Animais

Ele há coincidências que põe em causa o próprio acaso. A semana passada, publiquei um post sobre o Genero e referi, como exemplo, o projecto/competição relativo ao tema «Animals» dos Muse. Pois bem, acaba-se de saber agora mesmo que o vídeo vencedor é uma produção tuga da autoria da dupla Inês Freitas / Miguel Mendes (oneness team).

Isto não passaria de uma efemeridade, não fosse o facto de o vídeo vencedor ser fabuloso não apenas do ponto de vista estético como na sua própria narrativa. Vale bem mil discursos sobre a crise que actualmente avassala Portugal e a maioria dos países da zona Euro. Parabéns aos vencedores.

Spectacle

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É mais um sinal do progressivo reconhecimento da importância do formato videomusical na emergente paisagem mediática digital: entre os próximos dias 3 de Abril e 6 de Junho, o prestigiado Museum Of The Moving Image de Nova-Iorque vai acolher a primeira exposição que celebra a arte e a história do vídeo musical. Aqui está um belo pretexto para, finalmente, conhecer a Big Apple.

Três tipos de fãs (video)musicais

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Acrescentei no sítio do costume a apresentação da Nielsen na edição deste ano do SXSW intitulada The Buyer And The Beats: The Music Fan[s] And How To Reach Them.

O documento apresenta os resultados de um estudo conduzido pela Nielsen junto de 4000 consumidores musicais e apresenta resultados que confirmam a actual conjuntura da emergente paisagem mediática digital: os nativos digitais descobrem mais música através do YouTube do que através de qualquer outro portal ou serviço (nem sequer o Spotify com um incremento de 253% de utilizadores em 2012 lhe faz sombra); os fãs utilizam as redes sociais para obterem um relação mais pessoal com os artistas; e 75% do consumo musical pago é feito pelos fãs.

Até aqui nada de novo: o vídeo musical continua a ser o formato mediático mais procurado pelos utilizadores para a sua fruição musical, na medida em que é este que lhe possibilita uma fruição multimediática rápida e grátis. A relativa novidade é o facto de haver dados quantitativos que apontam para uma evidência: para um determinado tipo de utilizadores (fãs), o formato videomusical não implica o fim do consumo musical pago. Mais: existe um mercado em franco crescimento neste segmento específico, visível na proliferação e crescimento da audiência de plataformas de financiamento feito por fãs para projectos artísticos em que se incluem, como é óbvio, os de cariz musical: Kickstarter, PledgeMusic, Pozible, Fansnextdoor, SellaBand, ArtistShare, Indiegogo e RocketHub, entre outros.

No entanto, o que me pareceu sinceramente mais interessante é a tentativa da Nielsen em tipificar ou segmentar os fãs musicais em 3 grupos: aficionados, digitais e big box. Elaborei uma pequena tabela que permitirá, porventura, perceber melhor os critérios que motivaram a proposta de classificação da Nielsen:

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A divisão é inteligível e, até certo ponto, faz sentido. Mais: este parece-me ser um belo e útil ponto de partida para a indústria musical re-equacionar o seu modelo de negócio na emergente paisagem digital. Termino com a seguinte observação: não é preciso ser nenhum especialista para rapidamente perceber que o consumo videomusical é uma característica comum ou transversal aos três tipos de fãs definidos pela Nielsen. Será desta que a indústria musical acorda para esta evidência e corrige o rumo que tem vindo a seguir nos últimos anos? A ver vamos.

YouTube meets Billboard

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Era inevitável: a Billboard e a Nielsen anunciaram esta semana que iriam passar a incorporar dados das visualizações do YouTube na ordenação das diversas tabelas do seu Hot 100: Hot Country Songs, Hot R&B/Hip-Hop Songs, Hot R&B Songs, Hot Rap Songs, Hot Latin Songs, Hot Rock Songs and Dance/Electronic Songs.

Até a semana passada, estes prestigiados tops da indústria norte-americana baseavam-se exclusivamente em dados monitorizados pela Nielsen relativos às vendas físicas, airplay radiofónico terrestre e on-line streaming (via radio e on-demand). Doravante, as visualizações de utilizadores dos Estados Unidos a vídeos musicais oficiais e vídeos produzidos por fãs com áudio autorizado pelas editoras discográficas passam a ser tidas em conta. Apesar de estar no segredo dos deuses a forma como a Nielsen integra estes novos dados no caldeirão (vulgo algoritmo), os resultados já se fizeram sentir no Hot 100 desta semana com Baueer (autor do famigerado Harlem Shake) a entrar directamente para o topo da tabela.

Ainda assim, não deixa de ser admirável o tempo que a indústria discográfica precisou para reconhecer esta nova realidade: a fruição musical está, definitivamente, a convergir para o formato videomusical.

Da maneira que quisermos

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A crónica de hoje de Miguel Esteves Cardoso no Público aflora uma questão que tenho abordado diversas vezes neste blogue (e que é, de resto, uma das pedras angulares do meu projecto de investigação): a convergência da fruição musical para o formato videomusical digital.

O MEC (que, confesso, conheço mais como melómano do que como audiófilo) começa por admitir que, à semelhança da esmagadora maioria dos utilizadores, recorre quase sempre ao YouTube (ou seja, ao formato videomusical) quando quer ouvir uma música (sobretudo quando é um tema que não conhece) para, logo de seguida, lamentar a qualidade audio da plataforma. Algumas observações:

- A relação de qualidade que estabelece entre os diversos media invocados (YouTube < MP3 < CD < vinil) não é inequívoca ou objectiva e mistura o digital como o analógico. O audio bitrate do YouTube, por exemplo, varia dos 64 aos 192 kbits/seg e só recentemente é que o iTunes permitiu uma resolução de 320 kbits/seg (fez furor, por exemplo, o descontentamento dos fãs dos Radiohead quando a banda disponibilizou em 2007 o disco In Rainbows com um bitrate de 160 kbits/seg.). Não existe qualquer critério objectivo que permite valorizar o som analógico (vinil, cassete e bobine) em relação ao digital (YouTube, MP3 e CD) e, por exemplo, nos últimos anos tenho visto inúmeros audiófilos renderem-se ao FLAC. Empiricamente, confesso que sinto uma diferença entre o som de um CD e de um vinil e que prefiro o do último – no entanto, essa valorização é subjectiva. Há uma famosa frase de Ian Davis que exprime essa diferença de uma forma que considero muito pertinente: o analógico é a aproximação da perfeição; o digital é o aperfeiçoamento da aproximação.

- O medium (seja ele digital ou analógico) que armazena as gravações musicais é apenas uma das variantes para a qualidade de reprodução: a outra é, obviamente, o dispositivo que lê/reproduz/descodifica essas gravações. Já ouvi temas no YouTube a partir do meu iPhone com uma fidelidade superior à de um gira-discos com umas colunas manhosas. No som analógico, os audiófilos (sim, conheço alguns) dão, por exemplo, muito importância à qualidade dos cabos que ligam o gira-discos às colunas.

- O MEC exemplifica na sua crónica um contexto para o recurso ao YouTube para ouvir música: quando o NME elogia uma música que nunca ouviu. Ora o que o MEC não refere era o que poderia fazer antes da emergência das plataformas digitais: ficava, como eu, a chupar no dedo até ao bendito dia em que uma loja de discos tivesse adquirido o disco ou à feliz coincidência de estar com a radiofonia ligada e sintonizada na estação de rádio que resolvesse passar, naquele preciso momento, o referido tema. Hoje em dia, não: pode ir imediatamente ao YouTube para, com grande probabilidade, ouvir o tema de imediato. Se a baixa resolução o incomodar, pode ir ao iTunes e descarregá-lo ou então à Amazon para encomendar o disco e depois ouvi-lo no seu Nakamichi/JBL. Qualquer uma destas práticas possibilitadas pela Web implicam sempre compassos de espera consideravelmente inferiores aos que tínhamos de suportar até meados da década passada.

Respondendo à questão promovida a título desta crónica, penso que, hoje em dia, a maioria dos utilizadores (e, definitivamente, o MEC) pode ouvir música de inúmeras maneiras e, pormenor importante, nenhuma delas é exclusiva. Para saciar a curiosidade imediata, temos o YouTube e outras plataformas como o SoundCloud. Se queremos andar com o tema no nosso leitor de MP3, podemos sacá-lo de borla ou adquiri-lo no iTunes ou no Bandcamp. Por fim, se desejamos ouvi-lo com a máxima qualidade e de acordo com a nossa sensibilidade audiófila, podemos sempre adquiri-lo (e caso esteja disponível) em formato digital ou analógico em inúmeras lojas virtuais. Ou seja: não é apenas para os melómanos que a emergente paisagem mediática digital é uma mais-valia. Sinceramente, e para mais tendo em conta o recente renascimento do vinil, não me parece que os audiófilos tenham motivos de queixa.

Quatro aproximações à criatividade

O texto que hiperligo de seguida foi originalmente escrito devido ao generoso convite da Joana Cabral para o seu saudoso Menina Rapaz que, entretanto, sumiu do HTML (daí a dedicatória). Agora pode ser lido, na íntegra, aqui. O meu obrigado ao Hugo Branco e ao resto da equipa da Viral Agenda pela boa onda e hospitalidade.

Vídeos musicais textuais (last call)

Nem de propósito, vieram hoje parar à Web dois exemplos eloquentes que estão directa ou indirectamente relacionados com o subgénero dos vídeos musicais textuais. O primeiro, dos Autre Ne Veut, leva à letra a dimensão vintage e karaoke do subgénero e o segundo, dos The Strokes, vai ainda mais longe no revivalismo e troca o formato videomusical por uma imagem que parodia o póster de um filme de série B que, como não podia deixar de ser, inclui a letra do seu novo single. Está-se mesmo a ver que este será apenas um teaser para um vídeo que vem aí.

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The Flaming Lips: «Sun Blows Up Today» (2013)

O novo tema dos The Flaming Lips foi hoje disponibilizado na rede através de um dos mais conseguidos vídeos musicais textuais que vi até hoje. Digo isso não apenas porque é uma sublime ilustração da vertente psicadélica da música da banda, mas porque é a mais perfeita demonstração da definição que Peter Wollen deu ao formato há quase três décadas atrás: «an animated record sleeve, extended in time, with its own soundtrack» (1.1 WOLLEN 1986: 168). Capas e vídeos musicais, não me canso de repeti-lo, são duas faces da mesma moeda. E a convergência do formato para a Web Social apenas veio tornar essa relação ainda mais visível.