I Blame the Product Placement

Numa altura em que anda meio mundo à procura de formas alternativas de rendimento para a indústria e o empreendedorismo musicais, a Sky Ferreira acaba de mostrar com relativa pinta e assinalável estrondo que o formato videomusical pode ser um trunfo importante para proveitosos negócios na emergente paisagem mediática digital.

Em vez de estrear o seu novo vídeo no YouTube, a menina e a sua editora mandaram para lá apenas um teaser a anunciar que o mesmo estaria disponível no portal da Ssense, uma loja online de roupas e acessórios trendy). Vale bem a pena ir ao portal não apenas para ver o vídeo (que já anda a provocar alguma polémica para gáudio da Sky, da editora e da própria loja) e o respectivo making of (já disponível igualmente no sítio do costume), mas também para apreciar a forma (pouco subtil mas ainda assim artificiosa) como a loja consegui fazer o seu imprescindível product placement. Lembro que, no tempo da televisão musical, a MTV proibia este tipo de marketing no formato – a não ser, como é óbvio, que o canal estivesse previamente envolvido no negócio.

Está-se mesmo a ver que, daqui a algumas semanas, uma cópia do vídeo será carregada para o YouTube com a “benção” (ler: “ao abrigo de uma cláusula incluída no contrato”) da artista, da editora e da lojinha online.

Sequências videomusicais

É uma espécie de subgénero dentro da recente tendência das médias-metragens videomusicais, mas algo que se tem tornado suficientemente comum nos últimos meses para ser notório e, em muitos casos, até notável. Estou a falar de vídeos musicais que consistem na sequência de dois temas musicais (ou canções) da mesma banda (oriundos do mesmo álbum ou não). À falta de melhor nome, apodo os mesmos de sequências videomusicais e correspondem, no fundo, a um equivalente visual dos temas contíguos em álbuns pop cuja transição é efectuada sem qualquer pausa (eis dois exemplos clássicos). Utilizei o termo “equivalente” e não “duplo”, porque de facto a sequência dos temas foi produzida especificamente para o(s) vídeos musical(ais) e não reproduz algo que já existia no disco (o que, só por si, denota mais uma vez o vigor do formato).

Coincidência ou não, os três exemplos que deixo de seguida estão no meu Top 10 dos melhores vídeos musicais que vi na última década. Ah pois é.

Warpaint: «Disco/Very + Keep It Healthy» (real. Laban Pheidias)

Tema #7 + tema #2 do álbum Warpaint (2014)

Phoenix: «Trying To Be Cool + Drakkar Noir» (real. CANADA)

Tema #4 + tema #6 do álbum Bankrupt (2013)

The Shoes: «America + Time To Dance» (real. Daniel Wolfe)

Tema #1 do EP Stade de Reims (2009) + Tema #1 do EP Time To Dance (2012)

Vídeo

Gaga 2014

O novo vídeo da Lady Gaga (8 milhões de visualizações nas primeiras 24h) tem quase 12 minutos de duração. A boa notícia é que os últimos 4 são integralmente ocupados pela ficha técnica.

Dois vídeos tugas cheios de letra

Os vídeos musicais textuais (ou lyric music videos) começam a ser um caso sério em Portugal. Como é óbvio, este subgénero videomusical não funcionará para qualquer canção ou sequer projecto musical, mas os dois exemplos recentes que vos trago aqui são uma bela demonstração das potencialidades do formato.

O primeiro é uma bela tipografia cinética realizada por Joana Faria para o novo tema dos Diabo na Cruz e a coisa funciona tão bem que já me apanhei a cantarolar o tema no carro com as imagens do vídeo a invadirem-me a cachimónia. O tema presta-se muito a este tipo de tratamento visual devido aos trocadilhos, às rimas internas e, claro, ao ritmo com que o Jorge Cruz debita uma letra que agarra bem o Zeitgest actual do nosso país.

Coisa bem distinta é a proposta dos Clã e do realizador Victor Hugo Pontes em que o formato textual é um mero pretexto para um genuíno exercício coreográfico filmado num único take que faz, de imediato, recordar a perícia dos Ok Go (e o Hélder Gonçalves está mesmo super-parecido com o baixista da banda norte-americana). Está a ser giro acompanhar esta aventura dos Clã na promoção do seu novo disco: estão a arriscar e, pouco a pouco, a tentar sair da sua zona de conforto. Espero ansiosamente pelos novos capítulos.

Descubra as diferenças

Foi uma bela jogada de marketing por parte do 180 Creative Lab terem escolhido no passado mês de Setembro o Mac DeMarco para protagonizar um vídeo realizado por grande Hiro Murai (sobretudo porque o tema é inédito e apenas irá sair no próximo mês de Abril). O vídeo foi integralmente filmado numa tarde na bela cidade de Guimarães (ou arredores).

Se a façanha funcionou do ponto de vista da assinalável visibilidade que o canal 180 e o seu bendito Creative Lab ganharam esta semana, o resultado não apenas não corresponde às expectativas, como é verdadeiramente constrangedor, na medida em que copia integralmente a ideia original que é a razão de ser deste clássico absoluto. Sinceramente, esperava-se mais, muito mais, de um vídeo que envolve gente como o talento e gabarito de Hiro Murai e Mac DeMarco. Estou inconsolável.

A interactividade videomusical é capaz de ser um caso sério em 2014

tribeca

Um dos aspectos mais interessantes da cena videomusical do ano passado foi o surgimento dos primeiros vídeos musicais interactivos genuinamente dignos desse nome (estou a pensar sobretudo nos que foram produzidos para temas dos Arcade Fire, Bob Dylan e Pharell Williams). Pois bem, o Genero.TV (de que já falei aqui) acaba de lançar um projecto para a criação de três vídeos musicais interactivos para temas de gente do calibre de Damon Albarn, Aloe Blacc e Ellie Goulding. Tudo graças à plataforma interactiva Interlude que permite transformar segmentos audiovisuais numa espécie de jardim borgesiano. Ainda apenas estamos em Janeiro e a interactividade videomusical já está aí a dar cartas. Vai ser bem interessante acompanhar os resultados finais do projecto.

Sons (e imagens) em rede

screenshot_16O Rui Dinis d’ A Trompa tem agora um novo blogue chamado Sons em Rede (belo nome). Pelos posts até agora publicados, parece-me evidente que a nova plataforma irá congregar e desenvolver algo que o Rui já nos habituou a fazer de forma ímpar: dar dicas, conselhos e ideias para serem exploradas por músicos que desejam tirar o máximo proveito das potencialidades das plataformas digitais. Um dos seus últimos posts é uma bela resposta a um desafio que lhe lancei há mais de um ano. A seguir atentamente.

YouTube Music Awards – rescaldo

Os YouTube Music Awards (YMAs) foram uma valente confusão? Foram, de facto. E isso é mau? Não necessariamente.

As reacções à edição inaugural dos prémios (video)musicais do maior portal de partilha de vídeos da Web foram, e estou a ser simpático, mornas. E é fácil explicar porquê: o horizonte de expectativa deste tipo de eventos remetia para os que a MTV tem vindo a organizar desde a década de 80 (EMAs e VMAs). Se é verdade que essas cerimónias se têm tornado em feiras de vaidades em que o talento e o génio musical são cada vez mais secundários, ninguém pode acusá-los de não serem grandes produções meticulosamente preparadas onde nada é deixado ao acaso. Pois bem, os YMAs foram precisamente o oposto: tudo propositadamente improvisado e em permanente corda bamba, numa estratégia que procurou emular (por vezes, com sucesso) a força da criatividade vernacular que caracteriza o portal. Há aqui um distanciamento estético que chocou ainda muita gente que assistiu a um evento que, por vezes, não conseguiu descolar do formato televisivo.

No que toca ao universo videomusical, a grande novidade foram os “live music videos” realizados por Spike Jonze (o termo é ambíguo e refere-se, no fundo, à produção e transmissão em directo de um vídeo musical). Apesar de a empreitada não ser original (já tinha aqui falado de uma experiência similar em 2011), a verdade é que os resultados foram, por vezes, genuinamente impressionantes. Este, por exemplo, entra já para a minha lista de favoritos do ano:

Mas o melhor momento da cerimónia, foi, sem dúvida, uma curta (“live short film”) escrita por Lena Dunham (criadora da série Girls) que consegue transformar o caos e o ruído de uma discoteca num palimpsesto que desconstrói a noção de interactividade e participação dos novos media digitais.

Também se falou muito no facto de a cerimónia ter apenas atingido um pico de 220 mil internautas ao longo da sua emissão. É relativamente curto, de facto, mas a verdade é que, por um lado, o portal fez muito pouco para divulgar o evento (verifiquei, por exemplo, que muita gente da minha rede social de amigos não estava a par do evento) e, por outro, o live webstreaming não é, de facto, a especialidade do YouTube (nem me parece que venha alguma vez a sê-lo).

Penso que o saldo é amplamente positivo. Tentou-se fazer algo diferente – às vezes, conseguiu-se; outras, nem por isso. Parece-me óbvio que o formato terá de se descolar ainda mais do formato televisivo e da sombra tutelar da MTV e apostar de forma decidida no talento dos seus utilizadores na produção da próxima edição dos YMAs. De uma coisa estou convencido: a edição de 2014 vai superar a deste ano. A ver vamos.

Vemos cada vez mais música (Ípsilon)

temp44Na passada sexta-feira, o suplemento Ípsilon do jornal Público trazia um artigo da autoria de Pedro Rios intitulado Vemos Cada Mais Mais Música (o que é indesmentível, de facto).

O autor da peça entrevistou os realizadores Vincent Morrisset e Hiro Murai e ainda este vosso humilde investigador.

Como sou um mãos largas, e enquanto a malta do jornal não me puxar pelas orelhas, podem descarregar o artigo aqui.

Silva vária

3cenas

- Já saíram as listas dos nomeados para as cinco categorias (Artist of The Tear, Video of the Year, Response of The Year, Innovation of the Year, YouTube Breakthrough e YouTube Phenomenon) dos YouTube Music Awards. E que dizer? Flying Lotus não gostou nada da brincadeira e já comparou os prémios aos VMAs (Tyler, The Creator foi, como é óbvio, um pouco mais colorido na sua reacção). Faz sentido a crítica? Em parte, sim. Pessoalmente esperava mais, mas a verdade é que o processo de selecção é incomparavelmente mais transparente do que o dos prémios anuais da MTV e baseia-se, em cinco das seis categorias, em dados quantitativos de visualizações e partilhas (a única excepção é a categoria de Innovation of the Year cujos nomeados foram seleccionados por um painel de especialistas). Outro ponto positivo é o facto de haver uma categoria exclusivamente dedicada à produção vernacular (Response of the Year). De resto, a maior crítica que posso fazer é não haver nenhuma novidade na lista de nomeados, isto é, qualquer utilizador regular do portal já conhecerá a maioria dos nomeados devido ao sistema usado para a sua nomeação (popularidade). Ficam inúmeros nichos e géneros por explorar. Dicas: Lyric Music Video of the Year; Extended Music Video of the Year; Music Video Series of the Year; Literal Music Video of The Year; e Interactive Video Music of the Year (embora esta categoria obrigaria a Google a sair do universo do YouTube, mas tal apenas lhe ficaria bem). O método de votação também é inovador e é feito através da partilha dos vídeos nomeados no Google+, facebook e Twitter. Enfim, este é o primeiro ano dos prémios, há que de dar o devido desconto. Fiquem agora com o genial Reggie Watts:

- A convergência por vezes diverge e um belo sinal disto surge agora dos Estados Unidos com a Revolt TV que pretende fazer regressar o formato videomusical ao pequeno ecrã. O projecto resulta de uma ideia de P. Diddy em parceria com a Warner e parece-me, no mínimo, uma ideia arrojada. Na medida em que a Revolt TV é multi-plataformas, receio que se aplica aqui muito do que disse sobre a Vevo TV. Revolution will be televised my ass.

- Este projecto tem a sua piada. Para já, o grande mérito foi terem sacado o nome IMVDb e respectivo domínio .com (variação do popularíssimo IMDb). A coisa está bem feita, bem arrumada e tem potencial. Falta-lhe, para já, massa crítica. A ver vamos.