Ena! Hiperligações!

1) A secção do blogue referente aos Estudos Quantitativos continua em permanente actualização. Desta vez, destaque para:
– uma série de infográficos do Search Engine Journal com dados recolhidos a partir de diversas fontes sobre a evolução dos media sociais (tomem lá um PDFzito e não digam que foram daqui);
– um relatório da ComScore, onde se comprova que o conteúdo mais consumido no YouTube pelos utilizadores norte-americanos no mês de Julho foi… pois é, o vídeo musical – 40% dessa malta viu pelo menos um vídeo musical no referido mês.
– um estudo do Bit.ly que demonstra que a “meia-vida” (é ir lá ler) de uma hiperligação no YouTube é 2,5 maior (7,4 horas) do que a média (3 horas). Este gráfico é giro e elucidativo:

2) Um interessantíssimo artigo de Pat Muchmore sobre notação musical ergótica (utilizo aqui o termo no sentido definido por Espen J. Aarseth), onde se comprova que ímpeto multimédia da criação e fruição musical remonta pelo menos ao séc. XV (Baude Cordier);

3) Um dos clássicos absolutos da música indie da década de 90 tem agora um videojogo em formato arcade.

4) Uma bela selecção de vídeos musicais da década de 80 pode ser acedida aqui. Reparem lá nesta passagem que está em total sintonia com os argumentos que tenho utilizado para justificar a pertinência do meu projecto de investigação:

Thanks to the ubiquity of social media, the music video has vaulted from curiosity to shiny new toy to killer app, an artist-controlled platform for launching talent into mass consciousness, judging by the overnight success of growing numbers of YouTube sensations.

5) Este livrinho tem muitas similitudes com o formato do vídeo musical. Descubram lá quantas e quais.

6) E pronto, para terminar, uma adenda a este post. Cortesia de duas das maiores estrelas da era digital dos vídeos musicais: os Ok Go e os Muppets. Oh yeah.

Dados sobre as práticas de consumo musical dos utilizadores das plataformas digitais (seguido de algumas reflexões sobre os mesmos)

O gráfico supra foi retirado de um importante estudo recentemente disponibilizado pela Nielsen intitulado The Hyper-Fragmented World of Music (aproveito para lembrar que a página do blogue com referências a estudos quantitativos continua em permanente actualização). O referido estudo foi feito a partir de uma amostra de 26.664 utilizadores em 53 mercados globais em Setembro de 2010 e este seu gráfico representa as respostas relativas a um conjunto de práticas típicas dos referidos utilizadores que consumiram música nos últimos 3 meses (Julho a Setembro de 2010). Entre as diversas conclusões que se podem tirar, destaco algumas que me interessam particularmente:

- O tipo de consumo de música mais praticado pelos utilizadores foi o da fruição de vídeos musicais a partir de um terminal fixo de acesso à Web (57%);
– Em quarto lugar, surge o mesmo tipo de fruição referido no ponto anterior a partir de um dispositivo móvel de acesso à Web (20%);
– No total (soma dos dois pontos anteriores), 77% dos utilizadores fruíram vídeos musicais na Web;
– A fruição videomusical é cerca de 3 vezes superior aos que descarregam legalmente música nas plataformas digitais e aproximadamente 50% superior aos que descarregaram um tema musical da Web sem pagar pelo mesmo.

Finalmente, outro gráfico incluído no estudo demonstra que, apesar de ser visível um decréscimo do consumo videomusical na Web à medida que se avança nos escalões etários dos utilizadores, a prática possui uma assinalável penetração em todos os grupos etários:

Este estudo demonstra de forma eloquente não apenas a importância dos vídeos musicais nas práticas de consumo musical dos utilizadores das plataformas digitais, mas sobretudo uma manifesta tendência desse consumo deixar de ser apenas musical (sons) mas videomusical (sons e imagens). Tudo isto, como é óbvio, já era algo que tinha vindo a sentir empiricamente nos últimos 5 anos (e foi um dos motivos que me levaram a enveredar pelo meu projecto de investigação), mas este é o primeiro estudo que o demonstra de uma forma categórica e com valores que, confesso, não deixaram de me surpreender pela sua amplitude.

No entanto, gostaria ainda de acrescentar duas (importantes) observações sobre o estudo da Nielsen.

A primeira prende-se com o título escolhido para o estudo: The Hyper-Fragmented World of Music. Na minha opinião, os dados não justificam o título hiperbólico. Em primeiro lugar, porque é patente uma convergência maciça para a fruição videomusical dos utilizadores das plataformas digitais (repito: 77%); em segundo lugar, porque na página 7 do estudo, é referido o facto de o YouTube representar mais de 50% dos acessos a portais de partilha de vídeos musicais em mercados como o dos Estados Unidos, Espanha, Itália e Brasil. Ou seja, a fragmentação está longe de ser “hyper” e, muito pelo contrário, tende para uma uniformização em torno de uma prática bem específica: o consumo musical dos utilizadores das plataformas digitais tende a ser videomusical e no YouTube.

A segunda observação é mais subtil, mas igualmente significativa. O estudo demonstra que o consumo de música nas plataformas digitais é, hoje em dia, e tudo indica que o continuará a sê-lo no futuro, manifestamente um consumo multimédia. Recorrendo a Jamie Sexton, entendo por consumo musical multimédia todas as instâncias em que a música surge integrada em sistemas mediáticos mais abrangentes, isto é, as situações em que a música não é apenas fruída a partir da audição, mas através do recurso a outras fontas sensoriais como, neste caso, a visão (1.2, SEXTON (ed.), 2007, p. 4).

Ora isto, meus amigos, não é novidade nenhuma.

Como afirma Nicolas Cook, a música jamais surge isolada aos seus potenciais consumidores e a sua fruição emerge sempre da sua relação com outros media (1.2, COOK, 2000, pp. 121-122). A tentativa de concentração dos ouvintes no som sem interferências (visuais ou outras) é, de resto, um fenómeno relativamente recente engendrado pelas tecnologias de gravação. No entanto, se o surgimento dos auscultadores (headphones) pode ser encarado como um esforço para reduzir a interferência de outros estímulos sensoriais na matéria musical, a verdade é que um consumo meramente auditivo da música é utópico. Nos concertos, por exemplo, fruímos a música através da audição (matéria sonora), da visão (performance, aparato cénico, luzes do palco, etc.), do tacto (temperatura e humidade da sala, contacto com outros espectadores, dança, etc.), do olfacto (odor da sala e corporal) e através da configuração do nosso palato. Mesmo em casa, com uns auscultadores e os olhos fechados, a fruição tenderá sempre a ser multimédia: a mera posição do nosso corpo (sentado, deitado ou de pé) terá uma influência tactil na nossa fruição musical.

Desta forma, a novidade não está no facto das plataformas digitais terem trazido uma experiência multimédia na fruição musical, mas sim no facto de fazer convergir tecnologicamente a inevitável fruição multimédia da música para a videomusicalidade, o que é bem diferente. Mais: todos nós sabemos que, ao nível da recepção, e devido às nossas práticas de multitasking, muitas vezes apenas fruimos a componente sonora de um vídeo musical quando, por exemplo, abrimos uma janela do YouTube, fazemos PLAY no vídeo e depois voltamos para o processador de texto onde estávamos a trabalhar. Isto é: a fruição musical continua a ser multimédia (é bem diferente, por exemplo, ouvir os Low quando estamos a trabalhar na redacção de uma tese ou a ler um blogue), mas a componente visual que participa nessa fruição pode perfeitamente não pertencer ao vídeo musical. De resto, existem muitos vídeos musicais que convidam a esta “fuga”, quando, por exemplo, a sua componente visual limita-se à reprodução da capa do álbum do tema que estamos a fruir. No entanto, este último aspecto apenas poderá trazer alguma precaução (o que é sempre recomendável) na leitura do estudo, mas, na minha opinião, não chega a beliscar a eloquência das suas conclusões.

NOTA: o meu agradecimento ao Hilário Amorim por me ter feito chegar este importante estudo. Afinal, foi também a pensar neste tipo tão valioso de colaboração que criei o blogue.

Vídeos musicais para trazer no bolso

Duas notícias recentes relacionadas com o acesso móvel de vídeos musicais nas plataformas digitais:
– O Vevo, um portal de vídeos musicais que resulta de uma parceria (meia manhosa) entre a Sony, a Universal e a EMI, mas cujos conteúdos estão acessíveis fora do mercado norte-americano e canadiano através do YouTube, já tem uma versão da sua app para os dispositivos móveis que utilizam o Android. Para quem, como eu, não residir nos EUA ou no Canadá, o Anthem para o iPhone é uma alternativa eficaz e gratuita.
– O YouTube acaba de ultrapassar a barreira das 200 milhões de visualizações a partir de dispositivos móveis num único dia (crescimento de 300% face a 2010).