Kanye West Unchained

As possibilidades do formato videomusical são infindas, haja imaginação (e alguns meios) para explorar as suas possibilidades. Vejam, por exemplo, o caso de Kanye West que resolveu apresentar um tema novo do seu próximo disco através de um vídeo musical que (e aqui é que a coisa se torna interessante) foi projectado em 66 edifícios em 10 cidades de 3 continentes (o portal oficial indica a localização precisa de cada projecção). Como é óbvio, apesar de a façanha não ter sido publicitada, o YouTube já está repleto de gravações do acontecimento. Eis um deles (gravado em Brooklyn, NY). Tudo converge para a rede, de facto, não obstante os desvios. Mas são precisamente desvios como este que conseguem chamar a atenção dos utilizadores.

YouTube: everything with no roadblocks

Raramente encontro na rede alguém com uma visão que partilho a 100% sobre a convergência da fruição musical multimediática para o formato videomusical. É por isso que faço questão de deixar aqui esta pequena citação de Frank Woodworth no hypebot (sublinhados meus):

The other interesting thing about YouTube as a destination for music discovery is that playlists and curation are not driving it. Just like Wikipedia, IMDB or Google itself, YouTube is a conversion of offline conversations into online discovery. It works with our natural rhythms. This makes me wonder if the race to have the perfectly curated service is necessary. There are a numerous places for music discovery, but the best service is one that has everything with no roadblocks so that if a song or artist enters a conversation a fan can search and play the music seamlessly. Currently, this is YouTube. It has the largest selection and no walls. (fonte)

Seen Your Video

Recomendo a leitura deste belíssimo artigo de Lindsay Zoladz publicado na Pitchfork que, a pretexto deste evento, faz um interessante (e pessoalíssimo) balanço entre a era doirada do formato videomusical na década de 90 e o seu vigoroso renascimento nas plataformas digitais. Gosto muito desta passagem (negritos meus):

A favorite video was different from a favorite record; you couldn’t possess it, you never knew quite when you’d see it again, and if you tried to remember it later, your imagination had to fill in the blanks. That was part of the frustration, and the fun. [...] For better and for worse, what the internet has rendered extinct is that elusive quality the music video experience used to have: the excitement of not knowing what was coming on next, the feeling that you had to fully immerse yourself in a video because you didn’t know when you’d see it again. In the age of YouTube, it’s now the viewer, not the station programmer (or the sock-puppet VJ) calling the shots and deciding what to watch and when to watch it. But isn’t this the sort of breakthrough I was dreaming about back in my home-taping days? Turns out that the downside of instant access to everything all the time is that it often feels like there are too many videos out there to watch – and there’s reason to fear that our average attention spans are whittling down to something shorter than the music video itself.

Spotify videomusical?

Pelos vistos, o Spotify não dorme em serviço. Segundo fontes citadas por este artigo do Busniness Insider, o popular serviço de streaming musical estará em negociações com o Netflix para criar um serviço de streaming videomusical:

Netflix and Spotify are betting that they can [join forces] [...] as the distinction between Internet-based video and cable TV blurs thanks to the rise of smartphones, tablets and Internet-connected TVs and set-top boxes. (fonte)

Caso isso se concretize, podemos estar perante a primeira ameaça séria à hegemonia do YouTube no universo videomusical. E, claro está, perante mais uma prova de que a fruição musical multimediática está a convergir para o formato. A seguir atentamente.

Nota

Uma pequena adenda ao meu post anterior.
Recebi uma amável resposta do editor da QZ Ideas, Lauren Brown, ao meu mail a inquirir sobre o facto do valor referido por Kevin Ashton neste artigo de que 2 mil milhões de vídeos musicais serem visualizados por dia no YouTube não ser devidamente suportado pela hiperligação incluída no texto:

We were missing this link, which says that in 2011, nearly 40% of the views were music, so it’s an extrapolation.

Fica a lacuna e a devida explicação. De notar, no entanto, que a extrapolação é anacrónica (ratio de 2011 para dados de 2012).

Harlem Shake (adenda ao recap)

Sobre a contabilização das visualizações no YouTube

Já falei sobre o tema anteriormente, mas este vídeo dá algumas luzes sobre a forma como o YouTube processa e contabiliza as visualizações. Reparem como o técnico da Google Inc. atribui um valor económico (“currency”) às visualizações dos seus vídeos – afinal de contas, esta é a base sobre a qual assenta todo o modelo de negócio do portal.

IV Encontro Ibérico da EDICIC 2013 – comunicação

edicic2013

Acabo de receber a informação de que a proposta de comunicação que submeti para o IV Encontro Ibérico da EDICIC foi aceite. O evento terá lugar nos próximos dias 4 a 6 de Novembro de 2013 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Deixo de seguida o resumo da minha comunicação.
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Título
A difusão vertical na Web Social: o caso do vídeo musical Heaven Can Wait no Antville

Autor
João Pedro da Costa

Resumo
O artigo visa, através de uma aplicação da teoria fundamentada em dados ao método etnográfico, proceder a uma análise textual da fruição participativa do Antville, a mais antiga e maior comunidade virtual de fãs do formato videomusical, a Heaven Can Wait de Charlotte Gainsbourg & Beck (Schofield, 2009). Os resultados principais desta análise passam pelo enquadramento da referida praxis dos membros Antville num tipo de fruição participativa “forense” geradora de uma forma eloquente de inteligência colectiva que, motivada por características producentes do texto videomusical, desencadeia um tipo de difusão passível de ser conceptualizada como “vertical”, isto é, como uma forma complementar das práticas difusoras “horizontais” mais comuns na Web Social (disseminação e propagação).

Palavras-chave
Web Social, Vídeos Musicais, Difusão Vertical, Difusão Horizontal, Fanismo.

NSFW

nonsfws_03O AV Club publicou um texto interessante com uma selecção de vídeos musicais da década de 80 que a MTV teledifundiu na época com restrições (isto é, em horário pós-21h ou pós-24h) supostamente devido ao seu conteúdo sexual, violento ou racista. Ver estes vídeos hoje em dia é uma experiência interessante porque demonstra o anacronismo da tolerância da televisão musical em relação ao que considerava ser o politicamente incorrecto. Isto é, como é óbvio, uma forma de olhar para a coisa. Outra, porventura mais interessante, é perceber que, na época, projectos musicais como os Duran Duran, Frankie Goes To Hollywood, Bronski Beat ou a Olivia Newton-John gozavam de uma popularidade que, inevitavelmente, fazia com que as respectivas editoras estivessem empenhadas em “convencer” (estou, como é óbvio, a falar das famigeradas payolas) a MTV a incluir os seus vídeos na sua grelha, fossem eles ou não passíveis de ferir a sensibilidade da sua audiência. Fossem estes vídeos de projectos musicais menos populares e é mais do que provável que nenhum deles teria tido a mais ínfima hipótese de serem teledifundidos. Ainda assim, a MTV não estava disposta a tudo (e por “tudo” refiro-me à possibilidade de serem processados pelos seus espectadores ou pelos pais dos seus espectadores) e não faltam casos de bandas de primeiro plano que viram os seus produtos videomusicais censurados pelo canal.

Hoje em dia, com a ascensão das plataformas digitais nas práticas quotidianas de um número cada vez maior de utilizadores, as coisas mudaram radicalmente: já não há gatekeepers e as tentativas de censura estão condenadas ao fracasso (tive a oportunidade de falar sobre esse tema repetidas vezes neste blogue). No entanto, apesar de toda esta nova liberdade de expressão, os utilizadores das plataformas digitais rapidamente encontraram uma forma não de censurar mas de categorizar conteúdos mediáticos (sejam eles videomusicais ou não) cuja visualização, devido ao seu conteúdo sexual ou profano, é susceptível de criar constrangimentos quando fruídos em instituições de ensino ou no local de trabalho: estou a falar, como é óbvio, da sigla NSFW (Not Safe For Work). De resto, os próprios projectos musicais começaram nos últimos anos a incluir a sigla no título dos vídeos musicais que carregam para os portais de partilha de vídeos (uma pesquisa que acabo de fazer da expressão “music video NSFW” no YouTube devolve nada mais nada menos do que 509 mil resultados). Eis um exemplo recente e eloquente:

A utilização generalizada e sistemática da sigla NSFW é, definitivamente, uma pedra no sapato de quem não acredita na possibilidade de auto-regulação da Web.