Your MTV Top 20

Quatro anos de investigação ensinaram-me que a convergência da fruição musical para a emergente paisagem mediática digital é um fenómeno complexo do qual apenas me atrevo a identificar meia-dúzia de tendências: o crescimento da importância de coisas como o formato videomusical, o streaming, o YouTube e a produção vernacular e a progressiva perda de protagonismo de outras como a MTV e os grandes tubarões (vulgo majors) da indústria musical. É por isso que a notícia de que a MTV teria criado uma tabela chamada Your MTV Top 20 provocou em mim pouco mais do que um bocejo e o leve prenúncio de uma irritação cutânea.

A ideia que a MTV quer fazer passar é que a referida tabela ordena os vídeos musicais mais disseminados pelos fãs nas redes sociais, mas basta uma leitura mais atenta à notícia para perceber que a coisa se limita a contabilizar o número de visualizações (directas ou via facebook e/ou Twitter) dos vídeos presentes em cada um dos 60 portais que a MTV tem na rede e que reflectem o que é transmitido pelos 160 canais que a mesma MTV tem espalhados pelo planeta. Para dar mais credibilidade à tabela, a MTV contratou os serviços da The Echo Nest para obter dados webométricos que, no entanto, apenas serão utilizados para apurar a popularidade de um determinado artista ou eventuais novas tendências musicais, isto é, para eventualmente (tá bem, abelha) incluir ou excluir um determinado vídeo do referido Top 20 (que na verdade vai até ao número 50).

Trocado por miúdos, o que temos é uma tabela que recorre marginalmente às redes sociais e a dados webométricos pouco claros para, supostamente, apurar a popularidade de uma selecção de vídeos musicais transmitidos pelos diversos canais da MTV. E como é que são escolhidos esses vídeos musiciais? Como é óbvio, através de playlists que resultam muito simplesmente de acordos comerciais celebrados entre a própria MTV e as editoras discográficas. Isto é: social media-powered music video chart – my ass. Tudo não passa de uma operação de camuflagem para encobrir uma das mais vergonhosas (porque pouco claras e dissimuladas) fontes de rendimento da MTV. Desta forma, não me admiraria nada que os dados fornecidos pela Echo Nest à MTV sirvam única e exclusivamente para o canal apurar a posição negocial dos seus parceiros comerciais caso a caso, isto é, vídeo a vídeo.

Vídeos musicais em Vila do Conde

Depois de uma pausa de um ano, a competição de vídeos musicais regressa ao Curtas de Vila do Conde, agora num novo formato, dedicado sobretudo às produções nacionais. Os 16 vídeos em competição serão exibidos no próximo dia 10 de Julho, quinta-feira, pelas 00h na sala 1 do Teatro Municipal de Vila do Conde. Eu sou rapaz para dar lá um salto.

Smells like MTV

Não abunda pela rede muita memorabilia sobre o formato videomusical pelo que este casting call para o lendário Smells Like Teen Spirit dos Nirvana tem um valor histórico assinalável para contextualizar a criação do vídeo que ajudou a catapultar o rock underground norte-americano para as tabelas de venda ou, se preferirem, o teledisco que marcou o princípio do fim da ética punk DIY do rock independente do novo continente, cujas principais bandas (Nirvana, Sonic Youth, The Replacements, etc.) não resistiriam ao apelo das denominadas majors.

casting-call

O que é interessante neste anúncio de recrutamento de figurantes é o facto de haver uma paradoxal coincidência entre o ideal punk que movia os Nirvana e os ditames da MTV: tanto o escalão etário dos participantes como o pedido para que o guarda-roupa exclua a referência visível a qualquer marca registada ou logotipo estavam em sintonia não apenas como o ideário anti-establishment da banda como com a política comercial do canal (a MTV sempre cobrou o acesso de terceiros ao seu precioso público-alvo). Como é óbvio, os Nirvana não tinham qualquer hipótese de conseguir subverter a dimensão comercial da televisão musical com um simples vídeo – veja-se, por exemplo, como o símbolo anárquico usado pelas cheerleaders em vez de ter despertado a curiosidade dos adolescentes norte-americanos para a causa anárquica, rapidamente se transformou num mero adereço tribal da geração grunge.

Serviço de streaming musical do YouTube (continuação)

Belo artigo que resume de forma eficiente todo o pandemónio de notícias contraditórias sobre a suposta querela entre o YouTube e algumas editoras independentes (que representarão 10% do mercado) relativamente aos termos de subscrição do futuro serviço de streaming (video?)musical do portal. Destaque para o facto de o autor do artigo se queixar da ambiguidade da nomenclatura utilizada pelas diferentes fontes, isto é, de não ser nada claro do que se está a falar quando se fala em “streaming musical”. Isto inclui os vídeos musicais ou não? Parece-me evidente (e preocupante) que sim – um dos corolários da minha tese é precisamente a identificação de vários indicadores que apontam que o futuro da fruição musical da rede vai, de facto, convergir para o formato videomusical. Oxalá o YouTube não mate a sua galinha de ovos de ouro com a sua (suposta) ganância. A ver vamos.

Más notícias

youtube-logo-oblique-650pxComecei a desconfiar que as coisas poderiam começar a descarrilar quando foi anunciado no final do ano passado que o YouTube estaria a pensar em lançar um serviço premium (isto é, pago) de streaming para dispositivos móveis para fazer concorrência a cenas como o Spotify, Rdio, Deezer, etc. O YouTube sempre esteve na linha frente do que acredito ser o futuro da música na rede: acesso livre, sem restrições, baseado num modelo de negócio que gravita em torno da fruição musical (anúncios, product placement, etc.) sem jamais limitar o seu acesso (a não ser que terceiros o solicitassem por questões de violação de direitos de autor ou que os produtores definissem restrições geográficas à fruição dos seus conteúdos). Como é óbvio, a história está ainda longe de estar completa: falta saber, por exemplo, de que forma o formato videomusical se irá articular com o Google Play Music All Access e como as produções vernaculares irão co-existir com os vídeos musicais oficiais. É. Quanto mais penso nisso, mais me convenço que a Google Inc. está a querer mexer (eufemismo para “rentabilizar à bruta”) em algo que, pelo menos para mim, me parece ser um serviço que cumpre tudo aquilo que desejo enquanto consumidor e produtor de conteúdos na rede. Parece que estou a assistir à milésima variação da história mais comum e triste do capitalismo: uma empresa aparece, revoluciona o mercado e combate com sucesso as práticas monopolistas de concorrentes para depois crescer desmesuradamente e enveredar pelas mesmas práticas que outrora combateu.