NSFW

nonsfws_03O AV Club publicou um texto interessante com uma selecção de vídeos musicais da década de 80 que a MTV teledifundiu na época com restrições (isto é, em horário pós-21h ou pós-24h) supostamente devido ao seu conteúdo sexual, violento ou racista. Ver estes vídeos hoje em dia é uma experiência interessante porque demonstra o anacronismo da tolerância da televisão musical em relação ao que considerava ser o politicamente incorrecto. Isto é, como é óbvio, uma forma de olhar para a coisa. Outra, porventura mais interessante, é perceber que, na época, projectos musicais como os Duran Duran, Frankie Goes To Hollywood, Bronski Beat ou a Olivia Newton-John gozavam de uma popularidade que, inevitavelmente, fazia com que as respectivas editoras estivessem empenhadas em “convencer” (estou, como é óbvio, a falar das famigeradas payolas) a MTV a incluir os seus vídeos na sua grelha, fossem eles ou não passíveis de ferir a sensibilidade da sua audiência. Fossem estes vídeos de projectos musicais menos populares e é mais do que provável que nenhum deles teria tido a mais ínfima hipótese de serem teledifundidos. Ainda assim, a MTV não estava disposta a tudo (e por “tudo” refiro-me à possibilidade de serem processados pelos seus espectadores ou pelos pais dos seus espectadores) e não faltam casos de bandas de primeiro plano que viram os seus produtos videomusicais censurados pelo canal.

Hoje em dia, com a ascensão das plataformas digitais nas práticas quotidianas de um número cada vez maior de utilizadores, as coisas mudaram radicalmente: já não há gatekeepers e as tentativas de censura estão condenadas ao fracasso (tive a oportunidade de falar sobre esse tema repetidas vezes neste blogue). No entanto, apesar de toda esta nova liberdade de expressão, os utilizadores das plataformas digitais rapidamente encontraram uma forma não de censurar mas de categorizar conteúdos mediáticos (sejam eles videomusicais ou não) cuja visualização, devido ao seu conteúdo sexual ou profano, é susceptível de criar constrangimentos quando fruídos em instituições de ensino ou no local de trabalho: estou a falar, como é óbvio, da sigla NSFW (Not Safe For Work). De resto, os próprios projectos musicais começaram nos últimos anos a incluir a sigla no título dos vídeos musicais que carregam para os portais de partilha de vídeos (uma pesquisa que acabo de fazer da expressão “music video NSFW” no YouTube devolve nada mais nada menos do que 509 mil resultados). Eis um exemplo recente e eloquente:

A utilização generalizada e sistemática da sigla NSFW é, definitivamente, uma pedra no sapato de quem não acredita na possibilidade de auto-regulação da Web.

Animais

Ele há coincidências que põe em causa o próprio acaso. A semana passada, publiquei um post sobre o Genero e referi, como exemplo, o projecto/competição relativo ao tema «Animals» dos Muse. Pois bem, acaba-se de saber agora mesmo que o vídeo vencedor é uma produção tuga da autoria da dupla Inês Freitas / Miguel Mendes (oneness team).

Isto não passaria de uma efemeridade, não fosse o facto de o vídeo vencedor ser fabuloso não apenas do ponto de vista estético como na sua própria narrativa. Vale bem mil discursos sobre a crise que actualmente avassala Portugal e a maioria dos países da zona Euro. Parabéns aos vencedores.

Vampire Weekend: «Step»

Que ainda haja por aí projectos musicais que continuam a preferir o SoundCloud ao YouTube para partilhar uma nova canção na emergente paisagem digital não deixa de ser para mim um motivo infindo de estupefacção. Talvez esteja algo a escapar-me, mas tendo em conta a força gravítica deste genuíno vórtice audiovisual que é o portal da Google e a imensa popularidade dos vídeos musicais textuais, a escolha da plataforma parece-me ser um no-brainer. Afinal de contas, este subgénero videomusical é de fácil produção, baixo-custo e ainda relativamente recente para poder ser explorado de uma forma inovadora. Veja-se, por exemplo, o caso do vídeo musical textual que deixo de seguida e foi utilizado para mostrar ao mundo o novo single dos Vampire Weekend: simples, sóbrio, efectivo: numa palavra, classy. E, como é óbvio, faz de imediato lembrar a abertura deste clássico absoluto da sétima arte. Não há SoundCloud capaz de ofuscar este pequeno prodígio videomusical.

Três tipos de fãs (video)musicais

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Acrescentei no sítio do costume a apresentação da Nielsen na edição deste ano do SXSW intitulada The Buyer And The Beats: The Music Fan[s] And How To Reach Them.

O documento apresenta os resultados de um estudo conduzido pela Nielsen junto de 4000 consumidores musicais e apresenta resultados que confirmam a actual conjuntura da emergente paisagem mediática digital: os nativos digitais descobrem mais música através do YouTube do que através de qualquer outro portal ou serviço (nem sequer o Spotify com um incremento de 253% de utilizadores em 2012 lhe faz sombra); os fãs utilizam as redes sociais para obterem um relação mais pessoal com os artistas; e 75% do consumo musical pago é feito pelos fãs.

Até aqui nada de novo: o vídeo musical continua a ser o formato mediático mais procurado pelos utilizadores para a sua fruição musical, na medida em que é este que lhe possibilita uma fruição multimediática rápida e grátis. A relativa novidade é o facto de haver dados quantitativos que apontam para uma evidência: para um determinado tipo de utilizadores (fãs), o formato videomusical não implica o fim do consumo musical pago. Mais: existe um mercado em franco crescimento neste segmento específico, visível na proliferação e crescimento da audiência de plataformas de financiamento feito por fãs para projectos artísticos em que se incluem, como é óbvio, os de cariz musical: Kickstarter, PledgeMusic, Pozible, Fansnextdoor, SellaBand, ArtistShare, Indiegogo e RocketHub, entre outros.

No entanto, o que me pareceu sinceramente mais interessante é a tentativa da Nielsen em tipificar ou segmentar os fãs musicais em 3 grupos: aficionados, digitais e big box. Elaborei uma pequena tabela que permitirá, porventura, perceber melhor os critérios que motivaram a proposta de classificação da Nielsen:

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A divisão é inteligível e, até certo ponto, faz sentido. Mais: este parece-me ser um belo e útil ponto de partida para a indústria musical re-equacionar o seu modelo de negócio na emergente paisagem digital. Termino com a seguinte observação: não é preciso ser nenhum especialista para rapidamente perceber que o consumo videomusical é uma característica comum ou transversal aos três tipos de fãs definidos pela Nielsen. Será desta que a indústria musical acorda para esta evidência e corrige o rumo que tem vindo a seguir nos últimos anos? A ver vamos.

Radar Music Videos

radarmv Ainda a propósito do Genero.TV, recebi um mail do Hilário Amorim a referenciar-me o Radar Music Videos, um portal cujo funcionamento é relativamente similar ao do primeiro, mas com uma diferença significativa: o que os realizadores propõem ou submetem às editoras / projectos musicais não é um produto acabado mas uma sinopse (treatment) do vídeo musical que se propõem levar a cabo caso a respectiva proposta seja aprovada. Há outra (aparente) diferença expressa no slogan do portal (the global network of professional music video directors), mas é apenas fogo de vista: toda a gente sabe que, hoje em dia, com a furiosa penetração das plataformas digitais no quotidiano de um número crescente de utilizadores, as fronteiras que outrora separavam os profissionais dos amadores, as esferas da vida privada da vida pública ou o mero trabalho do lazer estão mais esbatidas do que nunca. Deixo-vos um vídeo pintarolas que explica o funcionamento da coisa.

Vídeos musicais interactivos: novidades

Apesar de todas as semanas virem parar à Web novos exemplos, confesso que os vídeos musicais interactivos são uma tendência que apenas raramente me entusiasma. O subgénero parece gravitar constantemente em torno das mesmas ideias gastas e só raramente é que se surgem vídeos que, de facto, me parecem acrescentar algo de novo ou relevante ao formato. No entanto, surgiram nas últimas semanas dois que me pareceram, por razões distintas, particularmente dignos de nota.

- O primeiro é relativo ao tema Not The Same dos Tanlines da OKFocus, que permite a manipulação do vídeo (som e imagem, coisa rara) como se o mesmo fosse um documento do Photoshop;

- O segundo é mais uma experiência interactiva de Chris Milk que desta vez brinda uma performance da versão de Beck a Sound & Vision (um clássico incontornável de David Bowie) com a possibilidade de uma manipulação a 360º. O carregamento do vídeo é demorado, mas vale bem a pena aguentar uns minutos para depois mergulhar nesta genuína experiência interactiva.

Genero

1238507_300Há algumas semanas tomei conhecimento (através de uma dica do João Afonso do Musikki) de uma plataforma colaborativa online que, desde 2009, tem servido de elo de ligação entre, por um lado, a indústria discográfica e projectos musicais considerados de escala global e, por outro, o número crescente de profissionais ou meros aspirantes a cineastas que pululam na Web: o Genero.

O modus operandi do portal é de uma simplicidade e eficácia avassaladora: após uma negociação com a editora ou projecto que pretende adjudicar um vídeo musical, o Genero lança o respectivo projecto de produção com uma sinopse, orçamento e prazo de entrega previamente definidos. Depois, os potenciais realizadores descarregam a trilha sonora no portal, produzem o vídeo, cumprem determinados quesitos burocráticos e legais e submetem o seu vídeo à consideração do júri (formado quase sempre pelo(s) artista(s) e um representante da editora e do portal). O facto de todos os vídeos submetidos poderem ser visualizados, votados e comentados pelos membros da comunidade, torna o portal num local igualmente privilegiado e estimulante para a fruição videomusical. Mas os grandes beneficiados são, sem dúvida, as editoras e os projectos musicais que, em troca de alguns milhares de euros conseguem ter acesso à criatividade de uma comunidade em franco crescimento. Um exemplo: este projecto dos Muse (actualmente em fase de avaliação) conseguiu obter 129 propostas. Não é por acaso que o portal apenas faz negócio com editoras ou “global artists”: são, no fundo, estas entidades que lhe garantem os maiores overheads.

Como é óbvio, o spin gerado pelo portal é “ligeiramente” distinto e pretende sobretudo posicionar a plataforma como uma oportunidade para jovens realizadores aumentarem o seu portefólio, expandir a sua rede de contactos e, porque não, ganhar algumas massas. Tudo isto é inegável, claro, mas, pelo menos para já, o Genero ainda está distante de garantir uma relação simbiótica entre a indústria musical e a criatividade, mais ou menos vernacular, que fervilha nas plataformas digitais.

YouTube meets Billboard

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Era inevitável: a Billboard e a Nielsen anunciaram esta semana que iriam passar a incorporar dados das visualizações do YouTube na ordenação das diversas tabelas do seu Hot 100: Hot Country Songs, Hot R&B/Hip-Hop Songs, Hot R&B Songs, Hot Rap Songs, Hot Latin Songs, Hot Rock Songs and Dance/Electronic Songs.

Até a semana passada, estes prestigiados tops da indústria norte-americana baseavam-se exclusivamente em dados monitorizados pela Nielsen relativos às vendas físicas, airplay radiofónico terrestre e on-line streaming (via radio e on-demand). Doravante, as visualizações de utilizadores dos Estados Unidos a vídeos musicais oficiais e vídeos produzidos por fãs com áudio autorizado pelas editoras discográficas passam a ser tidas em conta. Apesar de estar no segredo dos deuses a forma como a Nielsen integra estes novos dados no caldeirão (vulgo algoritmo), os resultados já se fizeram sentir no Hot 100 desta semana com Baueer (autor do famigerado Harlem Shake) a entrar directamente para o topo da tabela.

Ainda assim, não deixa de ser admirável o tempo que a indústria discográfica precisou para reconhecer esta nova realidade: a fruição musical está, definitivamente, a convergir para o formato videomusical.

Faina videomusical #2

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Foals: «My Number» (real. Us)

É impossível ver este prodígio de animação videomusical e não pensar de imediato na célebre capa de 1975 dos The Who. Isto anda tudo ligado.

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Local Natives: «Heavy Feet» (real. Ben Reed)

De longe, o meu favorito da semana. E fico-me por aqui.

Suuns: «2020» (real. Sabrina Ratté)

O recurso a efeitos estroboscópicos passíveis de induzir epilepsias foi uma prática relativamente comum no formato videomusical até a MTV ter começado, em meados da década de 90, a recusar a sua transmissão por receio de ser processada por telespectadores fotossensíveis. Quando trabalhei para o canal, lembro-me que todos os vídeos tinham de passar pelo denominado Teste de Harding antes de poderem ser integrados na grelha de programação. Nos últimos anos, com a convergência do formato para as plataformas digitais, este efeito especial voltou a ganhar uma elevada popularidade (de resto, lembro-me que o primeiro vídeo com strobbing a ter sucesso na Web apesar de ter sido recusado pela MTV foi esta pequena obra-prima de Chris Cunningham para os The Horrors). Tudo isto apenas para vos dizer que têm aqui mais uma boa oportunidade para apurar se são, ou não, epilépticos.

Justin Timberlake (ft. Jay-Z): «Suit & Tie» (real. David Fincher)

Um dois em um irresistível: o regresso de Timberlake e Fincher ao nosso convívio videomusical. Um exercício de estilo irrepreensível, a preto a branco, que exala bom-gosto e uma dose equilabrada de sofisticação. Doug Stern escreveu um post bem interessante sobre como este vídeo entra em diálogo com o resto da obra videomusical de David Fincher.

Jim James: «A New Life» (real. Mimi Cave)

Já é um dos meus temas favoritos do ano e o vídeo está a altura desta muito aguardada estreia a solo do líder dos My Morning Jacket.

Lamento, mas é mesmo

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A Matador Records acaba de anunciar o lançamento de Walking On A Pretty Daze, o novo disco de Kurt Vile, disponibilizando o descarregamento grátis de «Walking On A Pretty Day» no seu portal e, como não podia deixar de ser, um vídeo musical do mesmo tema. Até aqui nada de digno de nota (a não ser, claro, o esperado regresso de um dos mais inspirados compositores norte-americanos dos últimos anos).

O que é curioso (to say the least) é a forma como a editora enquadra a apresentação do referido vídeo intitulando-o de, e passo a citar, Kurt Vile – ‘Wakin On A Pretty Day’ track set to moving images e afirmando na sua descrição que This Is Not A Music Video. A sério? Então é o quê? Uma máquina de lavar roupa? Se tivermos para mais em conta o facto de o vídeo documentar a concepção da capa do álbum, reforçando mais uma vez a íntima e inúmeras vezes aqui referida relação entre esse medium e o formato videomusical, é caso para dizer que de duas uma: ou a Matador tem um sentido de humor apurado ou então demonstra, para uma editora, um desconhecimento no mínimo constrangedor do que é, hoje em dia, um vídeo musical.

Há, no entanto, uma outra explicação possível: a de estar na calha outro vídeo musical para o tema. Ainda assim, uma das consequências da convergência do formato para as Web é a proliferação de mais do que um vídeo oficial para a mesma canção – veja-se por exemplo a recente e crescente tendência dos vídeos musicais textuais. Ainda assim, esta é uma desculpa pouco convincente para semelhante boutade.