Em 1996, os Foo Fighters (novo projecto de David Grohl, ex-baterista dos Nirvana), surpreendem os fãs da banda de Seattle com um vídeo musical que atinge os picos da leveza e da comicidade. Não que os Nirvana não tivessem sentido de humor (exemplo), mas o vídeo dos Foo Fighters chegaria à MTV apenas 18 meses após a trágica morte de Kurt Cobain:
We had some difficulty finding a treatment that would suit the song, which is this short, tongue-in-cheek, ridiculously candy-coated pop tune. We didn’t want to make this big, pretentious portrait video. We wanted to make fun of ourselves and the song. (David Grohl)
O que torna este vídeo musical num absoluto clássico é o facto de ter sido, em 1996, um absoluto precursor da cultura de redacção que actualmente domina a emergente paisagem mediática digital: «the production of new material by the process of editing existing contents» (2.1 HARTLEY 2008: 112). O vídeo realizado por Jessie Peretz, apesar de não utilizar qualquer material pré-gravado, consiste integralmente num pastiche dos hilariantes spots publicitários dos Fresh Mentos:
A rapidez com que os Foo Fighters e Jessie Peretz realizaram e produziram este pastiche deve ser igualmente invocada com um factor decisivo para a dimensão precursora do vídeo: à data em que o mesmo começou a rodar na MTV, a série de anúncios dos Fresh Mentos eram ainda super-recentes e ainda nem sequer se tinha tornado num fenómeno de culto dos fãs do kitsch. De resto, pode-se mesmo equacionar se não terá sido apenas após a migração do vídeo de “Big Me” para a Web que os referidos anúncios atingiram os índices de popularidade que gozam actualmente junto dos utilizadores das plataformas digitais.
Afinal, o que este vídeo musical fez na era da MTV nada mais é do que aquilo que, hoje em dia, fazemos diariamente nas nossas redes sociais: partilhar uma private joke com os nossos amigos.
mas então a cultura de redacção tem muito de pastiche. e se não tem, estou confusa.
Ora aqui está uma leitora atenta: onde está “paródia”, deve ler-se “pastiche”. (Vou mudar, thanxs)
oh, caneco, agora dei um nó :-): mas o pastiche não pode, também, resultar em paródia? não é o caso?
Segundo o Genette, os termos têm acepções bem definidas e distintas: imitação no pastiche, transformação na paródia. Claro que no sentido lato, um pastiche pode ser “paródico”, mas no sentido que lhe dá Genette, não. E aqui procuro seguir este rigor terminológico. Não é fácil, confesso, mas é imperativo no meu projecto de investigação. Repara que o potencial humorístico já existia no hipotexto (anúncio dos mentos). Os Foo Fighters limitam-se a mimá-lo.
ah! era isso que estava a fazer-me ruído, então, não estava a pensar à Genette – só à Olinda. :-)
Não és a única, repara neste link que define o termo “spoof” (que recobre este exercício hipertextual dos Foo Fighters):
http://en.wikipedia.org/wiki/Spoof
O termo “spoof” é definido como uma paródia sob a forma de uma imitação. Ora isto, segundo o Genette, não faz sentido. Se é por imitação é um pastiche, ou seja, o termo “parody” é aqui utilizado no sentido lato. É por isso que é fundamental seguir o rigor terminológico do Genette: caso contrário estamos a falar de coisas diferentes utilizando a mesmo palavra.
pois, e lá se vai a objectividade do estudo. fiquei agora a pensar que não é fácil caminhar por caminhos pisados e ainda assim acrescentar valor. e tu acrescentas.