Qual é a utilidade que um blogue pode ter no desenvolvimento de um projecto de investigação? Apesar de ser leitor, comentador e autor da blogoesfera desde 2004, não foi de ânimo leve que resolvi criar este blogue que terá necessariamente algumas características em comum e outras distintas dos com que tenho colaborado nos últimos sete anos.
Em primeiro lugar, convém não esquecer que a manutenção de um blogue de investigação tenderá a ser uma tarefa paralela ao principal exercício de escrita de qualquer projecto de investigação: o da redacção de uma tese. Dessa forma, manter um blogue com estas características implica um trabalho suplementar ao rol já considerável de tarefas que terão de ser conduzidas pelo investigador dentro de um determinado intervalo de tempo, sendo por isso imperioso prever a sua inclusão no cronograma do trabalho de investigação.
Em segundo lugar, a manutenção de um blogue não substitui a escrita da tese. Num cenário ideal, o mesmo poderá assumir uma dimensão complementar ao trabalho de investigação, mas é importante ter sempre em conta que a tese, em si, terá de ser sempre um objecto autónomo, inteiro, completo e distinto. Há aqui uma óbvia relação hierárquica: o blogue poderá fazer (ou não) sentido com a tese, mas o produto final da tese não poderá jamais depender do blogue para cumprir as diversas etapas da sua construção, como a definição da questão, hipóteses e objectivos de investigação ou a definição do seu modelo de análise.
Os investigadores, como é óbvio, têm uma consciência aguda destas condicionantes. A prova pode ser verificada no número escasso de blogues de investigação e de haver ainda menos os que, de facto, fazem jus ao nome. As principais formas de comunicação e divulgação de trabalho académico continuam a ser a publicação de artigos em revistas especializadas e a participação em congressos e colóquios. De resto, são estas as modalidades mais valorizadas pelas academias e pelas instituições que as avaliam. No meu caso particular, enquanto aluno de doutoramento, é particularmente visível este frenesim ou aptidão dos meus colegas para a publicação de artigos em revistas com peer review, renegando para um plano muito secundário as potencialidades de outras formas de disseminação de conhecimento científico potencializadas pelas plataformas digitais. Um doutorando é um aluno em constante avaliação e um dos principais critérios dessa avaliação, sobretudo nas ciências sociais, é o volume da sua produção científica convencionalmente legitimada pelos seus pares. Neste contexto, não se deverá estranhar que a manutenção de um blogue de investigação possa ser visto como uma futilidade pouco valorizada por parte do corpo docente e, por isso mesmo, pouco sedutor para um aluno. Não é por acaso que o verbete dedicado ao Trabalho Académico da versão portuguesa da Wikipedia não contemple sequer os blogues e que o da versão inglesa sobre Academic Writing renegue (de resto, de forma pouco inteligível) o género para uma categoria secundária de Personal Forms.
Perante este cenário, impõe-se a pergunta: por quê e para quê investir numa tarefa tão exigente como a manutenção de um blogue no contexto de um trabalho de investigação científica?
A resposta passa, em primeiro lugar, por tentarmos perceber o que é um blogue e quais são as suas potencialidades. Como não existe melhor maneira de entendermos o que é um blogue do que lê-los, posso de imediato assumir, sem grandes riscos, a existência de uma assinalável familiaridade do formato para a esmagadora maioria dos utilizadores da Internet e dos meus hipotéticos leitores. Os blogues são dos media mais notáveis que levaram ao cunho do termo Web 2.0 (ou Web participativa ou social), que marca o advento de tecnologias que permitem uma participação activa dos utilizadores na criação, difusão e curadoria de conteúdos digitais. Jill Walker Rettberg (2.2, RETTBERG, 2008, pp. 9-17) identifica 3 tipos (não exclusivos) de blogues: 1) os pessoais (personal or diary-style) – diários pessoais em que predomina a expressão da vivência do autor; 2) os curadores digitais (filterblogging) – filtros que seleccionam, através do recurso de hiperligações, conteúdos terceiros considerados relevantes para o(s) autor(es); e 3) os temáticos (topic-driven), que abordam assuntos que gravitam em torno de um determinado tópico ou assunto. Transpondo esta tipologia de géneros para um blogue de investigação, verifica-se que todas elas têm um potencial notável na disseminação não apenas do conhecimento científico, mas dos processos epistemológicos que conduzem à sua produção:
- um blogue de investigação lucra em ser pessoal, na medida em que a vivência da investigação é um dado epistemológico fundamental para os projectos que, como o meu, utilizam o método etnográfico como forma de operacionalização. O blogue permite, por exemplo, a disponibilização de reflexões e de instrumentos de investigação que estão excluídos da tese, como é o caso do diário de bordo.
- um blogue de investigação lucra em assumir-se como uma forma de curadoria digital na medida em que permite disponibilizar e discutir de forma imediata reflexões e estudos de outros autores que ainda não chegaram à Galáxia Gutemberg. Como exemplo, posso indicar que um dos pilares teóricos do meu projecto de investigação é o conceito de Spreadability (propagação) desenvolvido pelo Convergence Culture Consortium do MIT e disponibilizado em Fevereiro de 2009 no blogue de Henry Jenkins: a publicação de Spreadable Media: Creating Value in a Network Culture, a obra colectiva que reflectirá o trabalho desse relatório preliminar, está apenas prevista para meados de 2011, isto é, mais de dois anos depois da sua disponibilização no HTML.
- um blogue de investigação tende a ser necessariamente temático, na medida em que toda a sua produção gravitará em torno da questão de investigação e procurará contribuir para atingir os seus objectivos. No caso particular dos projectos que se enquadram num design qualitativo de investigação (2.2, CRISWELL, 1994, pp. 11-12), um blogue permite igualmente disponibilizar, de forma imediata, a selecção do corpus a partir do qual irá ser produzida a teoria fundamentada em dados (Grounded Theory) da investigação. Quando o objecto de estudo é a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais, o HTML possui virtudes como medium que, como é óbvio, escapam ao papel em que é impressa uma tese, como o facto (nada displicente) de permitir a visualização dos mesmos.
No entanto, como afirma Marie Laurie Ryan (2.2, RYAN, 2005), um blogue, para além de ser um medium, pode também ser visto como um tipo de texto (type of text), isto é, um género textual com características próprias que convirá identificar. Numa entrevista de 2001 citada por Jill Walker Rettberg (2.2, RETTBERG, 2008, p. 21) e, infelizmente, já não disponível online, Evan Williams, um dos fundadores do Blogger, enuncia três características da escrita dos blogues (ou blogging): a frequência, a brevidade e a personalidade. Novamente, estas características da escrita blogosférica podem ser uma mais-valia assinalável para um investigador na medida em que:
- a frequência obriga a um exercício quase diário de escrita: durante um trabalho de investigação, não são raros os casos em que o exercício de escrita se resume à redacção da tese, sobretudo se tivermos em conta que os artigos publicados em revistas especializadas resultam não raras vezes de adaptações de capítulos da mesma. A frequência de escrita potencializada pelos blogues obriga não apenas a um maior débito de escrita e de reflexão como liberta o investigador de convenções da escrita académica que, por vezes, podem ser um entrave ao livre fluir da escrita e do pensamento. A agilidade da escrita é um trunfo que reputo de fundamental para qualquer exercício de investigação científica, sobretudo no campo das ciências sociais;
- a brevidade força o investigador a uma maior capacidade de síntese e a uma maior explicitação de conceitos por vezes partilhados pela comunidade académica. Não raras vezes este exercício de explicitar conceitos básicos revela-se fundamental para a compreensão dos mesmos por parte do próprio investigador. A brevidade e a frequência obrigam igualmente o investigador a focalizar um determinado assunto de formas diversas, contribuindo para o seu domínio dos mesmos;
- a personalidade permite ao investigador incluir características estilísticas que não são consensualmente caucionadas ou sequer permitidas pelo universo académico, sob o pretexto da salvaguarda de supostos valores de gravitas, neutralidade ou objectividade. É a minha convicção que a produção, recepção e disseminação de conhecimento científico tem muito a lucrar com a heterodoxia de registos de escrita que incluam, por exemplo, a provocação, o humor ou a polémica.
Como já foi referido anteriormente, os blogues são igualmente um medium social, que fomenta a participação dos seus leitores através de comentários e que recorrem às hiperligações para entrar em permanente diálogo com outros autores da blogosfera que partilham os mesmos interesses. A definição de weblog do Oxford English Dictionary é particularmente feliz na forma como inclui esta dimensão social:
A frequently updated Web site consisting of personal observations, excerpts from other sources, etc., typically run by a single person and usually with hyperlinks to other sites.
Finalmente, este diálogo é particularmente salutar não apenas por ser potencialmente mais imediato do que o convencional circuito académico, como alarga de forma considerável o seu tipo de leitores. Como referi no post anterior, este último ponto é particularmente importante no caso do meu projecto de investigação, devido ao seu posicionamento epistemológico, herdado dos Web Studies 2.0, onde a noção de peer tende a libertar-se da exclusividade do mundo académico e a englobar uma audiência bem mais vasta:
[…] the fetishisation of ‘expert’ readings of media texts is replaced with a focus on the everyday meanings produced by the diverse array of audience members, accompanied by an interest in new qualitative research techniques […] [where] conventional research methods are replaced – or at least supplemented – by new methods which recognise and make use of people’s own creativity, and brush aside the outmoded notions of ‘receiver’ audiences and elite ‘producers’. (2.1, GAUNTLETT, 2007a)
Para terminar este post, que já vai longo e arrisca pôr em causa uma das características típicas da escrita blogosférica, duas breves notas finais:
1) Decidi redigir este blogue em Português pelo facto de não me conformar com a hipervalorização do Inglês como língua franca da comunidade científica. No caso das ciências da comunicação, os resultados estão bem à vista e senti-os logo numa fase inicial da minha investigação: uma ingénua desvalorização da qualidade do discurso face à ilusória universalidade de um conteúdo expresso muitas vezes em broken english, a proliferação de anglicanismos desnecessários em textos científicos escritos em Português e o consequente empobrecimento lexical da terminologia científica da nossa língua. Entre a qualidade do discurso e o hipotético alargamento do universo de leitores, a minha escolha recai, sem hesitações (e com uma dose saudável de realismo), para a primeira. Partilho, de resto, a opinião do linguista Nicholas Ostler, de que existem óbvios indicadores sociais, económicos e tecnológicos para crer que caminhamos (e ainda bem) para um futuro manifestamente multilingue.
2) Dediquei alguns meses a conferir um certo lastro a este blogue de forma a dar conta do actual estado da investigação. Nos separadores localizados na parte superior da página de entrada poderão encontrar informação e dados facilmente acessíveis que me pareceram poder ser úteis para alguns leitores: o design de investigação do projecto, a bibliografia, o corpus, um glossário e uma série de hiperligações que incluem estudos de cariz quantitativo e outros portais relacionados com o tema da investigação. Tenciono manter as mesmas sempre actualizadas e estar atento à eventuais sugestões.
Gostar disto:
Gosto Carregando...