Actualizações e acrescentos

Aproveitei a mudança de template para concluir uma série de actualizações e acrescentos às paginas do blogue (acessíveis no menu localizado na zona superior da interface). Em primeiro lugar, actualizei a bibliografia, a videografia musical e o glossário que não deverão sofrer mais alterações até ao final do projecto (caso haja, eu aviso). Em segundo lugar, acrescentei uma sub-página à página relativa do design de investigação, que consiste numa brevíssima apresentação do modelo conceptual de difusão dos vídeos musicais na Web Social. Na medida em que o referido modelo conceptual consiste num dos mais importantes corolários da investigação, tenciono desenvolver a sua explicitação e explicação numa série de posts ao longo das próximas semanas. Como diria o outro, toll the bell, pay the private eye / all’s well, twentieth century dies.

Pequena nota

Apenas para informar os interessados (há pessoas para tudo), que concluí finalmente a actualização da página Epistémè do blogue, face à recente reformulação do design de investigação. Todas as subpáginas foram alteradas e ainda foi acrescentada uma nova relativa ao corpus epistemológico da investigação.

Para uma análise textual da videomusicalidade digital

Uma das questões centrais da operacionalização do meu projecto de investigação prende-se com a análise e codificação do recorte qualitativo de vídeos musicais que forma o seu corpus. Apesar de já ter analisado inúmeros vídeos musicais neste blogue, gostaria agora de conceptualizar de forma mais abstracta e detalhada a metodologia preconizada na investigação. Ou seja, isto promete ser chato. Depois não venham dizer que não vos avisei.

Uma análise da videomusicalidade parte sempre de duas importantes evidências:

• os vídeos musicais são um formato audiovisual complexo, isto é, uma amálgama intricada de imagens, sons e matéria verbal que utiliza uma vasta gama de técnicas de representação nos seus processos de significação (1.1 VERNALLIS 2004: 10);

• não existe nenhum método de análise e codificação de vídeos musicais (ou de qualquer outro material audiovisual) que consiga produzir uma réplica fiel do objecto ou que faça totalmente jus à sua complexidade (2.1 BERNSTEIN 1995).

Tendo em mente estas importantes condicionantes, optou-se ao longo da investigação por uma tradução textual dos dados videomusicais através de um processo descritivo e dialéctico, que teve sempre em conta o facto de o referido processo possuir um enorme potencial para ser simplificador e redutor (2.1 ROSE 2010: 246). Desta forma, a tradução textual de um vídeo musical produz uma série de textos, cuja análise produzirá, por sua vez, um discurso que consiste num sistema de dispersão em que as suas diferentes partes (textos) se inter-relacionam (2.2 FOUCAULT 1972: 37). Dito de outra forma, os processos de tradução e análise textual não produzem cópias fiéis do objecto videomusical, mas geram, através de uma relação descritiva e dialéctica com o objecto (2.1 ROSE 2010: 246), uma nova entidade (discurso) que coloca em sintaxe os textos produzidos.

A configuração teorética de conteúdos audiovisuais como textos e das suas audiências como leitores tem vindo a ser utilizada com resultados assinaláveis por diversos investigadores desde o trabalho inovador de John Fiske (1.1 FISKE 1987-1992), Stuart Hall (2.1 HALL 1992), David Morley (2.1 MORLEY 1992) e Andrew Goodwin (1.1 GOODWIN 1992). Estas importantes referências teóricas fizeram com que, como se verá no terceiro capítulo, a tradução e análise textual dos vídeos musicais na Web Social privilegiasse uma abordagem epistémica transdisciplinar entre algumas tendências mais recentes dos Web Studies e algumas ferramentas teóricas dos Estudos Literários, oriundas de disciplinas como a narratologia (2.1 PROPP 1992) ou a transtextualidade (2.1 GENETTE 1982).

Desta forma, o processo de tradução textual de vídeos musicais digitais utilizado no projecto de investigação tende a produzir um discurso que procura sempre ter em conta as seguintes observações:

• os vídeos musicais são potencialmente constituídos por três tipos de texto: letra, música e imagens (1.1 COOK 1998);

• os vídeos musicais são produzidos por uma série potencialmente vasta de autores (músicos, produtores, fãs, etc.) que se configuram como utilizadores das plataformas digitais (1.1 SCHMIDT et al. 2010; 1.1 SIBILLA 2010);

• os textos videomusicais são lidos e difundidos pelas plataformas digitais por uma audiência activa que pode realizar durante os seus processos de fruição uma potencialmente vasta série de leituras:

sinestésicas entre os textos que formam o vídeo musical (1.1 GOODWIN 1992; 1.1 WILLIAMS 2001);
transtextuais entre diferentes vídeos musicais (2.1 GENETTE 1982); e
transmediáticas entre os vídeos musicais e outros formatos mediáticos (1.1 COOK 1998; 2.1 ROSE 2011);

• a distinção entre autores e leitores dos textos videomusicais surge esbatida devido às possibilidades participativas da Web Social (2.1 JENKINS 2006a) e a natureza producente dos próprios textos videomusicais (1.1 FISKE 1987: 251).

Sobre a operacionalização da aplicação da teoria fundamentada em dados ao método etnográfico no campo de estudo dos media digitais: uma pequena bibliografia

Tendo andado meio arredado destas paragens. E porquê? Porque resolvi finalmente aprofundar o design do meu projecto de investigação, sobretudo a parte relativa aos métodos de operacionalização.

Durante algum tempo, optei por ignorar algumas observações ou críticas que me foram apontadas não apenas na defesa do projecto de investigação como nos seminários do programa doutoral. No entanto, à medida em que avançava na redacção do terceiro capítulo da tese, percebi que havia imensa informação, pressupostos epistemológicos e opções metodológicas que não estavam devidamente explicitadas no sub-capítulo dedicado ao design de investigação.

Por isso, há cerca de dois meses, resolvi encher-me de coragem e iniciar uma re-escrita dessa parte da tese. Deu (e ainda está a dar) imenso trabalho, claro, mas valeu a pena. Neste momento, estou na fase final da redacção do referido sub-capítulo e a luz ao fundo do túnel já se transformou num genuíno farol: das 5 páginas originalmente dedicadas ao tema, já vou perto das duas dezenas. Para os eventualmente interessados em aprofundar a (importantíssima) questão da operacionalização da aplicação da teoria fundamentada em dados (grounded theory) ao método etnográfico no campo de estudo dos media digitais, deixo aqui a lista das principais obras que consultei (e que, culpa mea, não resisti a adquirir) nos últimos dois meses.

Naturalmente, é expectável que a secção do blogue dedicada ao design de investigação venha a sofrer algumas profundas alterações nas próximas semanas. Mas, para já, vamos à listinha. Oxalá alguém faça bom proveito da mesma.

Continuar a ler

Das muitas formas de designar um objecto de estudo

Tagcloud das designações atribuídas ao objecto de estudo pelos autores da primeira vaga (1983-1993)

 

A figura supra (que foi cozinhada aqui) consiste numa tagcloud que representa as diferentes formas que os autores da primeira vaga da bibliografia dedicada ao vídeo musical (1983-1993) utilizaram para referir o seu objecto de estudo, correspondendo o tamanho e a intensidade da cor das designações à sua respectiva incidência. A ideia da figura surgiu-me ao longo da leitura dos diversos textos da selecção bibliográfica que fui construindo e na qual me fui apercebendo que diversos autores utilizavam por vezes formas distintas para referir o mesmo objecto de estudo (o vídeo musical). A elaboração da figura implicou a redacção prévia de um texto em que fui acrescentado as diversas designações, correspondendo o número de vezes que cada uma surge com o número de artigos ou obras onde as mesmas são utilizadas. Este trabalho foi bastante moroso porque tive que repetir esta operação para a totalidade da quase centena de referências compreendidas entre 1983 e 1993 presentes nos pontos 1.1 e 1.2 da bibliografia. Sou assim, um gajo neurótico com propensão para tarefas absurdas.

Ou nem tanto quanto isso (não estou a falar da minha neurose, mas do absurdo da tarefa). Isto porque a figura acaba por tornar visível uma série de factos que fui verificando ao longo do trabalho de pesquisa. Se repararmos bem na figura, a mesma demonstra que:

i) a perplexidade que o vídeo musical provocou num vasto conjunto de autores que utilizaram 14 designações distintas para designar um objecto de estudo comum;
ii) a tendência, verificável no léxico, dos autores valorizarem, por ordem decrescente, a sua componente visual (6 x video + 1 x wallpaper), promocional (2 x promo + 2 x promotional + 1 x commercial), musical (3 x music + 2 x rock) e popular (2 x pop); e
iii) uma tendência para a consagração do termo music video (vídeo musical) na designação do formato.

Pode parecer pouco, mas não é.