Testemunha digital

Das cenas mais irritantes que posso ver num vídeo musical é a designação “official audio” no título. Isto porque a designação parece querer negar a sua própria identidade mediática: qualquer contéudo do YouTube é necessariamente audiovisual, nem que a parte visual seja “apenas” uma fotografia (de resto, já por diversas vezes falei aqui da importância e riqueza dos diaporamas videomusicais). Pois parece que a St. Vincent partilhará a mesma irritação: cliquem em play e reparem bem na imagem deste suposto “official audio” de um tema do seu próximo disco.

E agora reparem no nome da canção. Pois é.

2013: antologias de um ano videomusical (em actualização)

20132014

Tal como o ano passado, vou fechar 2013 com a minha habitual compilação de antologias videomusicais. Têm aqui muito com que se entreter.

A todos os leitores deste blogue, o meu sincero voto de um 2014 cheio de coisas boas.

Antville: Music Video Awards
Buzzfeed: Top 24
Huffington Post: Top 20 (+1)
IMVDb: Top 10
mvflux: Top 20-30; Top 10-20; Top 10
MVOD: Top 15
Paste Magazine: Top 10
Pitchfork: Top 25
Rolling Stone: Top 10
Seen Your Video: Top 50
The Needle Drop: Top 25
Time: Top 10
Videostatic: Top 10 NSFW; Top 10 Hip-Hop; Top 15 (+15)
Videoterapia: Top 10

Epic Split (a propósito de Andreas Nilsson)

Van Damme e Andreas Nilsson durante a filmagem do Epic Split para a Volvo

Van Damme e Andreas Nilsson durante a filmagem do Epic Split para a Volvo

Penso que deverá haver pouca gente que ainda não tenha visto um dos anúncios mais fabulosos do ano (à data em que escrevo, já leva mais de 60 milhões de visualizações no YouTube). Quando o vi pela primeira vez fiquei boquiaberto perante a forma como uma ideia tão simples podia transformar a demonstração de uma determinada característica (estabilidade da direcção) de um produto (os camiões TIR da Volvo) num momento audiovisual genuinamente espectacular.

No entanto, para além da espargata do Van Damme, o que me ficou sobretudo na memória foi a fabulosa utilização do tema Only Time da Enya no anúncio: uma escolha que tanto tem de inesperado como de certeiro, na medida em que sublinha, com grande efeito e um subtilíssimo humor, a dimensão simultaneamente épica e absurda da proeza do actor belga. Na altura, não pude deixar de pensar que a segunda metade do anúncio era uma cabal demonstração do poder da linguagem videomusical, isto é, um daqueles casos em que o todo formado pela música, as imagens e a palavra é infinitamente superior à soma das partes.

Não voltei a pensar nestas minhas considerações até que, ontem, fui surpreendido com a publicação no perfil do facebook de um dos meus realizadores favoritos de vídeos musicais da foto que encima o presente post: só então percebi o que deveria ter compreendido mal vi o anúncio pela primeira vez – que apenas o Andreas Nilsson é que poderia ser capaz de produzir algo de tão surrealmente inesperado e eficaz.

Como é óbvio, o mega-sucesso deste anúncio vai, sem dúvida, dar uma assinalável (e merecida) visibilidade ao trabalho do realizador sueco e, quem sabe, até abrir-lhe as portas para a concretização de projectos porventura mais audazes (a mera ideia de uma longa-metragem deixa-me a salivar). Como forma de celebrar este marco na carreira do Andreas Nilsson, deixo-vos de seguida uma pequena lista de reprodução do YouTube que criei com os meus dez vídeos musicais favoritos da sua autoria. É tudo do melhorio. Enjoy.

Sobre os Death Grips a propósito do KISMIF

kismiflogopqJá tive a oportunidade de falar aqui sobre aquele que promete ser o meu evento académico favorito do próximo ano (com direito a hiperligação na coluna da direita do blogue e tudo): o Keep It Simple, Make It Fast! Underground Music Scenes and DIY Cultures.

Pois bem, acabo de submeter a minha proposta de comunicação para o evento e que, caso seja aceite, irá abordar a dimensão visual de um dos projectos musicais mais fascinantes e polémicos da última década: os Death Grips.

Deixo aqui o título e respectivo resumo da coisa seguidos de uma pequena (porém elucidativa) amostra videomusical dos meninos.

TITLE
“Whatever I Want (Fuck Who’s Watching)”: Death Grips and the emerging digital media landscape.

ABSTRACT
The decline of the music record industry and the rise of a new digital transmediatic landscape are increasingly blurring the frontiers that once separated mainstream culture from indie rock and underground music. Not only do typically “indie” cultural touchstones and sensibilities encroach nowadays into mainstream advertising, television, film and music, but the Do-It-Yourself ethos has also become a common ground for the user-generated contents and vernacular creativity that define a paramount part of today’s mediasphere. In the popular music arena, social media dynamics empowers musicians and fans in such a way that success and popularity have become more unpredictable and less controllable by gatekeepers than ever: in this day and age it is possible for an anonymous underground mixtape to become more spreadable than the last record of a highly marketed major label artist.
Death Grips, the experimental hip-hop trio from Sacramento, California, have – since 2011 – apparently done their best to swim upstream and to sabotage the opportunities brought by the power of the Internet: they have cancelled a highly buzzed tours with no apparent reason and have pulled a no-show on several other occasions; they got dropped by Epic Records after leaking a full-album (with a NSFW cover) and publishing privileged emails between their label and band management; they have removed their first record from iTunes, deleted their popular Twitter account and vanished from the press and social media at the peak of their popularity. This paper aims to analyze what seems to be the coherent visual strategy adopted by Death Grips in their baffling musical journey through today’s digital media landscape in order to elicit how their music videos and album artwork are not only deeply related to Punk’s visual art heritage but also showcase a high level of digital literacy and an acute understanding of the implications of the convergence of music phenomena into online transmediatic fruition.

Actas do VI Encontro Ibérico do EDICIC 2013

6edicicJá estão disponíveis em formato digital as actas do VI Encontro Ibérico do EDICIC 2013 subordinado ao título Globalização, Ciência, Informação e que teve lugar nos passados dias 4 a 6 de Novembro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. São perto de 1800 páginas que demonstram bem a amplitude e a qualidade do evento.

O meu artigo intitulado A difusão vertical na Web Social: o caso do vídeo musical Heaven Can Wait no Antville está incluído nas referidas actas e, como sou um gajo porreiro, pode ser directamente acedido na íntegra aqui (PDF).

Beyoncé (Visual Album)

beyonce-visual-albumA Beyoncé acaba de lançar um disco homónimo no iTunes. O que torna a coisa interessante é a surpresa do anúncio, o facto de o lançamento ser exclusivamente digital e, SOBRETUDO, o de trazer mais vídeos musicais (17) do que temas (14). Diz que a coisa é um (rufar de tambores) visual album. Calma, a menina explica-se:

I see music. It’s more than just what I hear. When I’m connected to something, I immediately see a visual or a series of images that are tied to a feeling or an emotion, a memory from my childhood, thoughts about life, my dreams or my fantasies. And they’re all connected to the music.

I didn’t want to release my music the way I’ve done it. I am bored with that. I feel like I am able to speak directly to my fans. There’s so much that gets between the music, the artist and the fans. I felt like I didn’t want anybody to give the message when my record is coming out. I just want this to come out when it’s ready and from me to my fans.

I just want to give my album to the people I love and respect and hope that they feel the same thing I felt when I made the music. (fonte)

Como é óbvio, não há nada de revolucionário nisto e até denuncio aqui um certo conservadorismo ao pedir 16 euros à malta para comprar tudo no iTunes (sim, eu fui um dos camelos, mas a investigação oblige). Isto, no fundo, não passa de mais um exemplo (eloquente e importante devido à dimensão planetária da artista) de uma das tendências videomusicais que identifiquei no meu projecto de investigação: as séries videomusicais.

É possível fazer remontar a origem desta tendência aos video albums (se calhar foi por isso que a Beyoncé chamou à sua cena visual album, para dar ares de cena nova e diferente), objectos físicos materializados em suportes electromagnéticos constituídos por vídeos musicais cujo alinhamento correspondia à sequência de faixas de um álbum musical. Curiosamente, o primeiro video album é mesmo anterior ao surgimento da própria MTV e remonta a 1979, ano em David Mallet realizou um vídeo musical para cada uma das canções de Eat To The Beat dos Blondie. Apesar de os video albums virem a obter alguma notoriedade nas décadas seguintes com o desenvolvimento do mercado do VHS e dos DVDs, a verdade é que os mesmos, devido aos custos de produção, continuavam em grande medida restritos a projectos musicais mainstream. Com a convergência digital, o âmbito das séries videomusicais ampliou-se consideravelmente e acredito mesmo que caminharemos para uma paisagem mediática em que serão cada vez mais raros os temas musicais que não terão uma dimensão visual sob a forma de um vídeo musical.

Este lançamento da Beyoncé vai, no entanto, ficar como um marco na história do formato. Pela dimensão da artista, como já referi, mas igualmente pelo valor intrínseco da empreitada. Acabei de ver e ouvir a coisa toda pela primeira vez há minutos e fiquei com a nítida sensação que há aqui um virar de página na história da produção videomusical. Deixo-vos uma lista de reprodução do YouTube com excertos de 30 segundos de cada vídeo para ficarem a salivar.

Eis a (sonante) lista de realizadores envolvidos: Melina Matsoukas, Jonas Akerlund, Hype Williams, @LILINTERNET, Ricky Saiz, Jake Nava, Francesco Carrozzini, Todd Tourso, Ed Burke, Bill Kirstein, Pierre Debusschere, Terry Richardson, Todd Tourso, Bill Kirstein e a própria Beyoncé (obviously).

Keep It Simple, Make It Fast! Underground Scenes and Do It Yourself Cultures

kismif

O congresso Keep It Simple, Make It Fast! Underground Scenes and Do It Yourself Cultures vai ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e na Casa da Música nos dias 9 a 11 de Julho de 2014 e não tenho dúvidas que vai ser o grande acontecimento académico internacional a ter lugar em Portugal no próximo ano para quem gosta das paisagens mais periféricas (e respectivo povoamento) da música popular.

O âmbito do congresso (de cariz marcadamente transdisciplinar apesar do seu enfoque sociológico) passa por uma reflexão em torno da importância das práticas musicais e culturais ditas underground nas sociedades contemporâneas. Pela parte que me toca, o KISMIF interessa-me particularmente devido ao impacto que a emergente paisagem tramsmediática digital tem tido na suposta efemeridade ou marginalidade destas práticas e no facto de a estética DIY se ter tornado um denominador comum à maioria dos conteúdos gerados pelos utilizadores e à criatividade vernacular que caracteriza a nossa actual mediasfera musical. Para além de tencionar participar no congresso com uma comunicação/artigo (more about that later), faço igualmente parte da sua Comissão Executiva devido a um gentil convite da incansável Paula Guerra, a grande mentora do projecto de investigação que alberga o evento. O pedido de trabalhos já se encontra aberto e fechará no próximo dia 15 de Janeiro.

Toda a informação está disponível aqui.

Vídeos musicais textuais: uma breve sinopse histórica

Isto é giro e instrui o cidadão, porém:

1) A parte introdutória invoca argumentos falaciosos para as editoras gostarem deste novo género videomusical: é falso que um vídeo musical textual seja sempre de mais fácil, rápida e barata execução do que um vídeo musical convencional e não há razão nenhuma para uma editora ou um projecto musical querer separar os vídeos oficiais dos não-oficiais até porque estes últimos é que são mesmo de borla;

2) Os precursores históricos são bem sacados mas descontextualizados: «Subterranean Homesick Blues» (1967) de Bob Dylan foi originalmente uma sequência do documentário Don’t Look Back de D.A. Pennebaker (filmado em 1965 mas exibido em 1967) e tanto «Sign O The Times» (1987) de Prince e «Praying for Time» (1990) de George Michael foram encomendados pelas editoras dos artistas perante a recusa de ambos em participar na produção dos respectivos vídeos musicais;

3) A distinção entre vídeos amadores e profissionais no actual contexto mediático digital é anacrónica;

4) Dar a entender que existe uma “competição” entre o material promocional produzido oficialmente pelas editoras e o oficiosamente produzido pelos fãs é, novamente, uma falácia (mas aqui o rapaz até é capaz de ter razão pois não deve faltar por aí muita cabecinha pensante no negócio da música que pensa o mesmo);

5) A presença de erros ortográficos ou de transcrição nos vídeos musicais textuais raramente é um acaso, mas sim uma voluntária homenagem aos não menos voluntários erros incluídos nos cartazes desenhados por Dylan na famosa sequência referida em 2);

6) Finalmente, é lamentável que não se fala na óbvia relação entre os vídeos musicais textuais e a progressiva convergência do artwork dos discos para o formato videomusical.