glossário

Esta página inclui um pequeno léxico que define alguma da terminologia usada no projecto de investigação. A criação do glossário prende-se à necessidade de não apenas criar alguns neologismos para enquadrar teoricamente, e em Português, a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais, mas também de definir de forma precisa e inequívoca termos que são (por vezes) usados por outros autores com uma acepção distinta da que utilizo no projecto de investigação, sobretudo quanto os mesmos correspondem a conceitos operatórios isolados ou a conceitos sistémicos do modelo de análise.

Sintam-se à vontade de sugerir outros termos na caixa de comentários: cada vez que o fizerem, rebaptizarei um dos meus cinco gatos com a vossa graça.

 

ACAFÃ: Acafan (ing.) no original: academic + fan. Apesar de não ser fácil traçar a origem do termo, o mesmo foi popularizado por Matt Hills em Fan Cultures (2.1 HILLS 2002) e tem sido amplamente utilizado por diversos investigadores, não sendo o menor deles Henry Jenkins (2.1 JENKINS 2006b: 3-36). O termo refere-se ao posicionamento epistemológico de um investigador em ciências sociais cujo objecto de estudo coincide com o seu objecto de fruição e enquadra-se no método qualitativo etnográfico de investigação. [ver ETNÓGRAFO DIGITAL]

ANTVILLE: Blogue colectivo criado no dia 8 de Agosto de 2002 em que são publicados diariamente dezenas de vídeos musicais recentes e que agrega a mais vasta e importante comunidade virtual de fãs dedicada ao formato. Os membros da comunidade são designados por Antvillers e os realizadores de vídeos musicais que integram a mesma são apodados de Antvilleans. [ver VIDEOVILLE] Link

BLACK BOX FALLACY: [ver CONVERGÊNCIA]

BLIPS: Antecedente histórico dos vídeos musicais na Web. Os blips mais não eram do que pequenos vídeos musicais em Java applet exportável, cuja duração média de 20 segundos era imposta pela modesta velocidade de acesso à Internet disponível no ano em que surgiram (SHYNOLA et al. 2000).

CÂNONE: O termo cânone deriva etimologicamente da palavra grega kanon, que designava a vara que era utilizada como instrumento de medida. Apesar da sua polissemia, o termo refere-se, no contexto do projecto de investigação, ao conjunto de regras ou obras que, num determinado momento, são consideradas modelares por um sistema de factores dentro de um determinado campo da actividade humana (neste caso, o da produção de vídeos musicais). A teorização do cânone no campo artístico deve-se inteiramente aos Estudos Literários – ver The Making of the Modern Canon de Jan Gorak (2.2 GORAK 1991) e ainda o artigo «O cânone na teoria literária contemporânea» de José Pozuelo Ivancos (2.2 IVANCOS 2001). O conceito de cânone possui assim uma dimensão abstracta e sistémica inexistente no conceito operatório isolado corpora. [ver CORPORA e CORPUS]

COLAGEM VIDEOMUSICAL: Produção vernacular de um vídeo musical em que impera o que John Hartley apoda de “cultura da redação” (redaction culture): «the production of new material by the process of editing existing contents» (2.1 HARTLEY 2008: 112). [ver SUPERCUT e VIDDING]

CONTEÚDOS GERADOS PELOS UTILIZADORES (CGU): User-Generated Contents (UGC) (ing.) no original. O termo que designa certos conteúdos produzidos pelos utilizadores da Web 2.0 no âmbito da sua fruição participativa. Num relatório da OCDE publicado em Abril de 2007 (2.1 WUNSCH-VINCENT et al. 2007), o termo CGU é definido a partir de 3 critérios: 1) conteúdo tornado publicamente disponível na Internet, 2) que resulta de um determinado esforço criativo 3) produzido fora de rotinas e práticas profissionais. O projecto de investigação procura, no caso dos vídeos musicais, enquadrar esta definição de CGU dentro do seu modelo conceptual de difusão e demonstrar que o terceiro critério definido pela OCDE revela-se inoperante e/ou problemático. [ver FRUIÇÃO PARTICIPATIVA, SWEDED LOOK, UTILIZADOR, VERNACULAR e YOUTUBE AESTHETIC]

CONVERGÊNCIA: O termo não corresponde à ideia falaciosa de que todas as formas de consumo de media se estão a concentrar num único objecto (the black box fallacy). A convergência é mais do que uma mudança tecnológica: é um fenómeno que altera de forma significativa as relações existentes entre tecnologias, indústrias, mercados e audiências (2.1 JENKINS 2006a: 15). O termo, no seu sentido mais lato, implica uma articulação entre a noção de cultura participativa com a de convergência dos media (2.1 POOL 1994) e a de inteligência colectiva (2.1 LÉVY 1997) de forma a defini-lo como uma prática cultural em que os fluxos de conteúdos oriundos de diversas plataformas acciona a cooperação entre diferentes indústrias dos media e o comportamento migratório de audiências participativas que recorrem aos meios necessários para obter as formas de entretenimento que procuram. [ver FRUIÇÃO PARTICIPATIVA e INTELIGÊNCIA COLECTIVA]

CORPORA: Plural de corpus (latim). Conceito operatório isolado do modelo de análise que remete para o conjunto de vídeos musicais que, num determinado momento, existe na Web Social. [ver CÂNONE e CORPUS]

CORPUS: O corpus epistemológico consiste numa colecção finita de materiais, determinada de antemão pelo analista, de forma quantitativa ou qualitativa, segundo um certo arbitrário (inevitável) e sobre o qual ele vai trabalhar (2.2 BARTHES 1997: 81). [ver CÂNONE e CORPORA]

COSMOPEDIA: [ver INTELIGÊNCIA COLECTIVA]

CULTURA PARTICIPATIVA: [ver FRUIÇÃO PARTICIPATIVA, INTERACÇÃO vs PARTICIPAÇÃO e UTILIZADOR]

CURADORIA DIGITAL: Digital Curatorship (ing.) no original. O termo designa uma das actividades fundamentais dos utilizadores da Web Social no seu processo de fruição participativa: o de servir como filtro, distribuidor e fonte de recomendação para conteúdos digitais, podendo essa curadoria ir da criação de portais à utilização de redes e marcadores sociais. [ver FRUIÇÃO PARTICIPATIVA]

DIAPORAMA VIDEOMUSICAL: Vídeo musical predominantemente vernacular cujo texto (ou componente) visual consiste apenas numa ou num conjunto de imagens estáticas, podendo ou não conter carateres verbais (estáticos ou em movimento).

DIFUSÃO: Atividade incluída na fruição participativa dos utilizadores na Web Social e que pode ser dividida em duas categorias complementares i) difusão horizontal (disseminação e propagação) e ii) difusão vertical. [ver DIFUSÃO HORIZONTAL, DIFUSÃO VERTICAL, FRUIÇÃO PARTICIPATIVA, UTILIZADOR e WEB SOCIAL]

DIFUSÃO HORIZONTAL: Atividade incluída na fruição participativa dos utilizadores na Web Social e que pode ser dividida em i) propagação (difusão com alteração textual do conteúdo difundido) e ii) disseminação (mera difusão que pode implicar uma mudança contextual do conteúdo difundido). [ver DIFUSÃO, DIFUSÃO VERTICAL, FRUIÇÃO PARTICIPATIVA, UTILIZADOR e WEB SOCIAL]

DIFUSÃO VERTICAL: Fenómeno despoletado por um tipo específico da fruição participativa dos utilizadores na Web Social: a forense. A difusão vertical consiste na criação de epitextos que analisa a complexidade narrativa ou a natureza producente de um determinado conteúdo mediático [ver DIFUSÃO, DIFUSÃO HORIZONTAL, FRUIÇÃO PARTICIPATIVA, TEXTOS PRODUCENTES, UTILIZADOR e WEB SOCIAL]

DISSEMINAÇÃO: [ver DIFUSÃO]

ETNÓGRAFO DIGITAL: Digital Etnographer (ing.) no original. Posicionamento epistemológico de um investigador em ciências sociais que participa de forma intensa e extensa na comunidade que é o seu objecto de estudo e que, no caso das plataformas digitais, utiliza de forma activa o medium que integra igualmente o objecto da sua pesquisa (2.1 STRANGELOVE 2010: 9). [ver ACAFÃ]

FANISMO: Fandom (ing.) no original. Este neologismo refere a acção participativa dos fãs de determinados conteúdos mediáticos (como os vídeos musicais) e que vai da mera fruição à produção de inteligência colectiva e a fenómenos de curadoria digital. [ver COSMOPEDIA, CURADORIA DIGITAL e INTELIGÊNCIA COLECTIVA]

FRUIÇÃO PARTICIPATIVA: Designação genérica que engloba um vasto conjunto de actividades da praxis dos utilizadores na Web Social: contacto, consumo, difusão, propagação e disseminação de conteúdos (entre os quais se incluem, naturalmente, os vídeos musicais). [ver DIFUSÃO, DISSEMINAÇÃO, PROPAGAÇÃO, UTILIZADOR e WEB SOCIAL]

FRUIÇÃO PARTICIPATIVA FORENSE: [ver DIFUSÃO VERTICAL]

GRASSROOT PRODUCTION: [ver VERNACULAR]

INTELIGÊNCIA COLECTIVA: Termo cunhado por Pierre Lévy na obra Collective Intelligence (2.1 LÉVY 2007a) e que surge no âmbito da teorização de um novo espaço de conhecimento potencializado pelos novos media que o autor apoda de cosmopedia:

The members of a thinking community search, inscribe, connect, consult, explore… Not only does the cosmopedia make available to the collective intellect all of the pertinent knowledge available to it at a given moment, but it also serves as a site of collective discussion, negotiation and development. Unanswered questions will create tension within cosmopedic space, indicating regions where invention and innovation are required. (2.1 LÉVY 1997: 217

Uma das concretizações mais conseguidas da utopia sócio-gnosiológica de Pierre Lévy pode ser encontrada no contexto da convergência digital dos vídeos musicais sob a forma de comunidades de fãs ligados em rede (fanismo) que, ao moverem-se numa cultura manifestamente participativa, debatem e partilham informação, interpretações, opiniões e conhecimentos (ver dimensão organizacional do COI utilizador). A inteligência colectiva surge aqui não apenas como um conceito abstracto, mas como a força motriz por detrás de uma performance verdadeiramente notável no contexto da Web Social: o da propagação vertical. [ver COSMOPEDIA, CURADORIA DIGITAL, DIFUSÃO e FANISMO]

INTERACÇÃO vs PARTICIPAÇÃO: Post dedicado ao tópico [ver FRUIÇÃO PARTICIPATIVA]

INTERNET: Rede de redes, isto é, gigantesca infraestructura que permite, através de uma série de linguagens denominadas protocolos, a comunicação entre qualquer terminal que esteja ligado à rede (2.1 BURNETT 2002: 206). [ver WEB]

LEITURA EXCESSIVA: Excessive Reading (ing.) no original. Modo de recepção activa de produtos mediáticos conceptualizados como textos producentes que pertence, por excelência, à esfera de acção do fanismo (2.1 FISKE 1992). [ver FANISMO e TEXTOS PRODUCENTES]

MÉDIA-METRAGEM VIDEOMUSICAL: Vídeos musicais oficiais com uma duração próxima ou superior a 10 minutos.

MULTIMÉDIA (FRUIÇÃO MUSICAL): Todas as instâncias em que a música surge integrada em sistemas mediáticos mais abrangentes, isto é, as situações em que a música não é apenas fruída a partir da audição, mas através do recurso a outras fontes sensoriais como a visão (1.2 SEXTON (ed.) 2007: 4).

NUVEM RIZOMÁTICA: O potencial de aplicação das características do rizoma à Internet tem sido amplamente defendido por diversos autores (2.1 BURNETT 1993; 2.1 HAMMAN 1996; 2.1 KOH 1997) no sentido de considerar este medium como rizomórfico ou mesmo rizomático no caso particular da dimensão sócio-tecnológica da Web Social (2.1 FUCHS 2005: 77-79). O modelo de análise do presente projecto de investigação pretende conferir uma dimensão operacional a esta evidência ao explorar os vasos comunicantes que uma noção rizomática do medium estabelece com a Transtextualidade Videomusical de inspiração genettiana (2.1 GENETTE 1982) e a noção de Fruição Participativa dos utilizadores. [ver RIZOMA, FRUIÇÃO PARTICIPATIVA e TRANSTEXTUALIDADE VIDEOMUSICAL]

PARÓDIA VIDEOMUSICAL: No sentido lato, qualquer tipo de produção vernacular videomusical que recria, operando um conjunto de transformações, um outro conteúdo mediático audiovisual. No âmbito restrito das novas tendências da videomusicalidade digital, esse conteúdo audiovisual transformado não é videomusical. [ver PASTICHE VIDEOMUSICAL]

PASTICHE VIDEOMUSICAL: Produção vernacular videomusical que mima, parcial ou integralmente, outro vídeo musical – no fundo, o que separa uma paródia de um pastiche é a modalização (por vezes ambígua) da sua acção hipertextual: transformativa na paródia e imitativa (ou aspiracional) no pastiche. [ver PARÓDIA VIDEOMUSICAL]

PAYOLA: Termo anglo-saxónico que designa a prática ilegal de rádios e estações televisivas em cobrar valores pecuniários à indústria discográfica para a difusão de temas e/ou vídeos musicais.

PROPAGAÇÃO: [ver DIFUSÃO]

PROSUMERS: [ver UTILIZADOR]

RIZOMA: É no capítulo de abertura de Mil Planaltos que Gilles Deleuze e Félix Guattari (2.1 DELEUZE et al. 2007: 21-50) definem o conceito de rizoma como uma forma alternativa (e complementar) de reestruturar a organização típica do pensamento ocidental: a da árvore-raiz. O pensamento arborescente tende sempre a apontar uma origem, ou estrutura totalizante, que conduz à formação de processos cognitivos baseados em hierarquias e em oposições binárias (modelo mereológico). Como forma de romper a univocidade deste tipo de pensamento, os autores propõem o rizoma como símbolo absoluto da multiplicidade. Um rizoma é um organismo cuja estrutura se assemelha a uma raiz fasciculada que se propaga de forma horizontal, não possuindo qualquer centro ou elemento centralizador: «À diferença das árvores e das suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com um outro ponto qualquer e cada uma das suas características não aponta necessariamente para características da mesma natureza, colocando em jogo regimes de signos muito diferentes» (idem: 43). [ver NUVEM RIZOMÁTICA]

SÉRIE VIDEOMUSICAL: Conjunto de vídeos musicais descendentes dos video albums, que mantêm uma relação peritextual que se encontra plasmada na forma (interface) como são disponibilizados aos utilizadores da Web Social. [ver TRANSTEXTUALIDADE VIDEOMUSICAL e VIDEO ALBUM]

SESSÃO VIDEOMUSICAL PERFORMATIVA: Vídeos musicais que registam a performance de um tema musical pelos seus intérpretes.

SUPERCUT: Termo vernacular anglo-saxónico que, no universo dos vídeos musicais, designa exercícios de colagem videomusical em que diversos segmentos audiovisuais oriundos de diversos formatos (com predominância para o cinema e as séries de TV) e cujos protagonistas verbalizam segmentos da letra do vídeo musical original são concatenados ao som da respectiva trilha sonora. [ver COLAGEM VIDEOMUSICAL e VERNACULAR]

SWEDED LOOK: Termo criado pelos protagonistas do filme Be Kind Rewind (Michel Gondry 2008) para designar o estilo tosco e naïf das suas recriações caseiras de clássicos de Hollywood. Este sweded look corresponde ao que muitos autores posteriormente apodaram de YouTube Aesthetic, isto é, um estilo audiovisual vernacular cujas características estéticas são a curta duração, baixa-fidelidade, ausência de sofisticação e naïveté (1.1 KEAZOR et al. (eds.) 2010: 16-18). [ver CONTEÚDOS GERADOS PELOS UTILIZADORES (CGU), VERNACULAR e YOUTUBE AESTHETIC]

TEXTOS PRODUCENTES: Producerly Texts (ing.) no original. John Fiske definiu e aplicou este conceito a produtos mediáticos que permitem aos seus fruidores de participar na produção da sua significação através de um exercício de leitura excessiva (excessive reading). Os textos producentes possuem estruturalmente “pontas soltas” que escapem ao seu controlo, sentidos que excedem o seu poder em discipliná-los, “espaços” suficientemente vastos para que novos textos serem produzidos neles pelos seus leitores (2.1 FISKE 1989: 104). Isto é: um produto mediático não precisa de desistir de ter uma mensagem explicitamente definida, mas ao fazê-lo limita igualmente o seu potencial de circulação. Assim, um texto producente é aquele que pode ser fruído e acedido em múltiplos níveis: de forma literal ou deixando espaço para interpretações mais activas e profundas (2.1 JENKINS et al. 2009: 81-82). [ver DIFUSÃO e LEITURA EXCESSIVA]

TRANSTEXTUALIDADE: Aparato teórico criado por Gerard Genette na obra Palimpsestes (2.1 GENETTE 1982) e que pode ser definido como tudo o que coloca um determinado texto em relação, manifesta ou secreta, com outros textos (idem: 7). Fruto da sua formação estruturalista , Genette elabora um impressionante edifício teórico, no qual identifica de forma crítica cinco tipos de transtextualidade (por ordem crescente de abstracção): a intertextualidade, a paratextualidade, a metatextualidade, a hipertextualidade e a arquitextualidade. [ver TRANSTEXTUALIDADE VIDEOMUSICAL, TRANSTEXTUALIDADE MEDIÁTICA,NUVEM RIZOMÁTICA e FRUIÇÃO PARTICIPATIVA]

TRANSTEXTUALIDADE MEDIÁTICA: Aplicação da transtextualidade videomusical a todos os conteúdos mediáticos da Web Social [ver TRANSTEXTUALIDADE e TRANSTEXTUALIDADE VIDEOMUSICAL]

TRANSTEXTUALIDADE VIDEOMUSICAL: Neologismo que designa a configuração sistemática dos vídeos musicais na Web Social em seis categorias (intertextualidade, peritextualidade, epitextualidade, hipertextualidade, arquitextualidade e metatextualidade), que resultam de uma adaptação dos conceitos de transtextualidade de Gerard Genette (2.1 GENETTE 1982). No âmbito da transdisciplinaridade latente ao enquadramento teórico do trabalho de investigação, as seis categorias da transtextualidade videomusical revelam-se particularmente eficazes na tentativa de sistematizar a complexa teia de relações que os vídeos musicais estabelecem entre si e os demais conteúdos audiovisuais, não apenas por permitir uma ponte analítica entre a fruição participativa dos utilizadores de vídeos musicais na Web Social e a estrutura rizomática do medium, mas também por conferir uma maior densidade e precisão teórica a termos vagos habitualmente utilizados pelos Web Studies como é o caso de remix, pastiche, spoof ou parody e mashup. Esta sistematização é igualmente aplicável à relação entre produtos mediáticos digitais que vão para além da existente entre vídeos musicais. [ver TRANSTEXTUALIDADE, TRANSTEXTUALIDADE MEDIÁTICA, NUVEM RIZOMÁTICA e FRUIÇÃO PARTICIPATIVA]

USER-GENERATED CONTENTS (UGC): [ver CONTEÚDOS GERADOS PELOS UTILIZADORES (CGU)]

UTILIZADOR: O termo utilizador é empregue no projecto de investigação no sentido metafórico de forma a diferenciar o seu actual empenho na Web Social dos seus pretéritos estatutos enquanto espectador, ouvinte ou membro passivo da audiência dos media convencionais (2.1 BURNETT 2002: 210). No fundo, o conceito de utilizador incorpora as características dinâmicas do termo prosumers (producers + consumers) descritas por Marshall McLuhan em Take Today (2.1 MCLUHAN 1972: 4) e posteriormente desenvolvidas na área da economia digital por Don Tapscott (2.2 TAPSCOTT et al. 1995). Utilizadores remete ainda para a noção de cultura participativa definida por Henry Jenkins como uma das características fundamentais da cultura da convergência:

The term participatory culture contrasts with older notions of passive media spectatorship. Rather than talking about media producers and consumers occupying separate roles, we might now see them as participants who interact with each other according to a new set of rules that none of us fully understands (2.1 JENKINS 2006a: 3).

Desta forma, a relação que a rede de utilizadores estabelece com um vídeo musical na Web Social é hiperactiva ao nível da intensidade – ultrapassando de forma substancial o débito inerente à leitura do discurso de textos televisivos teorizada por David Morley e John Fiske (2.1 MORLEY 1992; 2.1 FISKE 1989-1992) – e participativa ao nível da sua fruição: os utilizadores são simultaneamente fonte e destino da informação que emitem e recebem através da Web Social. [ver FRUIÇÃO PARTICIPATIVA e WEB SOCIAL]

VERNACULAR: Termo que designa as características estéticas dos conteúdos gerados pelos utilizadores (CGU) na Web Social (produção ou criatividade vernacular). No caso particular da produção audiovisual (em que se inclui a videomusical) tecnologicamente mediada, o termo é sinónimo de expressões anglófilas como grassroot production (metáfora) ou YouTube aesthetics (sinédoque). [ver CONTEÚDOS GERADOS PELOS UTILIZADORES (CGU), SWEDED LOOK, VIDDING e YOUTUBE AESTHETIC]

VID ou FANVID ou SONGVID: Termo utilizado por alguns membros da comunidade científica para designar um tipo específico de vídeo musical vernacular: os produzidos pelos fãs (vidder) de um determinado filme ou série televisiva que editavam alguns dos seus segmentos visuais com uma trilha musical de forma a construir uma narrativa (vidding). A partir da convergência dos vídeos musicais para a Web Social, o termo tornou-se manifestamente anacrónico, devido à explosão do número de vídeos musicais produzidos por fãs ou meros utilizadores das plataformas digitais. O projeto de investigação utiliza o termo colagem videomusical para designar este e outros tipos de práticas produtivas redaccionais. [ver COLAGEM VIDEOMUSICAL e VERNACULAR]

VIDEOVILLE: Página wiki da comunidade Antville dedicada aos vídeos musicais e à referida comunidade. [ver ANTVILLE]

VIDEO ALBUM: Objecto físico (VHS ou DVD) formado por um conjunto de vídeos musicais cujo alinhamento corresponde às faixas de um álbum musical. Exemplos

VÍDEO MUSICAL INTERACTIVO: Vídeo musical diretamente manipulável pelos utilizadores da Web Social através do recurso a tecnologias de interação que são parte integrante do formato. [ver INTERACÇÃO vs. PARTICIPAÇÃO]

VÍDEO MUSICAL LITERAL: tipo específico de paródia videomusical vernacular que consiste na substituição do texto verbal (ou letra) de um hipotexto videomusical por um novo que descreve o texto visual comum, sendo esta nova letra inserida no texto visual do hipertexto através de legendas síncronas. [ver PARÓDIA VIDEOMUSICAL]

WEB: A World Wide Web (ou Web) consiste numa forma específica de aceder à informação existente na Internet através do protocolo HTTP e pode ainda ser conceptualizada como uma colecção de páginas e portais, graficamente desenhados (a grande maioria em HTML), e interligados através de hiperligações, que disponibiliza essa mesma informação sob a forma de texto, imagens, áudio, vídeo e sistemas hápticos. Desta forma, a Web é, à semelhança do mail, do Usenet, do instant messaging ou do FTP, uma interface da Internet (2.1 BURNETT 2002: 211). [ver INTERNET]

WEB SOCIAL ou WEB 2.0: Termos utilizados para designar a Web participativa ou social, que marca o advento de tecnologias que permitem uma participação activa dos utilizadores na criação, difusão e curadoria de conteúdos digitais. Este texto (2.1 O’REILLY 2005) continua a ser a melhor introdução disponível para o conceito, actualizado recentemente para o conceito (não muito entusiasmante, diga-se) de Internet of Things (2.1 O’REILLY et al 2009). Post que aborda esta questão. [ver UTILIZADOR]

YOUTUBE AESTHETIC: [ver CONTEÚDOS GERADOS PELOS UTILIZADORES (CGU), VERNACULAR e SWEDED LOOK]

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  26. A ler voce, e que prazer me da’!, anotei estes pormenores. Seguem. Nina

    Glossário

    ACAFÃ: Acafan (ing.) no original: academic + fan. Apesar de não ser fácil traçar a origem do termo, o mesmo foi POPULARIZADO por Matt Hills em Fan Cultures (2.1, HILLS, 2002)

    * o U saiu sorrindo do golpe à tecla!

    TRANSTEXTUALIDADE: conceito teórico criado por Gerard Genette na obra Palimpsestes (2.1, GENETTE, 1982)……Fruto da sua formação estruturalista , Genette elabora um impressionante edifício teórico, no qual identifica de forma crítica CINCO tipos de transtextualidade (por ordem crescente de abstracção): a intertextualidade, a PARATEXTUALIDADE, a PARATEXTUALIDADE, a hipertextualidade e a arquitextualidade.

    * Paratextualidade aparece duas vezes. Serão 4, os tipos de intertextualidade?

  27. Olá Nina!

    muito obrigado pela leitura atenta – já procedi às duas corecções. São 5 tipos de transtextualidade, na verdade: faltava a metatextualidade. Falarei oportunamente de todos esses conceitos num próximo post.

    Espero poder continuar contar com a tua leitura atenta. Obrigado.

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