A leitura deste texto (dica do Hilário Amorim) deixou-me um sabor agridoce na boca.
Comecemos pelas coisas boas (ou doces).
Em primeiro lugar, estamos perante a mais minuciosa recapitulação que li até hoje sobre o fenómeno de popularidade videomusical do ano (o Harlem Shake) que, mais do que um epifenómeno, esteve na base de uma alteração significativa no modus operandi da indústria musical.
Em segundo lugar, o autor tem toda a razão quando sublinha não apenas a primazia do formato videomusical na indústria musical, como quando questiona a fiabilidade da contabilização das visualizações levada cabo pelo YouTube:
Google’s YouTube, not Apple’s iTunes, is now the dominant force in music. [...] Google has amassed unprecedented power as a medium. It is massive, global and central. In addition, its claims about viewership are not audited. Television, radio and newspaper audiences are measured by independent entities like Nielsen and the Alliance for Audited Media. Advertisers can be reasonably certain how many people are seeing their messages. Google’s and YouTube’s audience claims are not measured independently.
Agora, as coisas menos boas (ou amargas).
Em primeiro lugar, o bater no ceguinho da viralidade (remeto, novamente, para este meu texto). A passagem que deixo de seguida, em particular, é confrangedora, porque reduz e simplifica toda a complexidade das relações sociais e dos processos comunicativos que unem os utilizadores da rede através de um processo de desumanização (“human information routers”) que pode ser giro para cuspir fórmulas (aquele trio de “become”s na mesma frase têm o mesmo panache dos truques de magia), mas que está a leste de qualquer abordagem séria ou científica dos referidos fenómenos:
The brain-to-brain propagation of Dawkins’ memes can now happen worldwide within seconds. We have a new real-time, global culture that is not only technological but also social. Experiences like imitating the YouTube videos for “Single Ladies,” “Somebody That I Used To Know” and “Call Me Maybe” create instant traditions, or “meta-memes,” that prime us to become ultra-efficient human information routers. Memes become themes become meta-memes become norms [aqui estão eles!]. A few years ago, few people would have posted a video of themselves singing or dancing on YouTube. Today, for many, doing so is not only second nature—it’s urgent. In our real-time culture, meme speed matters. Primacy is more important than privacy.
Em segundo lugar, o artigo refere um importante dado quantitativo (2 mil milhões de vídeos musicais são visualizados por dia no YouTube) através de uma hiperligação (esta) que remete para um texto que não refere esse número. É uma prática bastante corrente, reconheço, mas nem por isso deixa de ser altamente reprovável. De resto, já mandei um mail para o portal armado em nojentinho escandalizado.
Por fim, o título: You didn’t make the Harlem Shake go viral — corporations did. Mesmo passando por cima da cena do “viral” e imaginando que o termo é apenas uma forma, bastante em voga, de referir a popularidade de um vídeo independentemente dos mecanismos que estiveram na origem da sua popularidade, não há absolutamente nada no texto que sustente a afirmação. É óbvio que diversas marcas procuram colar-se, com maior ou menor sucesso, ao fenómeno, mas basta ler a cronologia (incluída no próprio texto) da disseminação do Harlem Shake pelas plataformas digitais para nos apercebermos que a sua popularidade deve-se sobretudo aos utilizadores das redes sociais (YouTube, facebook, Twitter, etc.).
Em resumo: o texto vale pelas premissas, mas esqueçam lá as conclusões. Em compensação, fiquem com esta divertida infografia.
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