modelo conceptual de difusão

Perante a complexidade (analisada no projecto de investigação) e a impossibilidade (defendida pelo mesmo) de uma determinação positivista dos mecanismos ligados à difusão de conteúdos mediáticos na Web Social, impõe-se uma pergunta: em que pode consistir um modelo conceptual de difusão dos vídeos musicais (ou de qualquer outro formato) no referido medium?

Um primeira resposta passa por definir o que, para o infortúnio de muitos profissionais de marketing, o modelo jamais poderá ser: uma teoria digital unificadora aplicável a todos os casos de difusão na Web Social da qual emanasse uma fórmula para a criação de conteúdos mediáticos que fossem passíveis de despertar o agenciamento involuntário (ou viral) dos seus utilizadores.

Uma segunda resposta é simples e (ao olhar menos atento) bem mais “modesta”: fornecer um conjunto integrado e eficaz de instrumentos teóricos munido de uma terminologia precisa para analisar, caso a caso, os fenómenos de difusão de vídeos musicais (ou de outros formatos mediáticos) na Web Social com o intuito de fornecer progressivamente uma compreensão abstrata da série heterogénea de mecanismos que lhe estão associados.

Modelo conceptual para a difusão de vídeos musicais na Web Social

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A figura supra articula, sob a forma de um modelo conceptual, a proposta das três dimensões analíticas (fruição, sistema e configuração) que deverão ser acionadas para a análise da difusão dos vídeos musicais na Web Social.

Por um lado, a figura ilustra a importância da transtextualidade videomusical no modelo conceptual, na medida em que torna visível o facto de esta funcionar como uma ponte analítica entre o labor da fruição participativa dos utilizadores e as características rizomáticas do medium (Web Social) capaz de sistematizar não apenas as relações existentes como os potenciais resultados de certos fenómenos (produtivos) da difusão de vídeos musicais. Por outro lado, a figura torna igualmente evidente que o potencial de difusão reside na configuração do medium (Web Social) como uma nuvem rizomática atualizada pela força motora da fruição participativa dos utilizadores que são os agentes que criam, consomem, duplicam, filtram, direcionam, interligam, multiplicam e transformam (numa palavra: difundem) os vídeos musicais.

A grande mais-valia do modelo proposto reside, no entanto, no poder de sistematização da transtextualidade videomusical que possibilita o recurso a uma terminologia precisa para categorizar as relações que os artefactos videomusicais estabelecem entre si e outros formatos mediáticos, posteriormente passíveis de serem atualizadas pela fruição participativa dos utilizadores da Web Social. Esta terminologia não apenas define de forma inequívoca termos como “paródia” ou “pastiche” e abdica de termos ambíguos como “remistura”, “mash-up” e “spoof”, como permite integrar, devido à sua estrutura não-mereológica, ligações tipológicas (arquitexto), interfaciais (peritexto) e meta-mediáticas (metatexto). Assim, o modelo conceptual proposto está ainda em absoluta sintonia com os pressupostos do modelo de “espalhabilidade” (spreadability) conceptualizado pelos investigadores do C3:

A spreadable model emphasizes the activity of consumers […] in shaping the circulation of media content, often expanding potential meanings […] [and] assumes that the repurposing and transformation of media content adds value, allowing media content to be localized to diverse contexts of use. (2.1 JENKINS et al. 2009: 3)

Circuito difusor dos vídeos musicais nos portais de partilha de vídeos da Web Social

Circuito difusor dos vídeos musicais nos portais de partilha de vídeos da Web Social

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A figura supra ilustra o circuito implícito no modelo conceptual da difusão de vídeos musicais (extensível a outros formatos mediáticos) nos portais de partilha de vídeos da Web Social. Segundo o circuito do modelo conceptual, a série de mecanismos difusores dos vídeos musicais na Web Social por parte da fruição participativa dos utilizadores pode ser dividida em cinco tipos:

i) acesso > difusão;
ii) acesso > replicação > difusão;
iii) acesso > consumo > difusão;
iv) acesso > consumo > replicação > difusão;
v) acesso > consumo > transformação > difusão;

Participação e empenho das práticas difusoras de conteúdos mediáticos na Web Social

Participação e empenho das práticas difusoras de conteúdos mediáticos na Web Social

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A figura supra utiliza elementos da lei do poder de distribuição de Albert Lázló-Barabási (2.2 BARABÁSI 2003) e da lei do poder de participação de Ross Mayfield (2.2 MAYFIELD 2006) para distribuir as diversas formas de difusão identificadas pelo modelo conceptual num duplo eixo em que às abcissas corresponde o grau de empenho e às ordenadas o grau de participação da fruição participativa dos utilizadores da Web Social.

O empenho e o grau de participação da fruição dos utilizadores aumenta à medida que se avança da disseminação para a propagação, isto é, da difusão sem produção para a difusão produtiva. Dentro da disseminação, a série acesso (sem replicação) > acesso (com replicação) > consumo (sem replicação) > consumo (com replicação) mantém, como seria de esperar, a mesma progressão crescente dos índices de empenho e participação.

Desta forma, no modelo conceptual proposto, os critérios fundamentais para apurar o grau de empenho e participação das diversas práticas difusoras dos utilizadores na Web Social são, por ordem decrescente, i) a produção (ou transformação); ii) o consumo; e iii) a replicação.

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Às práticas difusoras anteriormente descritas, dever-se-á ainda acrescentar as que resultam de uma fruição participativa de tipo “forense” em que os utilizadores (sobretudo os fãs) produzem materiais epitextuais que investigam a complexidade narrativa ou a natureza producente (2.1 FISKE 1992: 104) dos conteúdos difundidos.

Este tipo de fruição origina uma variante difusora que pode ser, recorrendo a uma metáfora euclidiana, apodada de vertical, não apenas porque permite conceptualizar uma complementaridade com o tipo de difusão mais comum (a horizontal), mas porque integra igualmente as noções de transtextualidade vertical de John Fiske e de drillabilty de Jason Mittell:

Vertical [transtextuality] is that between a primary text, such as a television program or series, and other texts of a different type that refer explicitly to it. These may be secondary texts such as studio publicity, journalistic features, or criticism, or tertiary texts produced by the viewers themselves in the form of letters to the press, or, more importantly, of gossip and conversation. (2.1 FISKE 2011: 107-108)

Perhaps we need a different metaphor to describe viewer engagement with narrative complexity. We might think of such programs as drillable rather than spreadable. They encourage a mode of forensic fandom that encourages viewers to dig deeper, probing beneath the surface to understand the complexity of a story and its telling. Such programs create magnets for engagement, drawing viewers into the storyworlds and urging them to drill down to discover more. (2.1 MITTELL 2009)

Desta forma, os diferentes tipos de difusão operados pelos utilizadores da Web Social conceptualizados pelo modelo de análise podem ser traduzidos através da seguinte equação: difusão = difusão horizontal (disseminação + propagação) + difusão vertical.

Tipologia das práticas difusoras na Web Social

Tipologia das práticas difusoras na Web Social

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