
A crónica de hoje de Miguel Esteves Cardoso no Público aflora uma questão que tenho abordado diversas vezes neste blogue (e que é, de resto, uma das pedras angulares do meu projecto de investigação): a convergência da fruição musical para o formato videomusical digital.
O MEC (que, confesso, conheço mais como melómano do que como audiófilo) começa por admitir que, à semelhança da esmagadora maioria dos utilizadores, recorre quase sempre ao YouTube (ou seja, ao formato videomusical) quando quer ouvir uma música (sobretudo quando é um tema que não conhece) para, logo de seguida, lamentar a qualidade audio da plataforma. Algumas observações:
- A relação de qualidade que estabelece entre os diversos media invocados (YouTube < MP3 < CD < vinil) não é inequívoca ou objectiva e mistura o digital como o analógico. O audio bitrate do YouTube, por exemplo, varia dos 64 aos 192 kbits/seg e só recentemente é que o iTunes permitiu uma resolução de 320 kbits/seg (fez furor, por exemplo, o descontentamento dos fãs dos Radiohead quando a banda disponibilizou em 2007 o disco In Rainbows com um bitrate de 160 kbits/seg.). Não existe qualquer critério objectivo que permite valorizar o som analógico (vinil, cassete e bobine) em relação ao digital (YouTube, MP3 e CD) e, por exemplo, nos últimos anos tenho visto inúmeros audiófilos renderem-se ao FLAC. Empiricamente, confesso que sinto uma diferença entre o som de um CD e de um vinil e que prefiro o do último – no entanto, essa valorização é subjectiva. Há uma famosa frase de Ian Davis que exprime essa diferença de uma forma que considero muito pertinente: o analógico é a aproximação da perfeição; o digital é o aperfeiçoamento da aproximação.
- O medium (seja ele digital ou analógico) que armazena as gravações musicais é apenas uma das variantes para a qualidade de reprodução: a outra é, obviamente, o dispositivo que lê/reproduz/descodifica essas gravações. Já ouvi temas no YouTube a partir do meu iPhone com uma fidelidade superior à de um gira-discos com umas colunas manhosas. No som analógico, os audiófilos (sim, conheço alguns) dão, por exemplo, muito importância à qualidade dos cabos que ligam o gira-discos às colunas.
- O MEC exemplifica na sua crónica um contexto para o recurso ao YouTube para ouvir música: quando o NME elogia uma música que nunca ouviu. Ora o que o MEC não refere era o que poderia fazer antes da emergência das plataformas digitais: ficava, como eu, a chupar no dedo até ao bendito dia em que uma loja de discos tivesse adquirido o disco ou à feliz coincidência de estar com a radiofonia ligada e sintonizada na estação de rádio que resolvesse passar, naquele preciso momento, o referido tema. Hoje em dia, não: pode ir imediatamente ao YouTube para, com grande probabilidade, ouvir o tema de imediato. Se a baixa resolução o incomodar, pode ir ao iTunes e descarregá-lo ou então à Amazon para encomendar o disco e depois ouvi-lo no seu Nakamichi/JBL. Qualquer uma destas práticas possibilitadas pela Web implicam sempre compassos de espera consideravelmente inferiores aos que tínhamos de suportar até meados da década passada.
Respondendo à questão promovida a título desta crónica, penso que, hoje em dia, a maioria dos utilizadores (e, definitivamente, o MEC) pode ouvir música de inúmeras maneiras e, pormenor importante, nenhuma delas é exclusiva. Para saciar a curiosidade imediata, temos o YouTube e outras plataformas como o SoundCloud. Se queremos andar com o tema no nosso leitor de MP3, podemos sacá-lo de borla ou adquiri-lo no iTunes ou no Bandcamp. Por fim, se desejamos ouvi-lo com a máxima qualidade e de acordo com a nossa sensibilidade audiófila, podemos sempre adquiri-lo (e caso esteja disponível) em formato digital ou analógico em inúmeras lojas virtuais. Ou seja: não é apenas para os melómanos que a emergente paisagem mediática digital é uma mais-valia. Sinceramente, e para mais tendo em conta o recente renascimento do vinil, não me parece que os audiófilos tenham motivos de queixa.
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