Actas do VI Encontro Ibérico do EDICIC 2013

6edicicJá estão disponíveis em formato digital as actas do VI Encontro Ibérico do EDICIC 2013 subordinado ao título Globalização, Ciência, Informação e que teve lugar nos passados dias 4 a 6 de Novembro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. São perto de 1800 páginas que demonstram bem a amplitude e a qualidade do evento.

O meu artigo intitulado A difusão vertical na Web Social: o caso do vídeo musical Heaven Can Wait no Antville está incluído nas referidas actas e, como sou um gajo porreiro, pode ser directamente acedido na íntegra aqui (PDF).

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E há para todos os gostos. Em primeiro lugar, um elogio para a Orfeu Negro que publicou duas traduções portuguesas de obras de referência: A Arte da Performance de RoseLee Goldberg (que já vai na 2.ª edição) e A Poética da Dança Contemporânea de Laurence Louppe. São obras clássicas de grande fôlego que abordam, o primeiro mais numa perspectiva historicista e o segundo através de uma abordagem manifestamente mais teórica, a arte da performance e da dança contemporânea. Os dois temas são, como é óbvio, tangentes ao universo da videomusicalidade: não raras vezes, o formato videomusical funciona como um registo audiovisual de exercícios performativos coreografados e, por exemplo, uma das videografias de maior sucesso do processo da convergência videomusical na Web Social (a dos Ok Go) guia-se por uma poética que assenta precisamente nesta dupla dimensão. A importância destas duas obras no meu projecto de investigação prende-se precisamente com o facto da videografia musical dos Ok Go ser um dos seus casos de estudo. O preço das obras é que é, para variar, proibitivo: as edições originais estão disponíveis por metade do preço. Mas o cuidado e rigor de ambas as edições quase que compensam a exorbitância.

The Gift. Creativity and the Artist in the Modern World de Lewis Hyde é uma obra que cheguei tarde, muito tarde, mas cuja constante releitura (infindável processo) está a enriquecer algumas páginas da minha tese. A obra, inicialmente publicada em 1979, destinava-se sobretudo a abordar o labor poético que, na época, era o exemplo paradigmático de como uma obra de arte é sobretudo uma dádiva e não um bem económico: «a work of art can survive without the market, but with no gift there is no art» (p. xvi). Está bom de ver que as reflexões de Lewis Hyde viriam a ganhar uma importância ímpar com a emergência das plataformas digitais que trouxe enormes desafios à mercantilização (“commodification”) ou a transformação em produtos de uma economia de mercado das criações artísticas – e os vídeos musicais são um caso flagrante dessa realidade. É por isso que prefiro o termo “dádiva” a “doação” para traduzir a noção hydiana de “gift”, na medida em que é o que melhor recobre a sua bissemia: a de oferta e de dom ou talento. Acho que não conheço outra obra tão à frente do seu tempo.

Finalmente, Viral Loop de Adam L. Penenberg é um dos maiores pastelões que li na minha humilde vida. É uma obra destinada a marketeiros (pun intended) sedosos de descobrir a arte da viralidade na era da mediação tecnológica (sobre o tema remeto novamente para este meu texto). A novidade desta obra em relação às restantes do mesmo género (e não falo aqui dos estudos meméticos, mas sim dos livros de marketing viral) é o facto de Penenberg procurar compatibilizar a noção de “espalhabilidade” (spreadibility) de Henry Jenkins com a de viralidade – tarefa simplesmente impossível, na medida em que o conceito foi, precisamente, desenvolvido como uma crítica à metáfora viral. Sintomático é o facto de Henry Jenkins não ser jamais citado ou sequer referido na obra, o que faz com que um leitor menos esclarecido possa julgar que o conceito é da autoria do menino. Enfim, lamentável. E a evitar a todo o custo.

One Night on TV is Worth Weeks at the Paramount

978-0-8223-5011-8-frontcoverAs décadas de 40 e 50 são dos períodos menos estudados da relação entre a televisão e a música popular. Há razões para isso: a famosa aparição de Elvis Presley no The Ed Sullivan Show em 1956 constitui um marco irresistível para quem se dedica a estudar o tema e leva muita gente a subestimar o período formativo da referida relação.

O novo livro de Murray Forman vem juntar-se ao pretérito esforço de outros autores como John Mundy (2.1 MUNDY 1999), Marc Weingarten (2.1 WEINGARTEN 2000) ou Jake Austen (2.1 AUSTEN 2005) em lançar um pouco de luz sobre este período relativamente cinzento, focando-se exclusivamente na realidade norte-americana. O grande mérito da obra reside no facto de Murray Forman colocar a música popular e o medium televisivo em pé de igualdade ao longo da sua minuciosa análise, o que o leva a afirmar que se a televisão influenciou a música no período do pós-guerra, esta última não deixou de afectar igualmente o desenvolvimento do pequeno ecrã na sua fase embrionária.

Pessoalmente, o que mais me fascinou neste livro foi a análise da configuração estética da performance musical na fase ainda experimental das transmissões televisivas (Capítulo IV) e a dimensão da importância dos músicos afro-americanos e latinos numa era em que a representação racial e étnica na TV estava longe de ser consensual (Capítulo V e VI).

Recomendo vivamente.

Spreadable Media

9780814743508_FullVai finalmente sair no próximo dia 21 de janeiro a obra de Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green intitulada Spreadable Media. O trabalho desenvolvido pelo C3 foi, nos últimos 3 anos, uma das principais inspirações para o meu trabalho de investigação, sobretudo na definição do modelo conceptual de difusão videomusical na Web Social, pelo que as minhas expectativas são elevadas.

Para já, no entanto, devo exprimir uma pequena (embora previsível) desilusão: nem uma linha desta obra colectiva será, pelos vistos, dedicada à videomusicalidade. Esta malta teima em ignorar o formato mais difundido na Web Social, o que não cessa de me causar uma irreprimível perplexidade.

Até ao lançamento, os mais impacientes podem visitar um portal que tem vindo a disponibilizar todas as semanas diversos micro-artigos que gravitam em torno do tema da obra. Já fiz a minha pré-encomenda.

José Afonso Furtado: Uma Cultura da Informação para o Universo Digital

jaf1Acabo de concluir a leitura do novo livro de José Afonso Furtado. Apesar de não o conhecer pessoalmente e de nem sequer seguir o seu fervilhante e celebérrimo Twitter, a verdade é que me aproximei desta obra com os dedos trementes e a respiração suspensa ou não fosse José Afonso Furtado o autor de um dos livros que mais tive prazer de ler na minha vida. Estou a falar, como é óbvio, do monumental Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação (Livros e Leituras, 2000), uma obra ímpar que vai da Antiguidade ao hipertexto para narrar a história da fascinante relação do ser humano com este medium.

A leitura do seu novo livro provou que, afinal, nada tinha a temer: José Afonso Furtado continua igual a si mesmo, tanto nas (muitas) virtudes como nos (escassos) defeitos. O tema central do livro é a “fractura digital”, uma noção complexa que remete para a forma díspar como diversos segmentos etários e sócio-económicos da população estão (ou não) munidos um conjunto de recursos e competências para filtrar, consumir, relacionar, partilhar e produzir informação no novo universo digital. José Afonso Furtado é tão absolutamente exímio a expor, com seu habitual estilo sóbrio, claro e conciso, as mais importantes reflexões de diversos autores sobre o tema, que não hesito em recomendar este livro como primeira leitura a quem estiver interessado em explorar esta problemática. O único defeito que me atrevo a apontar nem é bem um defeito, mas talvez apenas uma idiossincrasia típica do seu autor: não é nada fácil descortinar uma opinião ou uma ideia original na malha de referências e citações com que tece (repito: magistralmente) este admirável livro. Um exemplo sintomático é a conclusão que não passa de um exercício perifrástico da ética de informação de Luciano Floridi. Por muito que José Afonso Furtado se reveja no pensamento do filósofo italiano, não consigo imaginar que ele não tenha opiniões e ideias próprias sobre o tema. Lamento que as mesmas não tenham encontrado espaço no livro.

Nota negativa para o trabalho da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Apesar de não ser insensível ao módico preço da obra (sobretudo quando comparado com a exorbitância dos preços praticados pela maioria das editoras portuguesas), a edição tem gralhas irritantes (a primeira logo na frase que abre o livro) e é indesculpável a ausência de um índice temático ou, pelo menos, de um onomástico. Espero que a benemérita fundação corrija estas lacunas (que são da sua única e exclusiva responsabilidade) nas próximas edições.

FURTADO, José Afonso, Uma Cultura da Informação para o Universo Digital, Lisboa: Fundação Francisco Manuel de Melo, 2012.

Quadros e figuras sinópticas que me facilitam a vidinha

Neste caso, trata-se de um quadro e de uma figura que elaborei para a tese relativos a uma área teórica particularmente sensível da videomusicalidade: os géneros.

O primeiro enumera e estabelece correspondências entre as principais concepções genológicas videomusicais defendidas por uma série de ilustres autores (as referências bibliográficas podem ser encontradas no sítio do costume):

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Apesar de serem todas distintas e discutíveis (sobretudo na sua nomenclatura), é curioso verificar a elegante correspondência entre as diversas categorias propostas por cada autor. Como é óbvio, apenas consegui chegar a essas correspondências depois de elaborar o quadro, o que demonstra a utilidade deste tipo de exercícios.

Com qual é que me revejo mais? Com todas e nenhuma, em graus distintos. As concepções de Marsha Kinder e E. Ann Kaplan são datadas e ecoam pós-modernismo por todos os poros. A de Joe Gow tem um número excessivo de categorias, que é precisamente o que a de Carol Vernallis não tem: um simples continuum que vai do narrativo ao não narrativo. Mas ambos pecam por gravitarem em torno de uma única categoria genológica: a performance (Gow) e a narratividade (Vernallis). Por fim, a proposta de Diane Railton e Paul Watson seria para mim a ideal (já a utilizei, por exemplo, aqui), não fosse o caso de ignorar uma divisão genológica fundamental e transversal a todas as categorias supra e que é uma consequência directa da convergência do formato para a Web Social: os vídeos musicais oficiais e não-oficiais (ou vernaculares).

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Criei esta figura para ilustrar a evolução cronológica destas duas categorias genológicas videomusicais. Se na era da MTV, os vídeos vernaculares eram residuais e de circulação limitada (cheguei a falar nisso aqui), a tendência cada vez mais visível é que a produção vernacular irá dominar o universo videomusical digital.

E pronto, era isto.

Música, Net & Blogs

Rui Dinis é, desde 2004, o meritório autor do magnífico A Trompa, exemplo absolutamente bissexto de um blogue exclusivamente dedicado à divulgação da música portuguesa, permanentemente repleto de informação útil e actualizada.

Entre os seus inúmeros méritos conta-se a criação do um e-book de acesso gratuito intitulado Música, Net & Blogs, onde o Rui utiliza a sua experiência para propor, com um estilo directo e suscinto, 60 dicas, ideias e opiniões sobre como optimizar a utilização da Web para comunicar, editar, distribuir e promover projectos musicais.

O que não me tinha dado conta (mea culpa) é que esse utilíssimo guia já ia na segunda edição revista e aumentada em 2011 (descobri-o agora mesmo graças ao portal Viral Agenda). A 2.ª edição veio reforçar ainda mais a minha opinião: este é um guia absolutamente útil e essencial para quem queira dar uma presença efectiva ao seu projecto musical nas plataformas digitais.

Deixo apenas uma crítica (construtiva, como é óbvio) relativamente a um tema que me é (bem) caro: a videomusicalidade. O guia dedica-lhe a seguinte passagem:

Se possível, produza videoclips para os seus singles. Hoje, já é possível realizar um videoclip com um mínimo de qualidade e a um custo cada vez menor. Promova a disseminação online dos seus videoclips, permitindo a incorporação dos mesmos em blogs e websites pessoais. Utilize uma conta do You Tube ou do Vimeo como agregador de todos os vídeos relacionados com o seu projecto (videoclips; vídeos de concertos; entrevistas; etc.). (pp. 10-11)

Passando por cima da forma porventura mais adequada de referir o formato, o que me faz vibrar a corda sensível é a modalização do discurso, isto é, aquele “se possível”. A importância da videomusicalidade na emergente paisagem mediática e, em particular, na convergência dos registos musicais para a Web não é compatível com aquela construção condicional: produzir vídeos musicais é, hoje em dia, absolutamente essencial, nem que seja um mero diaporama videomusical carregado no YouTube cuja componente visual se limite a uma mera imagem com o logo da banda, do disco, etc.

Como já tive a oportunidade de referir anteriormente, existem estudos que comprovam que o YouTube é actualmente a plataforma mais usada para ouvir música, à frente da rádio, do iTunes e dos próprios CDs. Dito de outro modo, o consumo musical (seja ele on ou off-line) está, hoje em dia, definitivamente a convergir para o consumo videomusical digital. Produzir um vídeo musical é, cada vez mais, não um mero veículo promocional complementar, mas sem dúvida a estratégia mais fundamental para difundir o trabalho de um projecto musical na Web.

Fica aqui, enquanto leitor, o meu modesto contributo para uma hipotética 3.ª edição deste valioso guia.

Como (não) fazer dinheiro com a música na emergente paisagem mediática digital

Ainda a propósito da crise da indústria discográfica e da aparente falta de alternativas de fontes de rendimento para os músicos na emergente paisagem mediática digital, foi publicado um artigo muito interessante (e um tanto ao quanto reaccionário) de Damon Krukowski (ex-líder dos saudosos Galaxie 500) na Pitchfork cujo leitura recomendo. Destaque para a seguinte passagem:

To put this into perspective: Since we own our own recordings, by my calculation it would take songwriting royalties for roughly 312,000 plays on Pandora to earn us the profit of one — one — LP sale. (On Spotify, one LP is equivalent to 47,680 plays.)

Em complemento, recomendo igualmente este artigo publicado no Stereogum de Chris Ruen, autor desta obra bem recente que tenciono ler nos próximos dias. Prometo depois vir aqui contribuir para o debate. Até lá, boas leituras.

Amen Break

Tenho andado nas últimas semanas em torno da noção de colagem (sampling) no campo videomusical, sobretudo devido à minha (ainda não confirmada) participação no Video Vortex #9. O conceito tem sido explorado por inúmeros autores que não se cansaram de o apodar de forma distinta: «Age of Reproduction» (Walt Benjamin, Peter Wollen), «Art of Post-Reproduction» (Nicolas Bourriaud), «Culture of Redaction» (John Hartley), «Generation Mash-Up» (Michael Serazio), só para citar os casos que me parecem os mais dignos de menção. Ainda recentemente, adquiri o último livro de David Byrne (cuja leitura recomendo vivamente), onde o ex-líder dos Talking Heads tece igualmente algumas considerações bem astutas sobre o fenómeno no campo musical, não hesitando em denominá-lo de meta-music:

«For many years, DJs, mixers, and hip-hop artists constructed tracks from digital samples of riffs and beats taken from existing recordings. [...] In much contemporary pop, if you think you’re hearing guitar or piano, most likely you’re hearing a sample of those instruments from someone else’s record. What you hear in such compositions are lots of musical quotations piled on top of one another. Like a painting from Robert Rauschenberg, Richard Prince or Kurt Schwitters made of appropriated images, ticket stubs, and bits of newspaper, this music is a species of sonic collages. In some ways it’s meta-music; music about other music.» (2.1 Byrne 2012: 131)

Vem isto a propósito de um muito interessante documentário de Nate Harrisson disponível no YouTube intitulado Can I Get An Amen? e que conta a odisseia de um loop de bateria de 6 segundos (apodado de amen break) na produção musical dos últimos 40 anos. É fabuloso e super-esclarecedor.

Backfire

Problema
A quebra de receitas da indústria discográfica portuguesa na última década foi da ordem dos 80%.

Resolução
A AFP (que representa 95% da indústria nacional) move processos criminais contra utilizadores portugueses que partilham registos musicais em redes peer-to-peer.

Saldo
Duas condenações desde 2008 em que as penas de prisão foram substituída por dias de multa.

Recomendação
Sugerir à malta da AFP que aprendam alguma coisa com os imensos casos de estudo em que editoras e projectos musicais conseguem obter lucros fabulosos com a fomentação, junto dos fãs, da partilha da sua música nas plataformas digitais. Que casos são esses? Muitos deles vêm referidos e analisados em diversas obras publicadas recentemente como, por exemplo, esta, esta e esta. Não apenas serão capazes de aprender alguma coisa com estes livros, como a sua leitura acabará por ser mais rápida e menos onerosa do que enveredar por ridículos, morosos e infrutíferos processos criminais dirigidos a potenciais e mui susceptíveis clientes. Como eu.