Jamais deux sans trois

Ainda a propósito do post anterior, acaba de ser disponibilizado mais um fabuloso vídeo musical textual (ou lyric music video) de um projecto musical tuga. Aspecto curioso (e muito meritório) é o facto de We Trust ser o projecto musical de André Tentugal, nome que os leitores deste blogue facilmente reconhecerão pois não me canso de repetir que ele é um dos mais talentosos realizadores de vídeos musicais do nosso país. Apesar disso (ou, se calhar, exactamente por isso), o André faz sempre questão de contratar os serviços de outros realizadores para os vídeos da sua banda. Depois do mega-sucesso do primeiro vídeo (que, à data em que escrevo, já vai com cerca de 750 mil visualizações no YouTube), este segundo vídeo (uma animação de Robert Wallace) tem tudo para lhe seguir as pisadas.

Poolside Radio

poolside

O Poolside Radio é um portal que tira o máximo proveito de uma ideia muito simples: misturar música dançável com imagens de comédias juvenis repletas de Sol, piscinas e corpos femininos em biquini. Ah e tudo com um denominador comum: os eighties. Os utilizadores podem fazer zapping às imagens e ainda submeter músicas para a trilha sonora. É uma espécie de vending machine videomusical: em vez de sumos e chocolates, saem snacks mediáticos. No momento em que a Europa vive fustigada pelo pior Inverno dos últimos anos, talvez seja aconselhável não menosprezar os efeitos terapêuticos deste HTML. Just saying.

Obrigado ao Hilário Amorim pela dica.

Estereograma videomusical

blackisgood

O título do post diz tudo, né? Graças ao engenho do realizador Jared Raab e do artista digital Tomasz Dysinski, o novo vídeo musical dos Young Rival apenas é visível aos que se renderem aos encantos da ilusão óptica. Comigo, qualquer uma das 3 versões funcionou lindamente, embora talvez recomende a parallel-eye version (em 1080 HD, claro).

Estão à espera de quê? Ah, do link. Ei-lo.

Testemunha digital

Das cenas mais irritantes que posso ver num vídeo musical é a designação “official audio” no título. Isto porque a designação parece querer negar a sua própria identidade mediática: qualquer contéudo do YouTube é necessariamente audiovisual, nem que a parte visual seja “apenas” uma fotografia (de resto, já por diversas vezes falei aqui da importância e riqueza dos diaporamas videomusicais). Pois parece que a St. Vincent partilhará a mesma irritação: cliquem em play e reparem bem na imagem deste suposto “official audio” de um tema do seu próximo disco.

E agora reparem no nome da canção. Pois é.

2013: antologias de um ano videomusical (em actualização)

20132014

Tal como o ano passado, vou fechar 2013 com a minha habitual compilação de antologias videomusicais. Têm aqui muito com que se entreter.

A todos os leitores deste blogue, o meu sincero voto de um 2014 cheio de coisas boas.

Antville: Music Video Awards
Buzzfeed: Top 24
Huffington Post: Top 20 (+1)
IMVDb: Top 10
mvflux: Top 20-30; Top 10-20; Top 10
MVOD: Top 15
Paste Magazine: Top 10
Pitchfork: Top 25
Rolling Stone: Top 10
Seen Your Video: Top 50
The Needle Drop: Top 25
Time: Top 10
Videostatic: Top 10 NSFW; Top 10 Hip-Hop; Top 15 (+15)
Videoterapia: Top 10

MGMT: Optimizer

mgmtop

2013 foi o ano que, definitivamente, consolidou a tendência da fruição musical convergir de forma cada vez mais decidida para o formato videomusical. Se artistas como os Arcade Fire ou a Beyoncé tiveram direito a uma ampla cobertura mediática por terem promovido e disponibilizado “álbuns visuais”, os MGMT também aproveitaram o seu terceiro disco de originais não apenas para nos brindar com três vídeos fabulosos, como para disponibilizar (através de um código fornecido com as edições especiais do disco em CD e vinil ou via iTunes) uma média-metragem videomusical com cerca de 45 minutos que tem como faixa sonora a totalidade do álbum.

Infelizmente não tenho os meios para disponibilizar um ficheiro com cerca de 4GB, mas estou convencido que bastarão alguns meses (ou menos) para que o Optimizer fique integralmente disponível no Youtube. Até lá, apenas vos posso dizer que temos aqui um exercício videomusical absolutamente ímpar que consiste exclusivamente numa sequência de animações computorizadas psicadélicas que, sinceramente, não recomendo aos mais fotossensíveis. A imagem que reproduzo em cima dá apenas uma pequena ideia da dimensão alucinante e alucinatória da empreitada. Imagino que haverá poucos fãs da banda que verão isto sequer uma única vez na totalidade (eu apenas ainda o fiz uma única vez e tive de fazer duas pausas), mas estou mesmo curioso para ver a recepção que o Optimizer terá quando for disponibilizado na rede. Lamentável é não estar disponível (quer nas edições físicas como na rede) qualquer ficha técnica que nos indique quem esteve envolvido na produção e realização deste genuíno cometa videomusical.

Sobre os Death Grips a propósito do KISMIF

kismiflogopqJá tive a oportunidade de falar aqui sobre aquele que promete ser o meu evento académico favorito do próximo ano (com direito a hiperligação na coluna da direita do blogue e tudo): o Keep It Simple, Make It Fast! Underground Music Scenes and DIY Cultures.

Pois bem, acabo de submeter a minha proposta de comunicação para o evento e que, caso seja aceite, irá abordar a dimensão visual de um dos projectos musicais mais fascinantes e polémicos da última década: os Death Grips.

Deixo aqui o título e respectivo resumo da coisa seguidos de uma pequena (porém elucidativa) amostra videomusical dos meninos.

TITLE
“Whatever I Want (Fuck Who’s Watching)”: Death Grips and the emerging digital media landscape.

ABSTRACT
The decline of the music record industry and the rise of a new digital transmediatic landscape are increasingly blurring the frontiers that once separated mainstream culture from indie rock and underground music. Not only do typically “indie” cultural touchstones and sensibilities encroach nowadays into mainstream advertising, television, film and music, but the Do-It-Yourself ethos has also become a common ground for the user-generated contents and vernacular creativity that define a paramount part of today’s mediasphere. In the popular music arena, social media dynamics empowers musicians and fans in such a way that success and popularity have become more unpredictable and less controllable by gatekeepers than ever: in this day and age it is possible for an anonymous underground mixtape to become more spreadable than the last record of a highly marketed major label artist.
Death Grips, the experimental hip-hop trio from Sacramento, California, have – since 2011 – apparently done their best to swim upstream and to sabotage the opportunities brought by the power of the Internet: they have cancelled a highly buzzed tours with no apparent reason and have pulled a no-show on several other occasions; they got dropped by Epic Records after leaking a full-album (with a NSFW cover) and publishing privileged emails between their label and band management; they have removed their first record from iTunes, deleted their popular Twitter account and vanished from the press and social media at the peak of their popularity. This paper aims to analyze what seems to be the coherent visual strategy adopted by Death Grips in their baffling musical journey through today’s digital media landscape in order to elicit how their music videos and album artwork are not only deeply related to Punk’s visual art heritage but also showcase a high level of digital literacy and an acute understanding of the implications of the convergence of music phenomena into online transmediatic fruition.

Beyoncé (Visual Album)

beyonce-visual-albumA Beyoncé acaba de lançar um disco homónimo no iTunes. O que torna a coisa interessante é a surpresa do anúncio, o facto de o lançamento ser exclusivamente digital e, SOBRETUDO, o de trazer mais vídeos musicais (17) do que temas (14). Diz que a coisa é um (rufar de tambores) visual album. Calma, a menina explica-se:

I see music. It’s more than just what I hear. When I’m connected to something, I immediately see a visual or a series of images that are tied to a feeling or an emotion, a memory from my childhood, thoughts about life, my dreams or my fantasies. And they’re all connected to the music.

I didn’t want to release my music the way I’ve done it. I am bored with that. I feel like I am able to speak directly to my fans. There’s so much that gets between the music, the artist and the fans. I felt like I didn’t want anybody to give the message when my record is coming out. I just want this to come out when it’s ready and from me to my fans.

I just want to give my album to the people I love and respect and hope that they feel the same thing I felt when I made the music. (fonte)

Como é óbvio, não há nada de revolucionário nisto e até denuncio aqui um certo conservadorismo ao pedir 16 euros à malta para comprar tudo no iTunes (sim, eu fui um dos camelos, mas a investigação oblige). Isto, no fundo, não passa de mais um exemplo (eloquente e importante devido à dimensão planetária da artista) de uma das tendências videomusicais que identifiquei no meu projecto de investigação: as séries videomusicais.

É possível fazer remontar a origem desta tendência aos video albums (se calhar foi por isso que a Beyoncé chamou à sua cena visual album, para dar ares de cena nova e diferente), objectos físicos materializados em suportes electromagnéticos constituídos por vídeos musicais cujo alinhamento correspondia à sequência de faixas de um álbum musical. Curiosamente, o primeiro video album é mesmo anterior ao surgimento da própria MTV e remonta a 1979, ano em David Mallet realizou um vídeo musical para cada uma das canções de Eat To The Beat dos Blondie. Apesar de os video albums virem a obter alguma notoriedade nas décadas seguintes com o desenvolvimento do mercado do VHS e dos DVDs, a verdade é que os mesmos, devido aos custos de produção, continuavam em grande medida restritos a projectos musicais mainstream. Com a convergência digital, o âmbito das séries videomusicais ampliou-se consideravelmente e acredito mesmo que caminharemos para uma paisagem mediática em que serão cada vez mais raros os temas musicais que não terão uma dimensão visual sob a forma de um vídeo musical.

Este lançamento da Beyoncé vai, no entanto, ficar como um marco na história do formato. Pela dimensão da artista, como já referi, mas igualmente pelo valor intrínseco da empreitada. Acabei de ver e ouvir a coisa toda pela primeira vez há minutos e fiquei com a nítida sensação que há aqui um virar de página na história da produção videomusical. Deixo-vos uma lista de reprodução do YouTube com excertos de 30 segundos de cada vídeo para ficarem a salivar.

Eis a (sonante) lista de realizadores envolvidos: Melina Matsoukas, Jonas Akerlund, Hype Williams, @LILINTERNET, Ricky Saiz, Jake Nava, Francesco Carrozzini, Todd Tourso, Ed Burke, Bill Kirstein, Pierre Debusschere, Terry Richardson, Todd Tourso, Bill Kirstein e a própria Beyoncé (obviously).

Shreds (paródias videomusicais)

Os shreds são um genuíno género de paródia videomusical vernacular que remonta, pelo menos, a 2007, data em que o utilizador do YouTube StSanders (cognome de Santeri Ojala, um rapaz finlandês) começou a dobrar o áudio de várias performances de bandas rock famosas (podem aceder ao seu imenso legado aqui). No entanto, a prática tornou-se particularmente popular este ano com esta pequena maravilha:

O termo foi originalmente usado para referir o estilo virtuoso e circense de certos guitarristas (sobretudo de heavy metal), tendo sido depois adoptado de forma irónica para qualificar este tipo de paródia videomusical que consiste, precisamente, em substituir de forma sincronizada o áudio original por outro que é baixa fidelidade e desafinado. O meu favorito? Este:

YouTube Rewind 2013

Este ano, o YouTube começou a utilizar o termo trending para classificar e calcular os seus vídeos mais populares, utilizando supostamente para isso não apenas o número de visualizações, mas também o das partilhas e o de pesquisas no portal. A coisa até parece fazer sentido, mas não prima pela transparência. Aliás, a coisa apenas será transparente caso o portal utilize, de facto, uma fórmula para calcular os vídeos mais populares. Se assim é, por que raio não torná-la pública? Parece-me óbvio que a divulgação da fórmula poderia dar origem a uma discussão muito interessante (eufemismo) em torno da forma como a malta do YouTube valoriza cada um dos indicadores (views, shares e searches) na sua definição de “popularidade” (ou trending). Intrigado, acabei por formular essa pergunta no Quora. Pode ser que haja mais alguma novidade nos próximos dias.

Quanto ao ano 2013 deste absoluto vórtice audiovisual, o mínimo que se pode dizer é que se verificou uma consolidação da importância do formato videomusical na actual paisagem mediática digital. Nesta lista de reprodução (Top 10 Trending YouTube Videos in 2013), 3 são vídeos musicais (entre os quais o primeiro lugar) e outros 3 utilizam a música de forma proeminente. Na lista dos vídeos musicais mais populares (ah pois é, o YouTube apenas fez duas playlists no seu balanço anual e a dos vídeos musicais é uma delas), gostaria de destacar duas curiosidades que me interessam particularmente: o facto de surgirem na lista dois exemplos flagrantes de duas das novas tendências da videomusicalidade que detectei na minha tese: um vídeo musical textual (ou lyric music video) e um diaporama videomusical.

Nos próximos dias, tenciono publicar a lista habitual dos meus vídeos musicais favoritos do ano. Até lá, podem sempre rever a do ano passado.