Entre as inúmeras virtudes de Michel Gondry (sem dúvida, o mais importante realizador de vídeos musicais dos últimos 20 anos e um dos grandes responsáveis pela emergência em meados da década de 90 do conceito de autoria no formato), conta-se o facto de ter sido, malgré lui, responsável pela melhor definição do estilo vernacular predominante na maioria dos conteúdos gerados pelos utilizadores (CGUs) que pululam na Web (entre os quais se incluem, obviamente, os vídeos musicais). Como não podia deixar de ser, essa definição não resultou de nenhum texto escrito, mas do leitmotiv de uma das suas obras mais importantes (e, paradoxalmente, mais menosprezadas) obras cinematográficas: Be Kind Rewind (2008).
A história do filme conta-se em duas penadas: os protagonistas (interpretados por Jack Black e Mos Def – não por acaso, dois proeminentes actores e artistas pop) são uma dupla de funcionários que inadvertidamente apagam todas as cassetes VHS do seu clube de vídeo. Para impedir a eminente falência do negócio, resolvem refilmar, sem orçamento, todos os filmes com a sua própria câmara. O resultado é uma sucessão de hilariantes recriações amadoras de clássicos de Hollywood como Rambo, Ghostbusters, The Lion King ou Robocop. Para grande surpresa dos protagonistas, estas recriações com 3 ou 4 minutos de duração vão ao encontro do gosto dos seus clientes e, para justificar a aparição destas novas versões, resolvem inventar como desculpa o facto de serem importadas da Suécia (Sweden), cunhando o termo sweded look para designar o seu estilo tosco e naïf (comparem, por exemplo, o trailer oficial do filme com a sua versão sweded criada pelo próprio Gondry e difundido exclusivamente na Web). Para além do facto de este sweded look corresponder ao que muitos autores posteriormente apodaram de YouTube Aesthetic, isto é, um estilo audiovisual cujas características estéticas são a curta duração, baixa-fidelidade, ausência de sofisticação e naïveté (1.1, KEAZOR et al. (eds.), 2010, pp. 16-18), o referido estilo ilustra igualmente a forma como a memória colectiva é reconstruída através da cultura popular:
Rather than being accurate copies of movies, what Gondry’s swedeing represents is a greater truth about our present-day film-going culture. Their transformations of a popular history of film functions as a record of responses to those films; their location in social memory. The creative forgery involved of course is significant to copyright issues, and whether or not something can really be regulated once it has become part of the lexicon, and thoroughly permeated popular culture. Certainly Michel Gondry is not dismissing the intellectual copyright of movies (which is the industry’s backbone). But our memories of them are collectively our own, and cannot be audited. They are ours, and they connect us historically through film. (2.1, KEER, 2009)
Que este importante conceito do sweded look tenha sido criado por um dos mais influentes directores de vídeos musicais de sempre, é mais um sinal a acrescentar a uma vasta galeria que comprova a importância do formato na actual paisagem mediática digital.

