Vídeos musicais em Vila do Conde

Depois de uma pausa de um ano, a competição de vídeos musicais regressa ao Curtas de Vila do Conde, agora num novo formato, dedicado sobretudo às produções nacionais. Os 16 vídeos em competição serão exibidos no próximo dia 10 de Julho, quinta-feira, pelas 00h na sala 1 do Teatro Municipal de Vila do Conde. Eu sou rapaz para dar lá um salto.

Smells like MTV

Não abunda pela rede muita memorabilia sobre o formato videomusical pelo que este casting call para o lendário Smells Like Teen Spirit dos Nirvana tem um valor histórico assinalável para contextualizar a criação do vídeo que ajudou a catapultar o rock underground norte-americano para as tabelas de venda ou, se preferirem, o teledisco que marcou o princípio do fim da ética punk DIY do rock independente do novo continente, cujas principais bandas (Nirvana, Sonic Youth, The Replacements, etc.) não resistiriam ao apelo das denominadas majors.

casting-call

O que é interessante neste anúncio de recrutamento de figurantes é o facto de haver uma paradoxal coincidência entre o ideal punk que movia os Nirvana e os ditames da MTV: tanto o escalão etário dos participantes como o pedido para que o guarda-roupa exclua a referência visível a qualquer marca registada ou logotipo estavam em sintonia não apenas como o ideário anti-establishment da banda como com a política comercial do canal (a MTV sempre cobrou o acesso de terceiros ao seu precioso público-alvo). Como é óbvio, os Nirvana não tinham qualquer hipótese de conseguir subverter a dimensão comercial da televisão musical com um simples vídeo – veja-se, por exemplo, como o símbolo anárquico usado pelas cheerleaders em vez de ter despertado a curiosidade dos adolescentes norte-americanos para a causa anárquica, rapidamente se transformou num mero adereço tribal da geração grunge.

Novo vídeo dos Ok Go (at last!)

O projecto musical paradigmático da convergência do formato videomusical para a rede está de volta: relembro que, para este quarteto, tudo começou em 2005 com um vídeo musical caseiro que foi pioneiro na difusão interpessoal e em grande escala do formato à margem da televisão musical, recorrendo para isso a uma interface das plataformas digitais (o e-mail). Poucos meses após o lançamento oficial do YouTube, o portal já tinha encontrado as suas primeiras estrelas, cuja popularidade era legitimada pela difusão operada pelos próprios membros da sua comunidade: os Ok Go.

Na minha tese, a videografia da banda ocupa um lugar de destaque no capítulo dedicado aos casos de estudos, pelo que desde 2012 que andava curioso para saber se o próximo vídeo da banda respeitaria a fórmula hipertextual que identifiquei na videografia deles.

E não é que respeita mesmo?

Figure 01. Architextual formula of Ok Go music videography

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O novo vídeo dos Ok Go é, mais uma vez, coreográfico, os protagonistas são os elementos da banda, tem lip-sync, não recorre a efeitos especiais e é filmado num longo plano-sequência (num único take). O elemento conceptual que a banda foi buscar para diferenciar este vídeo da série são as ilusões ópticas anamórficas, que, não por acaso, tem sido uma categoria super-popular de vídeos no YouTube: este, por exemplo, já soma mais de 20 milhões de visualizações e uma simples pesquisa no portal devolve cerca de 200 mil resultados. Desta forma, posso completar o meu quadro original com o novo vídeo da banda (2014):

screenshot_03

Na realidade, o novo vídeo dos Ok Go parece uma (fascinante) variação de um dos vídeos anteriores da banda, repetindo inclusivamente o seu final – reparem como se aplica na perfeição a este vídeo as considerações que teço na tese sobre o desenlace da segunda versão de This Too Shall Pass:

Não é por acaso que numa das suas sequências finais é bem visível e audível o contentamento manifestado por toda a equipa responsável pela concepção do vídeo (3’35”-3’39). Bem pelo contrário, estas imagens cumprem uma dupla função: não se trata apenas de se mostrar que o projecto foi levado a bom porto […], mas que a alegria e o prazer dos seus criadores é em tudo identificável com a que aguarda os seus potenciais fruidores (e difusores).

Bate tudo certinho, não é? Em vésperas da defesa da minha tese, escusado será dizer que a saída deste novo vídeo dos Ok Go veio mesmo a calhar. Podem aceder a uma pequena reportagem sobre o vídeo aqui.

ADENDA

Já o ano passado, os Ok GO escolheram como vencedor de um passatempo, o vídeo musical de um fã que não apenas respeitava intuitivamente a quase totalidade da fórmula hipertextual que identifiquei na videografia da banda, como promovia a elemento conceptual diferenciador a desconstrução da sua única fuga, isto é, a utilização do mais popular efeito especial do formato videomusical: o bendito chroma-key.

Pintarolas.

Assunto morto

Ia escrever sobre o novo vídeo (muito fraquinho) dos Mão Morta, quando me deparei com este texto do Alexandre Homem Cristo, que praticamente diz tudo o que tinha para dizer sobre o assunto e que pode ser resumido na seguinte frase: que um vídeo tão inofensivo consiga gerar tanta celeuma é que é, de facto, preocupante.

Publicidade retroactiva

Ainda a propósito disto e disto, isto é, a propósito das diferentes formas que estão actualmente a ser exploradas para fazer rentabilizar os vídeos musicais, chega-me uma notícia que, confesso, me deixou perplexo: a implementação de publicidade retroactiva no formato videomusical.

A engenhoca é fruto de uma parceria entre o vevo (a versão videomusical do YouTube que resulta de um acordo entre a Google Inc, a Universal, a Sony e a Abu Dhabi Media) e a Mirriad, nome da empresa que desenvolveu a tecnologia que apoda de “native invideo advertising”. A primeira vítima é este vídeo de Aloe Blacc com cerca de 8 milhões de visualizações (como o vevo não está disponível em Portugal, estamos – para já, meus caros, para já – livres desta inovação tecnológica):

Antes e depois do vídeo musical de Aloe Blacc

Antes e depois do vídeo musical de Aloe Blacc

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Assustador, não é? É um pouco como utilizar o digital para re-escrever a história das imagens em movimento e fazer desancorar os utilizadores de todo e qualquer contexto que não seja o agora-aqui-assim. Apesar disto poder ser paranóia minha (e é, mas não só), acho tudo isto, de facto, assustador. Está-se mesmo a ver o que virá a seguir: publicidade retroactiva personalizada que terá em conta os nossos perfis digitais para colocar em tempo real nos mais variados conteúdos mediáticos que consumimos mensagens das marcas em relação às quais somos mais sensíveis (ah dizes que gostas de correr no facebook? então toma lá anúncios da Nike e da Asics em todos os vídeos musicais que vais ver nos próximos dias!).

Creepy shit.