Ainda sobre relação entre as capas e os vídeos musicais

Já tive a oportunidade de analisar aqui os contornos da relação íntima que sempre existiu entre os vídeos musicais e as capas dos discos e de como, com a crescente desmaterialização dos registos musicais, a videomusicalidade tem vindo a assumir quase exclusivamente o papel imagético da fruição musical multimediática. Apesar de o tema ser um dos tópicos importantes da minha tese, tenho sentido nos últimos meses que o assunto dá pano para mangas e, mal tenha algum tempito livre, tenciono mesmo consagrar-lhe em exclusivo um artigo. Nas últimas semanas, tive a oportunidade de adquirir três obras muito interessantes dedicadas ao assunto: Album: Style and Image in Sleeve Design (2.2 DE VILLE 2003); The Greatest Album Covers of All Time (2.2 SCOTT et al. 2005) e A Brief History of Album Covers (2.2 DRAPER 2008). A leitura destes livros veio reforçar a minha convicção de que não apenas qualquer análise histórica da videomusicalidade não poderá jamais prescindir de uma análise atenta da evolução do grafismo das capas dos discos, como é fundamental ter em conta a decadência desse último medium para enquadrar o crescente protagonismo dos vídeos musicais na emergente paisagem mediática digital. Como afirma Paul Du Noyer:

Our musical habits are migrating online; the art of cover design is threatened by the potencial extinction of the CD. There is an irony at work here. The irresistible rise of video, marketing and media means that pop is more visually led than ever. But can the physical cover survive? In the digital age you can download albums with artwork intact, yet the impact of the screen of an iPod is meagre indeed. (2.2 DRAPER 2008: 11)

Apesar do revivalismo e da retromania que se vive actualmente, visível por exemplo no ressurgimento do vinil na música de dança e da cassete no heavy metal, a verdade é que o vídeo musical tem vindo a assumir quase integralmente a importante componente imagética na inevitável dimensão multimediática de qualquer fruição musical. Neste aspecto, pode-se mesmo dizer que a primeira vaga de estudos dedicados à videomusicalidade (1983-1993) foi particularmente visionária quando diversos dos seus autores referiram o formato através da designação, entretanto abandonada, de animated record sleeve (1.1 WOLLEN 1986). De resto, algumas características actuais da videomusicalidade digital nada mais são do que um reaproveitamento (ou remediatização) de exercícios ou ferramentas anteriormente testados pelas capas dos discos. Veja-se, por exemplo, a metatextualidade, isto é, a tendência marcante de um vasto número de vídeos musicais incluírem referências metalépticas ao seu processo de criação ou mediatização (exemplos não faltam, mas gosto particularmente deste e deste). Pois bem, reparei apenas há cerca de duas semanas num detalhe metaléptico (ou metatextual) da capa do clássico This Year’s Model (1978) de Elvis Costello:

Conseguem ver o mesmo que eu? Têm a caixa de comentários para deixarem a vossa sentença.

6 comentários a “Ainda sobre relação entre as capas e os vídeos musicais

  1. não sei se é o mesmo, tem vezes – muito muito raramente – que olhos aos pares acrescentam valor, mas vejo que uma das mãos indica movimento que tanto dá para passado como para futuro mesmo estando no presente. e daqui já a imaginação anda a voar, funciona assim como sugestão. :-)

  2. Pois eu acho que a mão do Costelllo é mais uma indicação para não haver movimento, gesto de resto muito comum nos fotógrafos, que é aqui sinónimo de “hold still, I’m going to take you a picture”. Na medida em que os fotografados somos nós, os potenciais consumidores da sua música, a capa parece significar que as músicas do álbum pretendem retratar diversos aspectos caros aos seus potenciais ouvintes. O título do disco contribui também para essa leitura dialógica: enquanto que na canção homónima, o “model” refere-se mesmo a um modelo feminino, na capa esse “model” é ambíguo e pode perfeitamente referir-se ao próprio disco: “tomem lá o disco modelar que tenho para vós em 1978″.

    Mas a dimensão metaléptica ou metatextual não reside neste aspecto (de resto, bem interessante) da capa mas sim na inclusão da gradação de cores no lado direito (de quem vê). Quem já teve provas de tipografia nas mãos sabe que a mesma serve para apurar a afinação das cores de uma impressão. A capa do disco foi assim propositadamente mal recortada: basta reparar para o facto de faltar o “E” e o “T” no nome do autor e do título da obra – “(E)lvis Costello” e “(T)his Year’s Model”. É neste simples e aparente “erro” que reside a referência metaléptica sobre a criação do medium – a capa do álbum.

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