Keaton Henson: «Small Hands» (Joseph Mann, 2012)

Não tenho, da facto, muito a dizer para apresentar este vídeo musical. Apenas que é mais um belíssimo exemplo de como a videomusicalidade pode ser um espaço de fruição artística genuinamente transcendente e emocional. Ou de como, pela enésima vez, o todo formado pelos vasos comunicantes entre a música, a letra e as imagens é infinitamente superior à soma das partes.

Videogang

É, sem dúvida, uma das ideias mais originais da programação da Guimarães 2012: o Videogang é um programa de incentivo à criação videomusical, com a oferta de oficinas e seminários. As inscrições estão abertas aqui e terminam já no próximo dia 30 de Março. Tendo em conta que a notícia foi publicada ontem, teria sido sábio e altamente recomendável a organização ter divulgado esta meritória iniciativa com maior antecedência. É aderir e divulgar faxavor!

Clássicos II – The Replacements: «Bastards of Young» (Randy Skinner & Bill Pope, 1986)

Os próximos vídeos musicais que irei incluir nesta série de clássicos formam um quarteto representativo de um movimento reaccionário ao surgimento da MTV e à consequente proliferação de vídeos visualmente sofisticados (ou “barrocos”). Não é por acaso que os quatro vídeos pertencem a projectos musicais pós-punk e pré-Nirvana e estão compreendidos entre 1986 e 1991, ano em que os Nirvana esbateram definitivamente a fronteira que separava a música dita “alternativa” do mainstream – todos eles são, na minha opinião, os mais emblemáticos representantes de uma vaga minimalista que marcaria a produção videomusical de muitas bandas indie da década de 90 e que, curiosamente, voltaria a legitimar o seu estatuto canónico com a convergência do formato nas plataformas digitais, sendo possível detectar a sua influência sobretudo na vasta e recente produção vernacular videomusical.

O vídeo que a dupla Randy Skinner e Bill Pope realizaram para o tema «Bastards of Young» (1986) dos The Replacements representa a primeira incursão histórica pelo grau zero da videomusicalidade, isto é, temos um vídeo que se “limita” simplesmente a documentar a experiência de colocar um disco a tocar e de o ouvir sem o recurso a imagens ou a narrativas que vão para além da letra da música. Não é por acaso que não se chega a ver o rosto do suposto “protagonista” ou que o vídeo é a preto e branco: as imagens são minimalistas porque estão concentradas única e exclusivamente no processo de fruição musical. De resto, mesmo após o climax final, a câmara não acompanha a personagem que desferiu um pontapé na coluna, mas opta por ficar suspensa no ruído emanado pela mesma até entrar o “One, two” e os primeiros acordes de «Lay It Down Clown», o tema seguinte no alinhamento do álbum Tim. Estamos aqui perante um paradoxal “anti-vídeo musical” que utiliza de forma muito efectiva algumas ferramentas da videomusicalidade para transmitir uma mensagem manifestamente anti-visual, ou pelo menos, anti-MTV: «Bastards of Young» foi o primeiro single dos The Replacements a ser lançado por uma major e o vídeo reflecte igualmente o conflito sentido por uma das bandas mais emblemáticas do punk-rock norte-americano subitamente rendida ao grande capital. Como afirma Saul Austerlitz:

“Bastards of Young” embraces boredom, hugging it so closely it reveals unexpected nuances. [...] It was a beautiful expression of an unabashed message from the notoriously conflicted indie heroes: “Just listen to the fucking song”. (1.1 AUSTERLITZ 2007: 68)

Isto é: foi preciso produzir um genuíno clássico videomusical para transmitir a mensagem punk: caguem lá nos vídeos musicais e oiçam o raio da música! É caso para dizer: há tiros que saem pela culatra de uma forma sublime.

II Encontro Anual da AIM – Programa final

Já se encontra disponível o programa final do II Encontro Anual da Associação de Investigadores de Imagem em Movimento (podem descarregá-lo aqui). Irei apresentar a minha comunicação subordinada ao título A Convergência dos Vídeos Musicais na Web Social no dia 12 de Maio, Sábado, pelas 11h30 (sessão H1). O programa tem imensos pontos de interesse, embora confesse a minha particular curiosidade em relação à sessão C1 dedicada à Imagem-música.

Por João Pedro da Costa Posted in efémera Tagged

Esta semana é só coisas boas

Dois dos temas mais recorrentes da primeira vaga bibliográfica dedicada aos vídeos musicais (1983-1993) foram, sem dúvida, o sexo e a violência ou, mais precisamente, a presença de ambos no formato e o seu impacto junto da audiência da televisão musical. Não é por acaso que os estudos feministas elegeram, pelo menos na década de 80 e na primeira metade dos anos 90, o vídeo musical como um dos seus objectos de estudo predilectos, produzindo, de resto, textos incontornáveis como os de E. Ann Kaplan (1.1 KAPLAN 2007; 1.2 KAPLAN 1985) e de Lisa A. LEWIS (1.1 LEWIS 1990-1993; 1.2 LEWIS 1987-1994). E também já aqui falei por diversas vezes da censura no universo dos vídeos musicais durante a sua fase exclusivamente televisiva (era MTV) e da sua actual inoperância na difusão do formato na emergente paisagem mediática digital. Ora bem: vem este pequeno e atabalhoado prolegómeno a propósito de duas pérolas videomusicais recentes que utilizam, respectivamente, a violência (com uma estrela de Hollywood) e o sexo (com uma estrela porno-gay) de forma particularmente imaginativa e comovente. Como é óbvio, jamais nenhum destes vídeos passará (ou teria alguma vez passado) na MTV. É caso para dizer: que não nos falhe nunca o acesso à rede.

The Shoes: «Time To Dance» (Daniel Wolfe, 2012) – ft. Jake Gyllenhaal

Perfume Genius: «Hood» (Winston Case, 2012) – ft. Arpad Miklos

Andreas Nilsson

Andreas Nilsson é uma velha paixão minha: descobri-o em 2006 com o vídeo musical que realizou para Silent Shout dos The Knife e, fã de David Lynch como sou, aderi de imediato ao seu universo estético marcadamente surrealista. Nos últimos 5 anos, o realizador sueco tem mantido um ritmo de produção não apenas regular no débito como na qualidade (espreitem lá o portal do rapaz onde podem ver na íntegra todos os vídeos musicais que ele realizou desde 2001). Deixo-vos aqui os seus dois últimos trabalhos para Miike Snow que formam os dois primeiros capítulos de uma fascinante e desconcertante série videomusical.

Vídeos musicais interactivos: mais dois exemplos fresquinhos

Cá estou para partilhar mais dois exemplos recentes de vídeos musicais interactivos. Podem clicar aqui para aceder aos outros exemplos que já referi no blogue e ali (parte I e II) para aceder à descrição e ao enquadramento teórico que fiz do fenómeno.

Red Hot Chili Peppers: Look Around (Robert Hales, 2012)
Ideia bastante simples que consiste na utilização de um painel de comandos (esquerda, direita, zoom-in e zoom-out) para seleccionar em qualquer momento qual dos 4 planos (e respectivos enquadramentos) do vídeo que queremos visualizar. Inclui diversos easter eggs com galerias de fotos referentes ao making of da empreitada. Veredicto: nada de particularmente digno de nota ou original e, sinceramente, prefiro a versão não-interactiva do vídeo que consegue voltar a atribuir à música dos Red Hot uma energia e uma alegria que julgava desaparecidas há mais de uma década.

Chairlift: Met Before (Jordan Fish, 2012)
Isto é outra fruta. Apesar de, mais uma vez, circunscrever a interacção à componente visual do vídeo, este pequeno prodígio narrativo é uma espécie de versão videomusical de El jardín de senderos que se bifurcan, o clássico conto de Jorge Luís Borges: ao longo do vídeo, temos de escolher cinco vezes um de dois caminhos para o desenrolar da acção, dando origem a qualquer coisa como 32 (2 elevado a 5) diferentes segmentos videomusicais. O engenho é terrivelmente eficaz porque as narrativas estão sublimemente bem construídas: já perdi quase uma hora a ver uma dezena de versões e, como é óbvio, de tantas vezes ouvir a música, ela já não me sai da cabeça. É, de longe, o mais simples, eficaz e interessante vídeo musical interactivo que vi até hoje. Chapeau.

Clássicos I – Elvis Costello: «Accidents Will Happen» (Annabel Jankel & Rocky Morton, 1979)

Inauguro com este post uma série que pretende ir resgatar às profundezas do YouTube alguns vídeos musicais canónicos. Não pretendo aqui falar dos “clássicos” que toda a gente conhece tipo Bohemian Rhapsody e quejandos, mas vídeos que, apesar de estarem relativamente adormecidos na nossa memória colectiva, deixaram um lastro evidente na produção videomusical dos últimos 30 anos.

E para começar nada melhor do que esta pequena maravilha realizada por Annabel Jankel e Rocky Morton para o clássico Accidents Will Happen de Elvis Costelo. Visto hoje em dia, o vídeo parece (e é) uma espécie de cardápio da estética pop e onírica que a MTV propagou na década de 80. Acontece, no entanto, que o vídeo foi realizado em 1979, isto é, em pleno crepúsculo da ascensão da new wave ao mainstream e dois anos antes do surgimento da MTV. Na verdade, o vídeo não apenas foi um precursor de um estilo que se disseminaria por centenas de capas de discos e de vídeos musicais, como foi uma das primeiras animações videomusicais a ser transmitida em massa pela televisão. Não por acaso, a dupla de realizadores viria a ser responsável por um dos programas videomusicais de culto da MTV: The Max Headroom Show.

Grimes: «Oblivion» (Emily Kai Bock, 2012)

Grimes é o nome do projecto musical de Claire Boucher, uma jovem artista canadiana que tem vindo a conquistar nos últimos dois anos o estatuto de figura de proa de um suposto movimento de música de dança low-fi que alguns críticos têm apodado de witch house ou grave rave (a malta costuma caprichar bastante na escolha destas etiquetas). Oblivion é um dos grandes temas do seu mais recente álbum: um beat sinuoso e uma contagiante progressão melódica que encaixam na perfeição na voz simultaneamente alienígena, fantasmagórica e infantil de Claire Boucher – e o vídeo, caramba, não lhe fica nada atrás.

Esta interessante entrevista aponta alguns dos aspectos mais fascinantes da empreitada: a subversão da relação entre o artista e o espectador, a reacção espontânea daqueles adeptos perante a presença inesperada de uma câmara e uma inegável objectização do sexo masculino através da presença paradoxalmente frágil e marcante da protagonista naquele balneário onde foram filmadas os únicos planos encenados do vídeo. Atrevo-me a apontar um derradeiro: os auscultadores. Eles estão ali não apenas para garantir o lip-sync, mas sobretudo para sublinhar que, naquele aparato cénico e naquela multidão, ela é a única que partilha connosco a fruição musical, fazendo de nós os conspiradores secretos deste fascinante circuito comunicacional que é a videomusicalidade.

Graham Coxon: «What It’ll Take» (Ninian Doff, 2012)

Mais um exemplo de um vídeo musical que contou com a participação dos fãs. Desta vez, o realizador Ninian Doff pegou em filmagens feitas por 85 fãs de Graham Coxon (o regressado guitarrista dos Blur) oriundos de 22 países e engendrou uma forma muito original e criativa de os incorporar no vídeo. Um comentário na página do YouTube resume bem o efeito da estratégia seguida para esta produção:

I love the concept of this video. really brings people together. I mean just look at the comments: it’s fantastic. (@ronmascara)

Nem mais. E o tema é fabuloso, o que sempre ajuda à fruição da coisa.

Nota: Sim, mudei novamente o template do blogue. Os leitores têm sempre razão e este design tem um look Apple que me agrada de sobremaneira. Grato pela vossa opinião, JP.