Actualizações e acrescentos

Aproveitei a mudança de template para concluir uma série de actualizações e acrescentos às paginas do blogue (acessíveis no menu localizado na zona superior da interface). Em primeiro lugar, actualizei a bibliografia, a videografia musical e o glossário que não deverão sofrer mais alterações até ao final do projecto (caso haja, eu aviso). Em segundo lugar, acrescentei uma sub-página à página relativa do design de investigação, que consiste numa brevíssima apresentação do modelo conceptual de difusão dos vídeos musicais na Web Social. Na medida em que o referido modelo conceptual consiste num dos mais importantes corolários da investigação, tenciono desenvolver a sua explicitação e explicação numa série de posts ao longo das próximas semanas. Como diria o outro, toll the bell, pay the private eye / all’s well, twentieth century dies.

Pequena nota

Apenas para informar os interessados (há pessoas para tudo), que concluí finalmente a actualização da página Epistémè do blogue, face à recente reformulação do design de investigação. Todas as subpáginas foram alteradas e ainda foi acrescentada uma nova relativa ao corpus epistemológico da investigação.

Para uma análise textual da videomusicalidade digital

Uma das questões centrais da operacionalização do meu projecto de investigação prende-se com a análise e codificação do recorte qualitativo de vídeos musicais que forma o seu corpus. Apesar de já ter analisado inúmeros vídeos musicais neste blogue, gostaria agora de conceptualizar de forma mais abstracta e detalhada a metodologia preconizada na investigação. Ou seja, isto promete ser chato. Depois não venham dizer que não vos avisei.

Uma análise da videomusicalidade parte sempre de duas importantes evidências:

• os vídeos musicais são um formato audiovisual complexo, isto é, uma amálgama intricada de imagens, sons e matéria verbal que utiliza uma vasta gama de técnicas de representação nos seus processos de significação (1.1 VERNALLIS 2004: 10);

• não existe nenhum método de análise e codificação de vídeos musicais (ou de qualquer outro material audiovisual) que consiga produzir uma réplica fiel do objecto ou que faça totalmente jus à sua complexidade (2.1 BERNSTEIN 1995).

Tendo em mente estas importantes condicionantes, optou-se ao longo da investigação por uma tradução textual dos dados videomusicais através de um processo descritivo e dialéctico, que teve sempre em conta o facto de o referido processo possuir um enorme potencial para ser simplificador e redutor (2.1 ROSE 2010: 246). Desta forma, a tradução textual de um vídeo musical produz uma série de textos, cuja análise produzirá, por sua vez, um discurso que consiste num sistema de dispersão em que as suas diferentes partes (textos) se inter-relacionam (2.2 FOUCAULT 1972: 37). Dito de outra forma, os processos de tradução e análise textual não produzem cópias fiéis do objecto videomusical, mas geram, através de uma relação descritiva e dialéctica com o objecto (2.1 ROSE 2010: 246), uma nova entidade (discurso) que coloca em sintaxe os textos produzidos.

A configuração teorética de conteúdos audiovisuais como textos e das suas audiências como leitores tem vindo a ser utilizada com resultados assinaláveis por diversos investigadores desde o trabalho inovador de John Fiske (1.1 FISKE 1987-1992), Stuart Hall (2.1 HALL 1992), David Morley (2.1 MORLEY 1992) e Andrew Goodwin (1.1 GOODWIN 1992). Estas importantes referências teóricas fizeram com que, como se verá no terceiro capítulo, a tradução e análise textual dos vídeos musicais na Web Social privilegiasse uma abordagem epistémica transdisciplinar entre algumas tendências mais recentes dos Web Studies e algumas ferramentas teóricas dos Estudos Literários, oriundas de disciplinas como a narratologia (2.1 PROPP 1992) ou a transtextualidade (2.1 GENETTE 1982).

Desta forma, o processo de tradução textual de vídeos musicais digitais utilizado no projecto de investigação tende a produzir um discurso que procura sempre ter em conta as seguintes observações:

• os vídeos musicais são potencialmente constituídos por três tipos de texto: letra, música e imagens (1.1 COOK 1998);

• os vídeos musicais são produzidos por uma série potencialmente vasta de autores (músicos, produtores, fãs, etc.) que se configuram como utilizadores das plataformas digitais (1.1 SCHMIDT et al. 2010; 1.1 SIBILLA 2010);

• os textos videomusicais são lidos e difundidos pelas plataformas digitais por uma audiência activa que pode realizar durante os seus processos de fruição uma potencialmente vasta série de leituras:

sinestésicas entre os textos que formam o vídeo musical (1.1 GOODWIN 1992; 1.1 WILLIAMS 2001);
transtextuais entre diferentes vídeos musicais (2.1 GENETTE 1982); e
transmediáticas entre os vídeos musicais e outros formatos mediáticos (1.1 COOK 1998; 2.1 ROSE 2011);

• a distinção entre autores e leitores dos textos videomusicais surge esbatida devido às possibilidades participativas da Web Social (2.1 JENKINS 2006a) e a natureza producente dos próprios textos videomusicais (1.1 FISKE 1987: 251).

Sobre a operacionalização da aplicação da teoria fundamentada em dados ao método etnográfico no campo de estudo dos media digitais: uma pequena bibliografia

Tendo andado meio arredado destas paragens. E porquê? Porque resolvi finalmente aprofundar o design do meu projecto de investigação, sobretudo a parte relativa aos métodos de operacionalização.

Durante algum tempo, optei por ignorar algumas observações ou críticas que me foram apontadas não apenas na defesa do projecto de investigação como nos seminários do programa doutoral. No entanto, à medida em que avançava na redacção do terceiro capítulo da tese, percebi que havia imensa informação, pressupostos epistemológicos e opções metodológicas que não estavam devidamente explicitadas no sub-capítulo dedicado ao design de investigação.

Por isso, há cerca de dois meses, resolvi encher-me de coragem e iniciar uma re-escrita dessa parte da tese. Deu (e ainda está a dar) imenso trabalho, claro, mas valeu a pena. Neste momento, estou na fase final da redacção do referido sub-capítulo e a luz ao fundo do túnel já se transformou num genuíno farol: das 5 páginas originalmente dedicadas ao tema, já vou perto das duas dezenas. Para os eventualmente interessados em aprofundar a (importantíssima) questão da operacionalização da aplicação da teoria fundamentada em dados (grounded theory) ao método etnográfico no campo de estudo dos media digitais, deixo aqui a lista das principais obras que consultei (e que, culpa mea, não resisti a adquirir) nos últimos dois meses.

Naturalmente, é expectável que a secção do blogue dedicada ao design de investigação venha a sofrer algumas profundas alterações nas próximas semanas. Mas, para já, vamos à listinha. Oxalá alguém faça bom proveito da mesma.

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Das muitas formas de designar um objecto de estudo

Tagcloud das designações atribuídas ao objecto de estudo pelos autores da primeira vaga (1983-1993)

 

A figura supra (que foi cozinhada aqui) consiste numa tagcloud que representa as diferentes formas que os autores da primeira vaga da bibliografia dedicada ao vídeo musical (1983-1993) utilizaram para referir o seu objecto de estudo, correspondendo o tamanho e a intensidade da cor das designações à sua respectiva incidência. A ideia da figura surgiu-me ao longo da leitura dos diversos textos da selecção bibliográfica que fui construindo e na qual me fui apercebendo que diversos autores utilizavam por vezes formas distintas para referir o mesmo objecto de estudo (o vídeo musical). A elaboração da figura implicou a redacção prévia de um texto em que fui acrescentado as diversas designações, correspondendo o número de vezes que cada uma surge com o número de artigos ou obras onde as mesmas são utilizadas. Este trabalho foi bastante moroso porque tive que repetir esta operação para a totalidade da quase centena de referências compreendidas entre 1983 e 1993 presentes nos pontos 1.1 e 1.2 da bibliografia. Sou assim, um gajo neurótico com propensão para tarefas absurdas.

Ou nem tanto quanto isso (não estou a falar da minha neurose, mas do absurdo da tarefa). Isto porque a figura acaba por tornar visível uma série de factos que fui verificando ao longo do trabalho de pesquisa. Se repararmos bem na figura, a mesma demonstra que:

i) a perplexidade que o vídeo musical provocou num vasto conjunto de autores que utilizaram 14 designações distintas para designar um objecto de estudo comum;
ii) a tendência, verificável no léxico, dos autores valorizarem, por ordem decrescente, a sua componente visual (6 x video + 1 x wallpaper), promocional (2 x promo + 2 x promotional + 1 x commercial), musical (3 x music + 2 x rock) e popular (2 x pop); e
iii) uma tendência para a consagração do termo music video (vídeo musical) na designação do formato.

Pode parecer pouco, mas não é.

Sobre a bibliografia dedicada aos vídeos musicais

Tenho andado nas últimas semanas a trabalhar na redacção de um primeiro capítulo (que será o segundo da tese) intitulado O vídeo musical como objecto de estudo, no qual pretendo fazer uma abordagem crítica sobre a mais importante bibliografia publicada sobre o formato nos últimos 30 anos. A tarefa tem sido hercúlea e, confesso, menosprezei durante alguns meses a sua envergadura. Em primeiro lugar porque, apesar da produção de literatura especializada ser relativamente escassa se comparada com a importância de um formato influenciou de forma tão profunda a cultura popular, a publicidade, o cinema, a televisão e actualmente a paisagem mediática digital, a verdade é que, nos primeiros 5 anos (1983-1988), a mesma teve uma produção vertiginosa, dando origem, como afirmou Simon Frith, a «more scholarly nonsense than anything since punk» (1.1, FRITH, 1988, p. 205), o que, forçosamente, implicou um por vezes penoso exercício crítico de leitura e selecção. Em segundo lugar, porque, para grande surpresa minha, detectei uma tendência histórica para algumas obras importantes estarem praticamente arredadas da rede de referências bibliográficas da maioria dos autores. Dito de outro modo: com a excepção dos primeiros anos, os diferentes autores que se dedicaram ao estudo do vídeo musical manifestam um flagrante desconhecimento da obra dos seus pares. Tal poderá ser explicado em parte pelo contexto de uma produção académica que apenas nos últimos anos soube tirar proveito das potencialidades de pesquisa das plataformas digitais; pelo facto de esses mesmos autores serem oriundos de áreas de investigação distintas; e, inclino-me sobretudo para esta última hipótese, pelo crescente desinteresse que, nos últimos anos, o vídeo musical foi sofrendo por parte da comunidade científica. O resultado é o facto de haver obras importantes como as de Serge Denisoff (1.2, DENISOFF, 1988), Jack Banks (1.1, BANKS, 1996) ou Kevin Williams (1.1, WILLIAMS, 2003) cuja pesquisa e labor teórico praticamente não foi alvo de um posterior aproveitamento (ou sequer reflexão) por parte da comunidade científica, o que, naturalmente, dificultou não apenas a identificação das referidas obras como a sua simples obtenção (aqui tem-me valido muito o mercado de livros usados da Amazon). Como é óbvio, para alguém como eu que tem tentado traçar um percurso crítico e diacrónico das reflexões teóricas sobre o formato, esses dois factores representam um obstáculo considerável (que exigiu uma quantidade de tempo que superou as minhas expectativas mais pessimistas) para reunir um corpus bibliográfico completo que é fundamental para o enquadramento teórico da construção do meu modelo de análise.

No entanto, nem tudo são más notícias e posso afirmar hoje, com um elevado grau de segurança, que consegui reunir aqui (ver pontos 1.1 e 1.2) a mais completa selecção bibliográfica qualitativa sobre o vídeo musical disponível na Web (não é por acaso que a referida página é mais acedida do blogue). Termino com um pequeno gráfico que demonstra a evolução do número de referências que tenho reunido (e actualmente usado na escrita do referido capítulo da tese) ao longo dos últimos 16 meses. E fica a lição: um investigador jamais deve menosprezar o esforço e a quantidade de tempo que irá despender naquilo que os académicos gostam de apodar como a definição do estado de arte. Sobretudo quando o seu objecto de estudo tem sido dos mais menosprezados pelos seus pares.

Visual Methodologies (Gillian Rose, 2007)

É uma pena este livro ter-me chegado tão tarde às mãos. Visual Methodologies de Gillian Rose (2.1, ROSE, 2007) é um fabuloso compêndio que apresenta de forma crítica diferentes abordagens metodológicas para o estudo de imagens (fixas ou em movimento). Da interpretação composicional à análise de conteúdo, passando pela semiologia, a psicanálise, a análise discursiva, o estudo de audiências e a abordagem antrolopológica, este autêntico manual expõe com clareza as virtudes e limitações de um amplo leque de opções metodológicas ao dispor dos estudiosos do oculocentrismo que caracteriza a cultura visual dos nossos dias. Apesar de não abordar a predominância da cultura audiovisual (e videomusical) nas plataformas digitais, a obra tem sido um instrumento muito útil para o meu projecto de investigação, sobretudo pela forma muito pertinente como enquadra a importância da intertextualidade na análise dos discursos (imagens e textos) e por caucionar de forma inequívoca a importância de um esforço interdisciplinar com os Estudos Literários na abordagem epistémica da cultura visual. Tudo isto através de uma linguagem sóbria, concisa e extremamente acessível, fornecendo ainda (facto fundamental) um vasto conjunto de referências bibliográficas e de casos de estudo. Altamente recomendável e disponível no sítio do costume.

Das potencialidades de um blogue num projecto de investigação

Qual é a utilidade que um blogue pode ter no desenvolvimento de um projecto de investigação? Apesar de ser leitor, comentador e autor da blogoesfera desde 2004, não foi de ânimo leve que resolvi criar este blogue que terá necessariamente algumas características em comum e outras distintas dos com que tenho colaborado nos últimos sete anos.

Em primeiro lugar, convém não esquecer que a manutenção de um blogue de investigação tenderá a ser uma tarefa paralela ao principal exercício de escrita de qualquer projecto de investigação: o da redacção de uma tese. Dessa forma, manter um blogue com estas características implica um trabalho suplementar ao rol já considerável de tarefas que terão de ser conduzidas pelo investigador dentro de um determinado intervalo de tempo, sendo por isso imperioso prever a sua inclusão no cronograma do trabalho de investigação.

Em segundo lugar, a manutenção de um blogue não substitui a escrita da tese. Num cenário ideal, o mesmo poderá assumir uma dimensão complementar ao trabalho de investigação, mas é importante ter sempre em conta que a tese, em si, terá de ser sempre um objecto autónomo, inteiro, completo e distinto. Há aqui uma óbvia relação hierárquica: o blogue poderá fazer (ou não) sentido com a tese, mas o produto final da tese não poderá jamais depender do blogue para cumprir as diversas etapas da sua construção, como a definição da questão, hipóteses e objectivos de investigação ou a definição do seu modelo de análise.

Os investigadores, como é óbvio, têm uma consciência aguda destas condicionantes. A prova pode ser verificada no número escasso de blogues de investigação e de haver ainda menos os que, de facto, fazem jus ao nome. As principais formas de comunicação e divulgação de trabalho académico continuam a ser a publicação de artigos em revistas especializadas e a participação em congressos e colóquios. De resto, são estas as modalidades mais valorizadas pelas academias e pelas instituições que as avaliam. No meu caso particular, enquanto aluno de doutoramento, é particularmente visível este frenesim ou aptidão dos meus colegas para a publicação de artigos em revistas com peer review, renegando para um plano muito secundário as potencialidades de outras formas de disseminação de conhecimento científico potencializadas pelas plataformas digitais. Um doutorando é um aluno em constante avaliação e um dos principais critérios dessa avaliação, sobretudo nas ciências sociais, é o volume da sua produção científica convencionalmente legitimada pelos seus pares. Neste contexto, não se deverá estranhar que a manutenção de um blogue de investigação possa ser visto como uma futilidade pouco valorizada por parte do corpo docente e, por isso mesmo, pouco sedutor para um aluno. Não é por acaso que o verbete dedicado ao Trabalho Académico da versão portuguesa da Wikipedia não contemple sequer os blogues e que o da versão inglesa sobre Academic Writing renegue (de resto, de forma pouco inteligível) o género para uma categoria secundária de Personal Forms.

Perante este cenário, impõe-se a pergunta: por quê e para quê investir numa tarefa tão exigente como a manutenção de um blogue no contexto de um trabalho de investigação científica?

A resposta passa, em primeiro lugar, por tentarmos perceber o que é um blogue e quais são as suas potencialidades. Como não existe melhor maneira de entendermos o que é um blogue do que lê-los, posso de imediato assumir, sem grandes riscos, a existência de uma assinalável familiaridade do formato para a esmagadora maioria dos utilizadores da Internet e dos meus hipotéticos leitores. Os blogues são dos media mais notáveis que levaram ao cunho do termo Web 2.0 (ou Web participativa ou social), que marca o advento de tecnologias que permitem uma participação activa dos utilizadores na criação, difusão e curadoria de conteúdos digitais. Jill Walker Rettberg (2.2, RETTBERG, 2008, pp. 9-17) identifica 3 tipos (não exclusivos) de blogues: 1) os pessoais (personal or diary-style) – diários pessoais em que predomina a expressão da vivência do autor; 2) os curadores digitais (filterblogging) – filtros que seleccionam, através do recurso de hiperligações, conteúdos terceiros considerados relevantes para o(s) autor(es); e 3) os temáticos (topic-driven), que abordam assuntos que gravitam em torno de um determinado tópico ou assunto. Transpondo esta tipologia de géneros para um blogue de investigação, verifica-se que todas elas têm um potencial notável na disseminação não apenas do conhecimento científico, mas dos processos epistemológicos que conduzem à sua produção:

- um blogue de investigação lucra em ser pessoal, na medida em que a vivência da investigação é um dado epistemológico fundamental para os projectos que, como o meu, utilizam o método etnográfico como forma de operacionalização. O blogue permite, por exemplo, a disponibilização de reflexões e de instrumentos de investigação que estão excluídos da tese, como é o caso do diário de bordo.

- um blogue de investigação lucra em assumir-se como uma forma de curadoria digital na medida em que permite disponibilizar e discutir de forma imediata reflexões e estudos de outros autores que ainda não chegaram à Galáxia Gutemberg. Como exemplo, posso indicar que um dos pilares teóricos do meu projecto de investigação é o conceito de Spreadability (propagação) desenvolvido pelo Convergence Culture Consortium do MIT e disponibilizado em Fevereiro de 2009 no blogue de Henry Jenkins: a publicação de Spreadable Media: Creating Value in a Network Culture, a obra colectiva que reflectirá o trabalho desse relatório preliminar, está apenas prevista para meados de 2011, isto é, mais de dois anos depois da sua disponibilização no HTML.

- um blogue de investigação tende a ser necessariamente temático, na medida em que toda a sua produção gravitará em torno da questão de investigação e procurará contribuir para atingir os seus objectivos. No caso particular dos projectos que se enquadram num design qualitativo de investigação (2.2, CRISWELL, 1994, pp. 11-12), um blogue permite igualmente disponibilizar, de forma imediata, a selecção do corpus a partir do qual irá ser produzida a teoria fundamentada em dados (Grounded Theory) da investigação. Quando o objecto de estudo é a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais, o HTML possui virtudes como medium que, como é óbvio, escapam ao papel em que é impressa uma tese, como o facto (nada displicente) de permitir a visualização dos mesmos.

No entanto, como afirma Marie Laurie Ryan (2.2, RYAN, 2005), um blogue, para além de ser um medium, pode também ser visto como um tipo de texto (type of text), isto é, um género textual com características próprias que convirá identificar. Numa entrevista de 2001 citada por Jill Walker Rettberg (2.2, RETTBERG, 2008, p. 21) e, infelizmente, já não disponível online, Evan Williams, um dos fundadores do Blogger, enuncia três características da escrita dos blogues (ou blogging): a frequência, a brevidade e a personalidade. Novamente, estas características da escrita blogosférica podem ser uma mais-valia assinalável para um investigador na medida em que:

- a frequência obriga a um exercício quase diário de escrita: durante um trabalho de investigação, não são raros os casos em que o exercício de escrita se resume à redacção da tese, sobretudo se tivermos em conta que os artigos publicados em revistas especializadas resultam não raras vezes de adaptações de capítulos da mesma. A frequência de escrita potencializada pelos blogues obriga não apenas a um maior débito de escrita e de reflexão como liberta o investigador de convenções da escrita académica que, por vezes, podem ser um entrave ao livre fluir da escrita e do pensamento. A agilidade da escrita é um trunfo que reputo de fundamental para qualquer exercício de investigação científica, sobretudo no campo das ciências sociais;

- a brevidade força o investigador a uma maior capacidade de síntese e a uma maior explicitação de conceitos por vezes partilhados pela comunidade académica. Não raras vezes este exercício de explicitar conceitos básicos revela-se fundamental para a compreensão dos mesmos por parte do próprio investigador. A brevidade e a frequência obrigam igualmente o investigador a focalizar um determinado assunto de formas diversas, contribuindo para o seu domínio dos mesmos;

- a personalidade permite ao investigador incluir características estilísticas que não são consensualmente caucionadas ou sequer permitidas pelo universo académico, sob o pretexto da salvaguarda de supostos valores de gravitas, neutralidade ou objectividade. É a minha convicção que a produção, recepção e disseminação de conhecimento científico tem muito a lucrar com a heterodoxia de registos de escrita que incluam, por exemplo, a provocação, o humor ou a polémica.

Como já foi referido anteriormente, os blogues são igualmente um medium social, que fomenta a participação dos seus leitores através de comentários e que recorrem às hiperligações para entrar em permanente diálogo com outros autores da blogosfera que partilham os mesmos interesses. A definição de weblog do Oxford English Dictionary é particularmente feliz na forma como inclui esta dimensão social:

A frequently updated Web site consisting of personal observations, excerpts from other sources, etc., typically run by a single person and usually with hyperlinks to other sites.

Finalmente, este diálogo é particularmente salutar não apenas por ser potencialmente mais imediato do que o convencional circuito académico, como alarga de forma considerável o seu tipo de leitores. Como referi no post anterior, este último ponto é particularmente importante no caso do meu projecto de investigação, devido ao seu posicionamento epistemológico, herdado dos Web Studies 2.0, onde a noção de peer tende a libertar-se da exclusividade do mundo académico e a englobar uma audiência bem mais vasta:

[…] the fetishisation of ‘expert’ readings of media texts is replaced with a focus on the everyday meanings produced by the diverse array of audience members, accompanied by an interest in new qualitative research techniques […] [where] conventional research methods are replaced – or at least supplemented – by new methods which recognise and make use of people’s own creativity, and brush aside the outmoded notions of ‘receiver’ audiences and elite ‘producers’. (2.1, GAUNTLETT, 2007a)

 

Para terminar este post, que já vai longo e arrisca pôr em causa uma das características típicas da escrita blogosférica, duas breves notas finais:

1) Decidi redigir este blogue em Português pelo facto de não me conformar com a hipervalorização do Inglês como língua franca da comunidade científica. No caso das ciências da comunicação, os resultados estão bem à vista e senti-os logo numa fase inicial da minha investigação: uma ingénua desvalorização da qualidade do discurso face à ilusória universalidade de um conteúdo expresso muitas vezes em broken english, a proliferação de anglicanismos desnecessários em textos científicos escritos em Português e o consequente empobrecimento lexical da terminologia científica da nossa língua. Entre a qualidade do discurso e o hipotético alargamento do universo de leitores, a minha escolha recai, sem hesitações (e com uma dose saudável de realismo), para a primeira. Partilho, de resto, a opinião do linguista Nicholas Ostler, de que existem óbvios indicadores sociais, económicos e tecnológicos para crer que caminhamos (e ainda bem) para um futuro manifestamente multilingue.

2) Dediquei alguns meses a conferir um certo lastro a este blogue de forma a dar conta do actual estado da investigação. Nos separadores localizados na parte superior da página de entrada poderão encontrar informação e dados facilmente acessíveis que me pareceram poder ser úteis para alguns leitores: o design de investigação do projecto, a bibliografia, o corpus, um glossário e uma série de hiperligações que incluem estudos de cariz quantitativo e outros portais relacionados com o tema da investigação. Tenciono manter as mesmas sempre actualizadas e estar atento à eventuais sugestões.

Incipit 2.0

MV FLUX é o blogue do meu projecto de investigação que está a ser desenvolvido na Universidade de Aveiro (Departamento de Comunicação e Arte) e na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa) sobre a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais subordinado ao título A propagação na Web 2.0: o caso dos fluxos videomusicais e que aponta, através de uma abordagem transdisciplinar com os Estudos Literários, para a definição de uma poética da propagação digital.

O que pretendo com este blogue? Sobretudo, duas coisas. Em primeiro lugar, que funcione como um instrumento de reflexão. Para isso, o blogue tenderá a aproximar-se de dois formatos complementares: o de diário de bordo da investigação e o de um repositório de todo o aparato teórico que irá ser utilizado, questionado e criado ao longo projecto. Em segundo lugar, pretendo que o blogue funcione igualmente como um instrumento de comunicação com os seus potenciais leitores de forma a potencializar a mais-valia que poderá surgir desse diálogo. Nesse sentido, a escrita oscilará entre dois registos: o do do objecto de estudo (a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais) e o do académico que se debruça sobre o mesmo. Tal, de resto, está em consonância com o peculiar estatuto epistemológico do investigador enquanto acafã (ou etnógrafo digital).

Tenciono dedicar mais algumas linhas sobre o que me parece ser a pertinência e as potencialidades da utilização de um blogue num projecto de investigação num contexto em que a mediação tecnológica é, cada vez mais, o medium privilegiado de comunicação. Tal ficará para outro post. Para já, declaro abertas as hostilidades.

Let’s see what we can do: take it away!