Nota

Uma pequena adenda ao meu post anterior.
Recebi uma amável resposta do editor da QZ Ideas, Lauren Brown, ao meu mail a inquirir sobre o facto do valor referido por Kevin Ashton neste artigo de que 2 mil milhões de vídeos musicais serem visualizados por dia no YouTube não ser devidamente suportado pela hiperligação incluída no texto:

We were missing this link, which says that in 2011, nearly 40% of the views were music, so it’s an extrapolation.

Fica a lacuna e a devida explicação. De notar, no entanto, que a extrapolação é anacrónica (ratio de 2011 para dados de 2012).

Harlem Shake (adenda ao recap)

Harlem Shake (recap)

A leitura deste texto (dica do Hilário Amorim) deixou-me um sabor agridoce na boca.

Comecemos pelas coisas boas (ou doces).

Em primeiro lugar, estamos perante a mais minuciosa recapitulação que li até hoje sobre o fenómeno de popularidade videomusical do ano (o Harlem Shake) que, mais do que um epifenómeno, esteve na base de uma alteração significativa no modus operandi da indústria musical.

Em segundo lugar, o autor tem toda a razão quando sublinha não apenas a primazia do formato videomusical na indústria musical, como quando questiona a fiabilidade da contabilização das visualizações levada cabo pelo YouTube:

Google’s YouTube, not Apple’s iTunes, is now the dominant force in music. [...] Google has amassed unprecedented power as a medium. It is massive, global and central. In addition, its claims about viewership are not audited. Television, radio and newspaper audiences are measured by independent entities like Nielsen and the Alliance for Audited Media. Advertisers can be reasonably certain how many people are seeing their messages. Google’s and YouTube’s audience claims are not measured independently.

Agora, as coisas menos boas (ou amargas).

Em primeiro lugar, o bater no ceguinho da viralidade (remeto, novamente, para este meu texto). A passagem que deixo de seguida, em particular, é confrangedora, porque reduz e simplifica toda a complexidade das relações sociais e dos processos comunicativos que unem os utilizadores da rede através de um processo de desumanização (“human information routers”) que pode ser giro para cuspir fórmulas (aquele trio de “become”s na mesma frase têm o mesmo panache dos truques de magia), mas que está a leste de qualquer abordagem séria ou científica dos referidos fenómenos:

The brain-to-brain propagation of Dawkins’ memes can now happen worldwide within seconds. We have a new real-time, global culture that is not only technological but also social. Experiences like imitating the YouTube videos for “Single Ladies,” “Somebody That I Used To Know” and “Call Me Maybe” create instant traditions, or “meta-memes,” that prime us to become ultra-efficient human information routers. Memes become themes become meta-memes become norms [aqui estão eles!]. A few years ago, few people would have posted a video of themselves singing or dancing on YouTube. Today, for many, doing so is not only second nature—it’s urgent. In our real-time culture, meme speed matters. Primacy is more important than privacy.

Em segundo lugar, o artigo refere um importante dado quantitativo (2 mil milhões de vídeos musicais são visualizados por dia no YouTube) através de uma hiperligação (esta) que remete para um texto que não refere esse número. É uma prática bastante corrente, reconheço, mas nem por isso deixa de ser altamente reprovável. De resto, já mandei um mail para o portal armado em nojentinho escandalizado.

Por fim, o título: You didn’t make the Harlem Shake go viral — corporations did. Mesmo passando por cima da cena do “viral” e imaginando que o termo é apenas uma forma, bastante em voga, de referir a popularidade de um vídeo independentemente dos mecanismos que estiveram na origem da sua popularidade, não há absolutamente nada no texto que sustente a afirmação. É óbvio que diversas marcas procuram colar-se, com maior ou menor sucesso, ao fenómeno, mas basta ler a cronologia (incluída no próprio texto) da disseminação do Harlem Shake pelas plataformas digitais para nos apercebermos que a sua popularidade deve-se sobretudo aos utilizadores das redes sociais (YouTube, facebook, Twitter, etc.).

Em resumo: o texto vale pelas premissas, mas esqueçam lá as conclusões. Em compensação, fiquem com esta divertida infografia.

Genero

1238507_300Há algumas semanas tomei conhecimento (através de uma dica do João Afonso do Musikki) de uma plataforma colaborativa online que, desde 2009, tem servido de elo de ligação entre, por um lado, a indústria discográfica e projectos musicais considerados de escala global e, por outro, o número crescente de profissionais ou meros aspirantes a cineastas que pululam na Web: o Genero.

O modus operandi do portal é de uma simplicidade e eficácia avassaladora: após uma negociação com a editora ou projecto que pretende adjudicar um vídeo musical, o Genero lança o respectivo projecto de produção com uma sinopse, orçamento e prazo de entrega previamente definidos. Depois, os potenciais realizadores descarregam a trilha sonora no portal, produzem o vídeo, cumprem determinados quesitos burocráticos e legais e submetem o seu vídeo à consideração do júri (formado quase sempre pelo(s) artista(s) e um representante da editora e do portal). O facto de todos os vídeos submetidos poderem ser visualizados, votados e comentados pelos membros da comunidade, torna o portal num local igualmente privilegiado e estimulante para a fruição videomusical. Mas os grandes beneficiados são, sem dúvida, as editoras e os projectos musicais que, em troca de alguns milhares de euros conseguem ter acesso à criatividade de uma comunidade em franco crescimento. Um exemplo: este projecto dos Muse (actualmente em fase de avaliação) conseguiu obter 129 propostas. Não é por acaso que o portal apenas faz negócio com editoras ou “global artists”: são, no fundo, estas entidades que lhe garantem os maiores overheads.

Como é óbvio, o spin gerado pelo portal é “ligeiramente” distinto e pretende sobretudo posicionar a plataforma como uma oportunidade para jovens realizadores aumentarem o seu portefólio, expandir a sua rede de contactos e, porque não, ganhar algumas massas. Tudo isto é inegável, claro, mas, pelo menos para já, o Genero ainda está distante de garantir uma relação simbiótica entre a indústria musical e a criatividade, mais ou menos vernacular, que fervilha nas plataformas digitais.

Nota

Ontem, com um aviso de apenas 3 horas, os My Bloody Valentine disponibilizaram, após mais de duas décadas de espera, uma hiperligação na sua página do facebook que redireccionava para uma página do portal da banda onde os utilizadores podiam comprar e descarregar o novo álbum intitulado mbv. Quase simultaneamente, a banda carregava para a sua página do YouTube nove diaporamas videomusicais com a capa do novo disco e cada uma das suas nove faixas. Ou seja, mais uma vez, o formato videomusical é accionado quase de imediato para suportar o lançamento de um novo disco, o que demonstra pela enésima vez que a fruição musical está a convergir para o formato. Anúncio no facebook + descarregamento pago num portal + disponibilização das faixas no YouTube. Está aqui a fórmula que, estou seguro, será cada vez mais a utilizada para lançar discos nas plataformas digitais.

mbv

Relatório #9

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A escrita da tese vai entrar nas próximas semanas em hibernação. Pretendo voltar a pegar nela lá para março e reler tudo de fio a pavio, fazer eventuais alterações ou actualizações, e depois mergulhar na escrita do derradeiro capítulo. Vai ser uma tarefa intensa e demorada e preciso mesmo de me afastar do documento para depois olhar para as suas mais de 300 páginas com um olhar fresco e o meu sentido crítico apurado. Ando igualmente com a ideia de converter a tese num formato livro (físico ou ebook, não sei bem) em Inglês. Traduzi um subcapítulo recentemente e fiquei agradavelmente surpreso com o resultado. A ver vamos.

Entretanto, há uma série de artigos meus em órbita. Alguns já foram publicados, outros estão no prelo, outros foram submetidos e, por fim, outros ainda estão a ser redigidos (tarefa a que me irei dedicar nas próximas semanas). Vou aproveitar este post para fazer um pequeno ponto de situação desta importante vertente do meu trabalho de investigação.

> Publicados

COSTA, João Pedro da (2012), É Viral, Ninguém Leva A Mal in Viral Agenda (13/12).

COSTA, João Pedro da (2010), YouTube vs Vimeo: uma análise comparativa de acessibilidade, usabilidade e desejabilidade para os utilizadores de fluxos videomusicais in Prisma, revista electrónica do Centro de Estudos das Tecnologias e Ciências da Comunicação (cetac.media), n.º 11.

COSTA, João Pedro da (2009), Fluxos videomusicais: uma proposta epistemológica para o estudo dos vídeos musicais na Web 2.0 in Prisma, revista electrónica do Centro de Estudos das Tecnologias e Ciências da Comunicação (cetac.media), n.º 9.

COSTA, João Pedro da (2008), How to make a nice music video text with no money. Sobre a videografia de Rui de Brito in Vimus 2008. Catálogo do II Festival Internacional de Vídeo Musical da Póvoa de Varzim, Póvoa de Varzim: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, pp. 51-56.

COSTA, João Pedro da (2007), Uma aproximação à obra de José Pinheiro in Vimus 2007. Catálogo do I Festival Internacional de Vídeo Musical da Póvoa de Varzim, Póvoa de Varzim: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, pp. 55-57.

> No prelo

COSTA, João Pedro da; Rui RAPOSO (2013?), «A difusão na Web Social: o caso dos vídeos musicais» in PASSARELLi, Brasilina; Armando MALHEIRO (org.), Informação e Comunicação em Plataformas Digitais: Paradigmas e Aplicações, São Paulo: SENAC.

COSTA, João Pedro da (2013?), «The Digital Meta-Dissemination of Fear in Music Videos. A transdisciplinary textual analysis of two case studies: Esben and the Witch’s Marching Song and M.I.A.’s Born Free» in ARAÚJO, Susana; Marta Pacheco PINTO, Sónia RIBEIRO, and Kristian Van HAESENDONCK (org.), Fear and Fantasy in a Global World, Centre for Comparative Studies of the Faculty of Letters of the University of Lisbon.

> Submetido

COSTA, João Pedro da (2013?), «A difusão videomusical na Web Social: o caso de Average Homeboy de Denny Blaze», Comunicação e Sociedade, 23, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

> Em redacção (proposta submetida e aprovada)

COSTA, João Pedro da (2013?), «Redactional practices in online music videos», The International Journal of the Image, Chicago.

> Em redacção (proposta submetida e a aguardar aprovação)

COSTA, João Pedro da (2013?), «A difusão vertical na Web Social. O caso do vídeo musical Heaven Can Wait no Antville» in RIBEIRO, Fernanda (org.), Informação e/ou Conhecimento: as duas faces de Jano, ISKO.

O passado mês de janeiro superou com 1561 acessos o anterior máximo do blogue registado em fevereiro de 2012 (1280). Que um tema tão bissexto como a videomusicalidade digital, para mais abordado em Português e sob uma perspectiva académica, consiga congregar tantos leitores é para mim uma surpresa e um mistério. E, claro está, um enorme motivo de satisfação.

Musikki

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Já ando para falar do Musikki há imenso tempo e agora que chegou finalmente momento não posso deixar de assumir uma valente dose de culpa por o fazer tão tardiamente. O Musikki é um motor social de pesquisa musical, que congrega informação oriunda de diversas plataformas da Web (Wikipedia, MySpace, etc.) e cuja app para o facebook é, em particular, um pequeno milagre sócio-tecnológico que permite uma fruição (video)musical participativa através dos conteúdos partilhados pelos amigos dos utilizadores dessa rede social. O projecto é nacional e foi desenvolvido por três investigadores (ou ex-alunos) da Universidade de Aveiro: João Afonso, Juliana Teixeira e o Pedro Almeida, o que prova, só por si, a excelência da investigação desenvolvida em Portugal.

O vídeo de apresentação do projecto é um mimo de criatividade e concisão. E demonstra, novamente, que a fruição musical está definitivamente a convergir para o formato videomusical, independentemente de, nessa fruição, a componente visual ser ou não visualizada pelos utilizadores. Apenas levanto o sobrolho com a segunda frase da locução: “Have you noticed how music discovery hasn’t changed a bit?”. Na verdade, mudou e de que maneira. Hoje em dia, por exemplo, tanto a imprensa como a televisão musical perderam a influência que gozavam nas décadas de 60, 70, 80 e 90. Se é verdade que as recomendações interpessoais já existiam no passado, a convergência da fruição musical para as plataformas digitais veio incrementar de forma exponencial a sua importância e o seu débito. Mais: se os suportes de gravação áudio como a cassete eram as principais estrelas da partilha de experiências musicais, hoje em dia o formato videomusical digital é, sem sombra de dúvida, o mais utilizado (de resto, este aspecto é bem visível no vídeo, mormente na genial recriação deste clipe dos White Stripes e de diversos diaporamas videomusicais). Aliás, é precisamente no seio destas mudanças que o Musikki vai beber a informação que disponibiliza aos seus utilizadores e a sua utilidade reside no facto de os mesmos sentirem uma genuína necessidade de filtrar as recomendações musicais das demais. Se antigamente o formato videomusical não passava de um veículo promocional para um bem económico (discos), hoje em dia a sua mera componente sonora é fruída da mesma forma que antigamente se ouvia uma cassete ou um CD. Terem percebido isso é, de resto, um dos maiores méritos e elogios que posso fazer ao Musikki.

Pela minha experiência de utilização do portal, o Musikki funciona mesmo: é um genuíno cão de caça que fareja com assinalável precisão os recantos da Web (mais precisamente, do YouTube) para encontrar a matéria videomusical que oferece aos seus utilizadores. Pessoalmente, sinto que seria muito útil se o algoritmo de pesquisa operasse uma separação entre os vídeos musicais oficiais de uma determinada banda e os conteúdos vernaculares (ou CGUs) criados pelos fãs. Seria, de resto, uma forma de, por exemplo, termos acesso ao grau de empenho das diversas modalidades de consumo videomusical (aqui sinónimo de “musical”) dos fãs de um determinado projecto musical. No fundo, o Musikki possibilita, de forma concentrada, a partir de filtros sociais definidos pelos utilizadores, o acesso a um vórtice de dados musicais. Um dos desafios futuros do projecto será, sem dúvida, criar e fornecer aos seus utilizadores nova informação a partir destes mesmos dados.

Conhecimento vs. fruição

Foi há cerca de dez anos que comecei a familiarizar-me com um instrumento musical. Por insistência de um grande amigo meu, comprei uma guitarra acústica (escolhida por ele) que acabaria por oferecer a outro amigo, pois entretanto comprei outra (não necessariamente melhor, mas bem mais cara). Sou melómano desde que me conheço e a música tem um papel fundamental na minha vida: oiço e compro música a um ritmo incessante, leio sobre ela e tenho vindo a desviar o meu percurso académico da literatura (outra paixão) para o estudo da sua dimensão sócio-tecnológica. Foi, por isso, tarde a más horas (apenas aos 27 anos) que comecei a dedicar-me à aprendizagem de um instrumento musical. Não tenho lá grande jeito, é verdade, mas não trocaria por nada o prazer que retiro das horas que dedico à guitarra. No início, foi terrível. A aprendizagem de um instrumento musical tem uma dimensão física que porventura escapa a quem nunca tenha tido o privilégio de se meter nessa aventura: aprender a tocar guitarra, por exemplo, dói. E não é pouco. Os primeiros meses são mesmo desanimadores: os dedos ficam feridos, os pulsos latejam e as costas arqueiam. E parece que nunca saímos do sítio. Depois, pouco a pouco, descobrimos que há coisas que não conseguíamos tocar antes que agora conseguimos tocar sem esforço. Adquire-se uma perícia rítmica, uma agilidade nos dedos, afina-se o ouvido e, sobretudo, lentamente, começa-se a perceber o fenómeno musical como um sistema que tanto se rege por regras como por fugas que teimam em fintar-nos, sobretudo quando somos autodidactas (é o meu caso). É óbvio que não é preciso compreender a música para fruí-la. Mas cada esforço que fazemos para a compreender, por mais ínfimo que seja, é um contributo tremendo para aumentarmos, sem limite à vista, a intensidade e a dimensão desse mesmo prazer. Estou a falar da música – mas poderia estar a falar de outra coisa qualquer.

Nota

Mais alterações silenciosas e pouco visíveis no blogue. Acrescentei uma página relativa a alguns elementos da amostra teórica da investigação (que está listada aqui).

Como já referi aqui inúmeras vezes, um dos objectivos deste blogue é tornar mais cómoda a leitura de um documento impresso em papel (tese) com constantes remissões para vídeos musicais alojados na Web. Ora esta nova página destina-se sobretudo aos leitores do referido documento que encontrarão lá listados e hiperligados todos os vídeos referidos ao longo do capítulo IV intitulado Novas Tendências da Videomusicalidade: a sua visualização fica assim doravante à distância de um mero clique. Esta página vem igualmente complementar a anterior dedicada aos casos de estudo (capítulo V).

E com isto penso ter concluído a inserção de toda a informação e de todas as ferramentas de visualização que queria munir a página do blogue dedicada ao design de investigação. Foi um trabalho chato, longo e, para já, ingrato. Espero que quem venha ler a tese no futuro (arguentes e não só) saiba tirar proveito de todas as suas funcionalidades.

Amostra teórica

Sobre a difusão videomusical na Web Social (parte I)

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Vou iniciar aqui uma série de posts sobre um dos temas centrais do meu projecto de investigação: a difusão de conteúdos operada pelos utilizadores na Web Social. São pequenos memorandos unidos através pela sequência argumentativa que me conduziu à elaboração do meu modelo conceptual. Cada post será publicado com, pelo menos, uma semana de intervalo de forma a não monopolizar o blogue com um tema que, está-se mesmo a ver, não despertará o interesse da maioria dos seus leitores.

O facto de os utilizadores das plataformas digitais serem potencialmente produtores e emissores de conteúdos mediáticos está na raiz de uma das características mais importantes da Web Social: o facto de a difusão dos conteúdos operada pelos utilizadores estar intimamente relacionada com a forma como os mesmos os recepcionam.

No caso do formato videomusical, os utilizadores tendem sempre a deixar um rasto da sua praxis nos portais que alojam os vídeos musicais, podendo esta marca ir da mera contabilização do acesso à criação do próprio objecto, passando pela publicação de comentários ou exercícios de colagem, pastiche, paródia ou curadoria digital.

Imaginemos a seguinte situação hipotética:

Um utilizador A acede a um vídeo musical B num portal de partilha de vídeos C (plataforma da Web Social). Após este acesso inicial, A retira-se do terminal onde está aceder à Web durante a totalidade do streaming de B. Fará ainda sentido, neste caso, afirmar que A consumiu B? Não, isto apesar de a praxis de A ter ficada registada em C através da contabilização do número de visualizações de B. Isto é: apesar de A não ter consumido B, A contribuiu para a difusão de B, na medida em que o número de visualizações de B registado em C é um dos fatores que influenciam a difusão de um vídeo musical (ou de qualquer outro formato mediático) na Web Social.

Esta situação hipotética torna desde já evidente que o termo “consumo” não recobre a totalidade do espectro das práticas de recepção de um vídeo musical por parte de um utilizador das plataformas digitais. É por isso que senti a necessidade de introduzir e definir no meu projecto de investigação um novo termo que inclua não apenas o consumo como práticas de recepção muito comuns como, por exemplo, a descrita no exemplo anterior.

O conceito sistémico de fruição participativa pretende preencher este vazio.

O termo “fruição” (do latim tardio fruitione) é utilizado correntemente na língua portuguesa para designar a ação ou efeito de fruir, isto é, o prazer, a posse, o usufruto. Como conceito sistémico, “fruição” deverá ser precisamente entendida como a forma mais lata de contacto ou recepção de um vídeo musical por parte de um utilizador, cobrindo não apenas a difusão com consumo como a difusão sem consumo (acesso). É, de resto, devido ao facto de o mero acesso a um conteúdo mediático, independentemente de ser ou não lido, ouvido ou visualizado (ou seja, consumido), contribuir para a sua difusão, que é possível na Web Social engendrar mecanismos de difusão automática.

O adjetivo “participativo”, por sua vez, para além de enquadrar a totalidade das práticas de recepção (e difusão) no paradigma da convergência, focaliza a dinâmica destes processos nos utilizadores.

O facto de autores oriundos do campo de estudo da videomusicalidade como Jem Kelly (1.2 KELLY 2007), Paolo Peverini (1.1 PEVERINI 2010) ou Roger Beebe e Jason Middleton (1.1 BEEBE et al. (eds.) 2007) recorrerem ao termo “interatividade” para descrever a dinâmica que caracteriza as práticas dos utilizadores na Web Social deriva de uma das imprecisões terminológicas mais problemáticas da mediação tecnológica: a que tende a estabelecer uma relação de sinonímia entre interatividade e participação, enquanto que, no paradigma da convergência, os dois termos são utilizados para descrever ocorrências distintas.