Clássicos IV – U2: «One» (Mark Pellington, 1991)

O vídeo musical que Mark Pellington realizou para o tema «One» dos U2 é, provavelmente, o mais inesquecível exercício que caracterizou a reacção minimalista à estética barroca da primeira década da estética videomusical propagada pela MTV. Para além de não ser detectável qualquer presença ou alusão à banda, o vídeo consiste basicamente na recorrência de três motivos: búfalos (por vezes apenas um, outras vezes em pares ou numa manada); girassóis (por vezes intercalados com outra flor); e a palavra “one” em fundo negro replicada em diversos idiomas que vão do Português ao Hebraico. Ao longo do vídeo, o motivo mais forte é sem dúvida o primeiro: os búfalos surgem em permanente movimento (num plano em rewind) até na inesperada e pungente imagem final de três búfalos em queda num desfiladeiro.

A letra do tema indicia um facto histórico amplamente conhecido: a de a canção consistir no discurso de um pai ao seu filho infectado pelo vírus da Sida (o tema viria, de resto, a ser editado como um single de beneficiência cujas receitas reverteram para a luta contra o flagelo). As imagens destas criaturas simultaneamente gregárias e suicidas funcionaram, na época, como uma metáfora poderosa do horror da doença e da sua aparente imparável propagação. Como afirma Saul Austerlitz:

“One” was intended to be a meditation object, more inspired by the emotion conjured up by the song than directly stemming from it. As a result it is perhaps the subtlet message video ever made and the last gasp of video minimalist in its classic form. (1.1 AUSTERLITZ 2007: 74-75)

Meditação e subtileza: definitivamente duas características pelas quais não primavam a esmagadora maioria dos vídeos musicais difundidos até então pela MTV. No entanto, é ainda hoje possível detectar a enorme influência desta obra-prima de Mark Pellington não apenas na iconografia da banda (que utilizaria uma imagem do vídeo para a capa de uma das suas primeiras colectâneas), como num número considerável de vídeos musicais que viriam a ser produzidos nas próximas décadas.

7 comentários a “Clássicos IV – U2: «One» (Mark Pellington, 1991)

  1. não conhecia o video e estive a ver com muita atenção. só li depois de ouvir e ver e olha o que aconteceu: interpreto o bufalo como a força que tem o amor na vida, que é selvagem, na vida que acaba, seja por que motivo for, mas que é movida a
    amor. e não importa quanto vivemos mas como vivemos – e é aí que, sensivelmente a meio, aparecem os girassóis, calor, luz, beleza, papedores de ervas daninhas, que alegram o caminho ainda que a caminhada seja para aquilo a que ninguém consegue escapar: a morte.

    depois li a versão oficial do video, que enfatiza a morte em detrimento da minha que enfatiza a vida. e fiquei um pouco sem jeito, confesso, por tamanha disparidade.

      • são, sim, efectivamente, uma moeda só. mas e o cheiro, o tal cheiro que também lá aparece, não é diferente ver o cheiro da vida em vez do da morte?

      • Sem querer aqui enveredar por reflexões filosóficas, acho que é isto mesmo que confere à espécie humana as cambiantes do cheiro da vida: a de sabermos que um dia ela terminará.

        De qualquer forma, é óbvio que o vídeo pode ser interpretado de diversas formas. Aliás, a pluralidade de leituras está directamente relacionada com a dimensão reflexiva que está na base da concepção do vídeo.

      • tens razão no que dizes. eu é que não consigo ver nos bufalos a morte.
        (são lindos. e aquela risca ao meio dos cornos, que mais parecem bigodes arrebitados, fá-los únicos em beleza viva) :-)

      • ah! vistas bem as tuas palavras, eu vejo a morte mesmo quando andei a querer poupá-la até aqui. caramba: cegou-me a vida.

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