo artista plástico Brion Gysin e posteriormente tornada popular pelo cut up writting que o escritor norte-americano William S. Burroughs aplicou, por exemplo, na sua The Nova Trilogy (1961-1964) (2.2 SHEPPARD 2008: 254). No campo musical, a gravação de práticas redaccionais remonta ao famoso Magnetic Tape Music Project (1952) de John Cage, Morton Feldam, Christian Wolff e Earl Brown e à Gesang der Jüngling (1955-1956) de Karlheinz Stockhausen (2.2 PRENDERGAST 2000: 46 e 53) e atingiu uma crescente notoriedade a partir da década de 80 com a proliferação de exercícios de remistura (remixing) e da utilização de citações (sampling) e concatenações (mash-ups) (1.1 AYMAR 2011: 6), que deram origem a clássicos como My Life in the Bush of Ghosts (1981) de David Byrne e Brian Eno ou The Grey Album (2004) de Danger Mouse, um disco pirata (bootleg) que cola a performance vocal de Jay-Z no seu The Black Album (2003) a segmentos musicais retirados de The White Album (1968) dos The Beatles. Dois desenvolvimentos tecnológicos estiveram na base da expansão da cultura da colagem musical (ou mash-up culture, por sinédoque): a abundância de materiais musicais disponíveis gratuitamente fruto da sua convergência digital na Web; e o desenvolvimento de aplicações que tornaram cada vez mais fácil a qualquer utilizador desconstruir e reconstruir esta vasta oferta de matéria-prima musical (2.1 SERAZIO 2008: 81). Na medida em que, como foi referido anteriormente, os artefactos musicais tendem a convergir de forma significativa na Web Social sob a forma de artefactos videomusicais, era inevitável que estas práticas de colagem e manipulação musical (DJing) migrassem para o campo da videomusicalidade (VJing).

As colagens videomusicais podem ser divididas em dois grandes tipos complementares: i) as que colam integralmente elementos oriundos dos três textos videomusicais (letra, música e imagem) de dois ou mais vídeos musicais; e ii) as que colam o texto musical (letra e música) de um vídeo musical com imagens de um conteúdo audiovisual não videomusical.

Exemplos do primeiro tipo de colagens videomusicais podem ser encontrados no vídeo musical United State of Pop 2010 de DJ Earworm (DJ EARWORM 2011), que consiste numa colagem videomusical dos 25 temas mais vendidos naquele ano no mercado norte-americano; em Ecletic Method Goes Phish dos Ecletic Method (ECLETIC METHOD 2009), que cola videomusicalmente 99 temas clássicos da música pop; e ainda no impressionante My Favourite Colour de Kutiman (KUTIMAN 2011) que cola e sobrepõe segmentos de mais de duas dezenas de vídeos musicais vernaculares oriundos do YouTube para criar um único tema (e vídeo) musical:

Por sua vez, o segundo tipo de colagens videomusicais pode ser exemplificado através de dois vídeos musicais vernaculares produzidos pelo mesmo utilizador do YouTube (J. Taylor Helms) – o de My Body Is A Cage (JTHELMS 2007a), que cola o tema musical dos Arcade Fire a uma edição de imagens retiradas do clássico C’era una volta il West de Sergio Leone (1968); e o de All I Need (idem 2007b), que cola a canção dos Radiohead a uma edição de imagens do documentário Microcosmos de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (1996):

Apesar de as colagens videomusicais serem eminentemente práticas vernaculares, existem igualmente alguns casos (raros) de vídeos musicais oficiais que seguiram esta tendência. É o caso do de Rapture Riders (ADDICTIVE TV 2006) que consiste numa colagem videomusical encomendada pela EMI para promover a colagem musical (mash-up) produzida pelo DJ britânico Mark Vidler do tema Rapture de Blondie (1981) com Riders on the Storm dos The Doors (1971).

***

Em jeito se síntese dos dos três posts que abordam esta temática, o quadro seguinte refere as características transtextuais das três novas tendências videomusicais eminentemente vernaculares analisadas.

As paródias e os pastiches videomusicais configuram-se sobretudo como hipertextos que, respetivamente, transformam e imitam os seus hipotextos, podendo ambas incluir (ou não) citações intertextuais.

Por sua vez, as colagens videomusicais consistem integralmente em exercícios de redação (2.1 HARTLEY 2008) que fazem com que os mesmos se configurem, parafraseando a famosa expressão de Julia Kristeva (2.2 KRISTEVA 1974), como genuínos “mosaicos de citações” audiovisuais.

4 comentários a “Colagens videomusicais

  1. as coisas que eu aqui aprendo: temos, por um lado, a trasnformação e imitação – transexualidade videomusical e, por outro, o que é escrever a genuinidade – a sexualidade – da videomusicalidade. está tudo processado. :-)

  2. Pingback: Supercuts « mv flux

  3. Pingback: Vídeos musicais interactivos: análise de uma nova tendência da videomusicalidade (parte I) « mv flux

  4. Pingback: Sobre a difusão videomusical na Web Social (parte II) | mv flux

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