Clássicos II – The Replacements: «Bastards of Young» (Randy Skinner & Bill Pope, 1986)

Os próximos vídeos musicais que irei incluir nesta série de clássicos formam um quarteto representativo de um movimento reaccionário ao surgimento da MTV e à consequente proliferação de vídeos visualmente sofisticados (ou “barrocos”). Não é por acaso que os quatro vídeos pertencem a projectos musicais pós-punk e pré-Nirvana e estão compreendidos entre 1986 e 1991, ano em que os Nirvana esbateram definitivamente a fronteira que separava a música dita “alternativa” do mainstream – todos eles são, na minha opinião, os mais emblemáticos representantes de uma vaga minimalista que marcaria a produção videomusical de muitas bandas indie da década de 90 e que, curiosamente, voltaria a legitimar o seu estatuto canónico com a convergência do formato nas plataformas digitais, sendo possível detectar a sua influência sobretudo na vasta e recente produção vernacular videomusical.

O vídeo que a dupla Randy Skinner e Bill Pope realizaram para o tema «Bastards of Young» (1986) dos The Replacements representa a primeira incursão histórica pelo grau zero da videomusicalidade, isto é, temos um vídeo que se “limita” simplesmente a documentar a experiência de colocar um disco a tocar e de o ouvir sem o recurso a imagens ou a narrativas que vão para além da letra da música. Não é por acaso que não se chega a ver o rosto do suposto “protagonista” ou que o vídeo é a preto e branco: as imagens são minimalistas porque estão concentradas única e exclusivamente no processo de fruição musical. De resto, mesmo após o climax final, a câmara não acompanha a personagem que desferiu um pontapé na coluna, mas opta por ficar suspensa no ruído emanado pela mesma até entrar o “One, two” e os primeiros acordes de «Lay It Down Clown», o tema seguinte no alinhamento do álbum Tim. Estamos aqui perante um paradoxal “anti-vídeo musical” que utiliza de forma muito efectiva algumas ferramentas da videomusicalidade para transmitir uma mensagem manifestamente anti-visual, ou pelo menos, anti-MTV: «Bastards of Young» foi o primeiro single dos The Replacements a ser lançado por uma major e o vídeo reflecte igualmente o conflito sentido por uma das bandas mais emblemáticas do punk-rock norte-americano subitamente rendida ao grande capital. Como afirma Saul Austerlitz:

“Bastards of Young” embraces boredom, hugging it so closely it reveals unexpected nuances. [...] It was a beautiful expression of an unabashed message from the notoriously conflicted indie heroes: “Just listen to the fucking song”. (1.1 AUSTERLITZ 2007: 68)

Isto é: foi preciso produzir um genuíno clássico videomusical para transmitir a mensagem punk: caguem lá nos vídeos musicais e oiçam o raio da música! É caso para dizer: há tiros que saem pela culatra de uma forma sublime.

5 comments on “Clássicos II – The Replacements: «Bastards of Young» (Randy Skinner & Bill Pope, 1986)

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