PolyFauna

radioapp

Os Radiohead acabam de lançar um app intitulada PolyFauna (iOs e Android). Segundo o próprio Thom Yorke:

    PolyFauna is an experimental collaboration between us (Radiohead) & Universal Everything, born out of The King of Limbs sessions and using the imagery and the sounds from the song Bloom. It comes from an interest in early computer life-experiments and the imagined creatures of our subconscious.

A app consiste numa espécie universo audiovisual passível de ser visualmente explorado pelo utilizador (os grafismos são decididamente retro e fazem lembrar os primórdios da animação 3D nos computadores pessoais). Apesar de haver em PolyFauna coisas muito bem conseguidas (sobretudo o facto de a música e de o grafismo ser um desdobramento do trabalho minucioso que os Radiohead, o produtor Nigel Godrich e o designer Stanley Donwood desenvolveram em The King of Limbs), é de lamentar, em primeiro lugar, o timing absolutamente desastroso do lançamento (três anos depois do álbum? a sério?) e, em segundo lugar, a paupérrima jogabilidade da engenhoca. Em matéria de experiências videomusicais em apps, o Biophilia (2011) da Bjork continua insuperável e mesmo outros exemplos como o de Home dos The Suzan, BEP360 (2011) dos Black Eyed Peas ou Bullseye (2011) dos Poliphonic Spree parecem-me bem mais conseguidos do que este, apesar de tudo, simpático PolyFauna.

O importante, pelo menos para mim, é que continue a haver malta a explorar as (imensas) potencialidades da interactividade videomusical. E estou mesmo convencido que o grande contributo de Polyfauna pode mesmo ser a sua abordagem holística, isto é, o facto de o projecto envolver não apenas engenheiros e programadores informáticos mas também a banda, o produtor e o designer gráfico.

Björk: Biophilia app (2011)


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Há já quase uma semana que está disponível a mother app que acompanhará o lançamento de Biophilia da Björk. A aplicação-mãe (disponível para o iPhone e o iPad) é gratuita e inclui já um tema («Cosmogony») e já se encontra à venda (por €1,69) uma segunda aplicação com o tema «Crystaline» (cuja compra é sugerida ao longo da navegação pela aplicação-mãe).

Fiz o descarregamento da versão para o iPhone e, para já, a minha experiência tem sido bem estimulante. Biophilia é uma genuína viagem interactiva tridimensional que inclui, para além do tema, as letras, um jogo (bem conseguido e viciante), um ensaio do musicólogo Nikki Dibben e ainda um fascinante scrolling score que corresponde a uma versão animada de uma pauta musical. Como é óbvio, a experiência apenas ficará completa com o descarregamento dos restantes temas/aplicações, mas a coisa promete. Recomendo ainda a leitura dos textos de Alex Needham e Jenima Kiss no Guardian.

Vídeos musicais interactivos (mais dois exemplos)

Aqui estou eu para vos trazer dois novos exemplos de vídeos musicais interactivos (cliquem aqui para ver outros anteriormente referidos no blogue).

Hadag Nahash: Lo Maspik (Gal Muggia, 2010)
Este data do final do ano passado e é mais um belo conseguido exemplo de vídeo musical interactivo gravado a 360º: com o cursor o utilizador tem a possibilidade de fazer girar a câmara e assim ter uma visão periférica do vídeo.

Polyphonic Spree: Bullseye (Moonbot Studios, 2011)
Mais um vídeo musical sob a forma de uma app para iPod e iPad, que tira partido do touchscreen e do oscilómetro destes dispositivos da Apple. A app custa $1.99 e parece-me que esta tenderá a ser cada vez mais (ver o caso da Björk) uma forma eficaz de as bandas disponibilizarem os seus temas aos utilizadores, embora o modelo de negócio esteja ainda longe de se considerar lucrativo. Deixo de seguida um vídeo de apresentação deste video app musical.

Biophilia: vem aí mais uma série videomusical

A Björk tem uma reputação a defender no universo dos vídeos musicais ou não fosse a cantora islandesa senhora de uma das mais vibrantes videografias dos últimos 20 anos.

Pois bem, parece que Biophilia, o seu novo disco, vai ser simultaneamente lançado sob a forma de um álbum convencional e de uma série videomusical que consistirá num vídeo para cada uma das suas dez faixas (com um realizado por um dos meus realizadores favoritos: o grande Michel Gondry).

Adicionalmente, o disco e os vídeos também serão disponibilizados sob a forma de um pacote de 10 apps para o iPad. Cada uma dessas apps será interactiva e, pormenor fundamental, irão sendo constantemente actualizadas ao longo das primeiras semanas de edição do disco.

A seguir atentamente. A coisa promete.

Vídeos musicais interactivos II

Uma pequena actualização a este post sobre vídeos musicais interactivos. A lista nunca teve pretensões de exaustividade, mas como encontrei mais três exemplos recentes, aqui vão eles:

Andy Grammer, Keep Your Head Up (Interlude, 2010) [inacessível fora dos EUA]
Este vídeo foi interactivo e incitou à participação dos utilizadores na sua concepção. Pelos vistos (digo pelos vistos porque o raio do Vevo continua a estar inacessível fora dos EUA), o clipe continha dezenas de bifurcações narrativas que podiam ser escolhidas pelos utilizadores dando origem a centenas de resultados finais. Posteriormente, uma votação online determinou a sequência narrativa favorita dos utilizadores e o resultado final pode ser visto aqui.

Black Eyes Peas, BEP360 (Talent Media LLC, 2011)
Depois deste exemplo inaugural, surge agora um segundo vídeo musical sob a forma de uma aplicação para iPhone, iPod Touch e iPad. A qualidade do conceito desta app é inversamente proporcional à qualidade da medonha trilha sonora («The Time (Dirty Bit)») e consiste sobretudo na funcionalidade que permite ao utilizador de visualizar o vídeo em 360º, bastando para isso mover o seu dispositivo. A aplicação inclui ainda um pequeno jogo, a possibilidade (novamente em 360º) de tirar fotos ao cenário onde o clipe foi filmado, a ligação ao Twitter (chapeau pela manobra de disseminação) e a localização geográfica do utilizador (cruzes credo). Os Black Eyed Peas, como é óbvio, não brincam em serviço e contrariamente à aplicação dos The Suzan, esta custa €0,79. Confesso que, por imperativos académicos, fui (como dizer?) camelo e comprei a cena. Se desligarem o som, a experiência de fruição é verdadeiramente admirável. Eis uma pequena recensão / demonstração da coisa:


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Johnny Cash, Ain’t No Grave (Chris Milk, 2010-????)
O Johnny Cash Project é, muito provavelmente, o que de mais admirável já se fez com os vídeos musicais nas plataformas digitais. Um vídeo originalmente realizado por Chris Milk (que já tinha sido responsável por esta maravilha) foi decomposto em imagens (frames) é disponibilizado no portal do projecto onde os utilizadores podem a) desenhar in loco por cima da imagem que quiserem através de uma aplicação de desenho com uma paleta monocromática; b) submeter o seu desenho; c) classificar os desenhos submetidos por outros utilizadores; e d) fruir o vídeo musical a partir de diversos critérios (com os desenhos mais bem classificadas, as favoritas do realizador, segundo uma determinada técnica, aleatoriamente, etc).

Absolutamente admirável e um exemplo tremendo de interactividade ao serviço da cultura participativa, envolvendo um genuíno esforço de crowdsourcing artístico e de curadoria digital. Oxalá o projecto se prolongue indefinidamente, o que daria origem a uma obra verdadeiramente orgânica, múltipla e em plena e ininterrupta mutação. Apetece dizer que temos aqui o mais fabuloso corolário das potencialidades da convergência dos vídeos musicais nas plataformas digitais.

Curiosamente, existe um exemplo português precursor deste tipo de criação colaborativa comparável ao deste fabuloso projecto. «Bad Mirror» dos The Vicious Five (Luís Alegre, 2006) não envolveu o recurso às plataformas digitais, mas apenas a rede de amigos da banda. Podem ler uma entrevista ao líder da banda que explica a sua concepção aqui. O clipe, aviso já, é formidável ou não fosse um clássico absoluto da história dos vídeos musicais em Portugal.

Vídeos musicais para trazer no bolso

Duas notícias recentes relacionadas com o acesso móvel de vídeos musicais nas plataformas digitais:
- O Vevo, um portal de vídeos musicais que resulta de uma parceria (meia manhosa) entre a Sony, a Universal e a EMI, mas cujos conteúdos estão acessíveis fora do mercado norte-americano e canadiano através do YouTube, já tem uma versão da sua app para os dispositivos móveis que utilizam o Android. Para quem, como eu, não residir nos EUA ou no Canadá, o Anthem para o iPhone é uma alternativa eficaz e gratuita.
- O YouTube acaba de ultrapassar a barreira das 200 milhões de visualizações a partir de dispositivos móveis num único dia (crescimento de 300% face a 2010).

Vídeos musicais interactivos

Conforme tinha prometido, gostaria de dedicar este post ao actual estado de arte da interactividade dos vídeos musicais nas plataformas digitais. Volto a sublinhar a diferença entre os conceitos de interactividade e participação: o primeiro é iminentemente tecnológico e o segundo sócio-cultural. Os vídeos musicais são, na sua grande maioria, disponibilizados digitalmente em dezenas de portais de partilha de vídeo (com destaque para o YouTube e o Vimeo) que possuem tecnologias de interacção que os tornam (facto muitas vezes esquecido ou pouco sublinhado) em genuínas redes sociais que permitem a participação dos utilizadores através de comentários, recomendações, mecanismos de votação e, ainda, da possibilidade de manipularem criativamente esses mesmos vídeos musicais em exercícios que vão da paródia ao mashup. No entanto, tem-se verificado nos últimos anos uma tendência (ainda residual, é verdade, mas tendência) para a incorporação de tecnologias de interacção nos próprios objectos videomusicais, o que representa (mais) uma absoluta novidade relativamente ao estatuto do formato enquanto objecto televisivo.

Deixo-vos de seguida uma relação de alguns exemplos dessa nova esfera de interactividade. A lista, ordenada cronologicamente, não é, como é óbvio, exaustiva: tem apenas pretensões qualitativas e a sua selecção resulta do esforço de monitorização decorrente do meu trabalho de investigação ao Antville, a maior comunidade digital de fãs do formato. Eventuais sugestões de outros exemplos videomusicais interactivos são bem-vindas na caixa de comentários.

Arcade Fire, Neon Bible (Vincent Morisset, 2007)
Interactividade ao nível da imagem: clicar no rato em determinadas áreas do écran despoleta uma sequência visual pré-definida.

Arcade Fire, Black Mirror (Olivier Groulx & Tracy Maurice, 2008)
Interactividade ao nível sonoro. É facultada ao utilizador a possibilidade de, ao premir as teclas numéricas de 1 a 6, activar ou desactivar pistas sonoras da trilha musical.

Iggy Pop, King Of The Dogs (Patrick Boivin, 2009)
Interactivo ao nível da imagem com repercussões narrativas: num segmento videomusical anterior ao do próprio clipe é solicitada a escolha de um protagonista que depois origina a fruição (não interactiva) do vídeo musical. Resolvi incluir este clipe como um manifesto exemplo de ponto de fuga deste corpus: a interactividade não está imbebida no próprio objecto, mas apenas resulta das potencialidades tecnológicas do portal em que o vídeo está inserido (YouTube). Ver igualmente o YouTube Mosaic Music Video (Dennis Liu, 2009) para o tema «Sushi» de Kyle Andrews que contém imagens hiperligadas a 1.400.000 vídeos existentes no portal.

Cold War Kids, I’ve Seen Enough (Sam Jones, 2009)
Vídeo performativo com uma matriz interactiva 5×4 (som e imagem). O utilizador escolhe uma de quatro cores para cada um dos 4 músicos da banda. Cada cor corresponde ao estilo (acústico, rock, ska, electrónica) em que o músico toca o tema, sendo ainda possível desactivar a sua respectiva performance. No fundo, é possível fruir 625 (potência de base 5 elevado a 4) versões do vídeo musical.

MGMT, Electric Feel (Ray Tintori, 2008) [link inactivo]
Download de vídeo interactivo para um ambiente off-line, a partir do qual o utilizador pode criar a sua versão imagética do vídeo. Curiosamente, a hiperligação está inactiva e até um vídeo ilustrativo das suas potencialidades de interacção no YouTube está inacessível por questões de direitos de propriedade (o meu agradecimento à Sony Music). Este dado é importante, na medida em que nos alerta para uma das características da presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais: a sua volatilidade.

Black Moth Super Rainbow, Dark Bubbles (Radical Friend, 2009)
Interactividade ao nível da imagem. É possível definir o time-lapse (posição do Sol) do vídeo através do rato ou da webcam (movendo a mão ou outro objecto).

City & Color, Sleeping Sickness (Vincent Morisset, 2008)
Interactividade ao nível da imagem com possibilidade de zoom-in e zoom-out.

Abuat, Soy Tu Aire (Rafa Soto, Román Rodríguez & badabing!, 2009)
Interactividade ao nível da imagem. O rato assume o papel de um pincel que vai ilustrando o vídeo em movimento. Cada clique dá origem a padrões e/ou a imagens animadas.

Julian Perretta, Ride My Star (Blacionica & Zerofractal, 2009) [link inactivo]
Interactividade ao nível da imagem através do recurso à tecnologia de realidade aumentada. Depois de imprimir um documento PDF com uma moldura, o utilizador coloca essa impressão diante da câmara e o video é projectada sobre a imagem (realidade) captada pela mesma. Novamente, a hiperligação foi desactivada, mas podem ver um exemplo de interacção aqui.

Yeasayer, Ambling Alp (Radical Friend, 2009) [link inactivo]
Interactividade ao nível da imagem. O vídeo permite uma navegação a 360º ao longo de um plano-sequência. Mais uma vez, a hiperligação foi desactivada.

Arcade Fire, The Wilderness Downtown (Chris Milk, 2010)
Vídeo musical para o tema «We Used To Wait» da banda canadiana com interactividade ao nível da imagem. Após solicitar a identificação da rua onde o utilizador residiu durante a sua infância, as correspondentes imagens do Street View do Google Earth são integradas no vídeo via HTML 5. Mais detalhes sobre as inovações tecnológicas deste vídeo musical podem ser lidas aqui.

Sour, Mirror (Masashi Kawamura, 2010)
Interactividade ao nível da imagem. Integra num ambiente desktop, imagens do perfis do facebook e do Twitter do utilizador. Um vídeo que demonstra um dos possíveis resultados desta autêntica viagem videomusical pode ser visualizado aqui.

Au Revoir Simone, Knight of Wands (Eli Stonberg, 2010)
Interactividade ao nível da imagem: permite ao utilizador colorir um quadro representativo do cenário do vídeo musical.

The Suzan, Home (Pomp & Clout, 2010)
Interactividade ao nível da imagem. Este é, suponho, o primeiro vídeo musical disponível na App Store da Apple. A aplicação é grátis e, após o seu descarregamento no iPhone, permite a manipulação da componente imagética do vídeo por parte do utilizador a partir do dispositivo móvel. Uma demonstração pode ser visualizada aqui.

 

Algumas conclusões que se podem tirar deste corpus videomusical interactivo:
- A integração de tecnologias de interacção nos vídeos musicais confere uma dimensão lúdica que aproxima o formato dos jogos de vídeo;
- A referida integração implica, na maioria dos casos, a sua remoção do seu habitat natural: os portais de partilha de vídeos;
- Essa remoção diminui, paradoxalmente e de forma significativa, as possibilidades de participação dos seus utilizadores interactivos que deixam de poder comentar ou de aplicar a sua acção criativa em exercícios de remistura;
- Devido à sua remoção dos portais de partilha de vídeos, os vídeos musicais interactivos são particularmente voláteis (3 hiperligações desactivas num corpus de 14), o que impossibilita a sua disseminação por parte dos utilizadores;
- O corpus demonstra que os vídeos musicais são um formato com uma apetência rara para testar inovações tecnológicas ao nível da interacção (realidade aumentada, HTML 5);
- Em jeito de conclusão, a aplicação de tecnologias de interacção nos vídeos musicais detonam as possibilidades criativas dos seus criadores, cria possibilidades de interacção dos seus fruidores, mas reduz o seu campo de participação.

 

ADENDA: uma actualização a este post pode ser encontrada aqui.