
Conforme tinha prometido, gostaria de dedicar este post ao actual estado de arte da interactividade dos vídeos musicais nas plataformas digitais. Volto a sublinhar a diferença entre os conceitos de interactividade e participação: o primeiro é iminentemente tecnológico e o segundo sócio-cultural. Os vídeos musicais são, na sua grande maioria, disponibilizados digitalmente em dezenas de portais de partilha de vídeo (com destaque para o YouTube e o Vimeo) que possuem tecnologias de interacção que os tornam (facto muitas vezes esquecido ou pouco sublinhado) em genuínas redes sociais que permitem a participação dos utilizadores através de comentários, recomendações, mecanismos de votação e, ainda, da possibilidade de manipularem criativamente esses mesmos vídeos musicais em exercícios que vão da paródia ao mashup. No entanto, tem-se verificado nos últimos anos uma tendência (ainda residual, é verdade, mas tendência) para a incorporação de tecnologias de interacção nos próprios objectos videomusicais, o que representa (mais) uma absoluta novidade relativamente ao estatuto do formato enquanto objecto televisivo.
Deixo-vos de seguida uma relação de alguns exemplos dessa nova esfera de interactividade. A lista, ordenada cronologicamente, não é, como é óbvio, exaustiva: tem apenas pretensões qualitativas e a sua selecção resulta do esforço de monitorização decorrente do meu trabalho de investigação ao Antville, a maior comunidade digital de fãs do formato. Eventuais sugestões de outros exemplos videomusicais interactivos são bem-vindas na caixa de comentários.
Arcade Fire, Neon Bible (Vincent Morisset, 2007)
Interactividade ao nível da imagem: clicar no rato em determinadas áreas do écran despoleta uma sequência visual pré-definida.
Arcade Fire, Black Mirror (Olivier Groulx & Tracy Maurice, 2008)
Interactividade ao nível sonoro. É facultada ao utilizador a possibilidade de, ao premir as teclas numéricas de 1 a 6, activar ou desactivar pistas sonoras da trilha musical.
Iggy Pop, King Of The Dogs (Patrick Boivin, 2009)
Interactivo ao nível da imagem com repercussões narrativas: num segmento videomusical anterior ao do próprio clipe é solicitada a escolha de um protagonista que depois origina a fruição (não interactiva) do vídeo musical. Resolvi incluir este clipe como um manifesto exemplo de ponto de fuga deste corpus: a interactividade não está imbebida no próprio objecto, mas apenas resulta das potencialidades tecnológicas do portal em que o vídeo está inserido (YouTube). Ver igualmente o YouTube Mosaic Music Video (Dennis Liu, 2009) para o tema «Sushi» de Kyle Andrews que contém imagens hiperligadas a 1.400.000 vídeos existentes no portal.
Cold War Kids, I’ve Seen Enough (Sam Jones, 2009)
Vídeo performativo com uma matriz interactiva 5×4 (som e imagem). O utilizador escolhe uma de quatro cores para cada um dos 4 músicos da banda. Cada cor corresponde ao estilo (acústico, rock, ska, electrónica) em que o músico toca o tema, sendo ainda possível desactivar a sua respectiva performance. No fundo, é possível fruir 625 (potência de base 5 elevado a 4) versões do vídeo musical.
MGMT, Electric Feel (Ray Tintori, 2008) [link inactivo]
Download de vídeo interactivo para um ambiente off-line, a partir do qual o utilizador pode criar a sua versão imagética do vídeo. Curiosamente, a hiperligação está inactiva e até um vídeo ilustrativo das suas potencialidades de interacção no YouTube está inacessível por questões de direitos de propriedade (o meu agradecimento à Sony Music). Este dado é importante, na medida em que nos alerta para uma das características da presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais: a sua volatilidade.
Black Moth Super Rainbow, Dark Bubbles (Radical Friend, 2009)
Interactividade ao nível da imagem. É possível definir o time-lapse (posição do Sol) do vídeo através do rato ou da webcam (movendo a mão ou outro objecto).
City & Color, Sleeping Sickness (Vincent Morisset, 2008)
Interactividade ao nível da imagem com possibilidade de zoom-in e zoom-out.
Abuat, Soy Tu Aire (Rafa Soto, Román Rodríguez & badabing!, 2009)
Interactividade ao nível da imagem. O rato assume o papel de um pincel que vai ilustrando o vídeo em movimento. Cada clique dá origem a padrões e/ou a imagens animadas.
Julian Perretta, Ride My Star (Blacionica & Zerofractal, 2009) [link inactivo]
Interactividade ao nível da imagem através do recurso à tecnologia de realidade aumentada. Depois de imprimir um documento PDF com uma moldura, o utilizador coloca essa impressão diante da câmara e o video é projectada sobre a imagem (realidade) captada pela mesma. Novamente, a hiperligação foi desactivada, mas podem ver um exemplo de interacção aqui.
Yeasayer, Ambling Alp (Radical Friend, 2009) [link inactivo]
Interactividade ao nível da imagem. O vídeo permite uma navegação a 360º ao longo de um plano-sequência. Mais uma vez, a hiperligação foi desactivada.
Arcade Fire, The Wilderness Downtown (Chris Milk, 2010)
Vídeo musical para o tema «We Used To Wait» da banda canadiana com interactividade ao nível da imagem. Após solicitar a identificação da rua onde o utilizador residiu durante a sua infância, as correspondentes imagens do Street View do Google Earth são integradas no vídeo via HTML 5. Mais detalhes sobre as inovações tecnológicas deste vídeo musical podem ser lidas aqui.
Sour, Mirror (Masashi Kawamura, 2010)
Interactividade ao nível da imagem. Integra num ambiente desktop, imagens do perfis do facebook e do Twitter do utilizador. Um vídeo que demonstra um dos possíveis resultados desta autêntica viagem videomusical pode ser visualizado aqui.
Au Revoir Simone, Knight of Wands (Eli Stonberg, 2010)
Interactividade ao nível da imagem: permite ao utilizador colorir um quadro representativo do cenário do vídeo musical.
The Suzan, Home (Pomp & Clout, 2010)
Interactividade ao nível da imagem. Este é, suponho, o primeiro vídeo musical disponível na App Store da Apple. A aplicação é grátis e, após o seu descarregamento no iPhone, permite a manipulação da componente imagética do vídeo por parte do utilizador a partir do dispositivo móvel. Uma demonstração pode ser visualizada aqui.
Algumas conclusões que se podem tirar deste corpus videomusical interactivo:
- A integração de tecnologias de interacção nos vídeos musicais confere uma dimensão lúdica que aproxima o formato dos jogos de vídeo;
- A referida integração implica, na maioria dos casos, a sua remoção do seu habitat natural: os portais de partilha de vídeos;
- Essa remoção diminui, paradoxalmente e de forma significativa, as possibilidades de participação dos seus utilizadores interactivos que deixam de poder comentar ou de aplicar a sua acção criativa em exercícios de remistura;
- Devido à sua remoção dos portais de partilha de vídeos, os vídeos musicais interactivos são particularmente voláteis (3 hiperligações desactivas num corpus de 14), o que impossibilita a sua disseminação por parte dos utilizadores;
- O corpus demonstra que os vídeos musicais são um formato com uma apetência rara para testar inovações tecnológicas ao nível da interacção (realidade aumentada, HTML 5);
- Em jeito de conclusão, a aplicação de tecnologias de interacção nos vídeos musicais detonam as possibilidades criativas dos seus criadores, cria possibilidades de interacção dos seus fruidores, mas reduz o seu campo de participação.
ADENDA: uma actualização a este post pode ser encontrada aqui.
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