Boards of Canada: Tomorrow’s Harvest (The Movie)

Não conheço nenhum caso anterior, pelo que existe a probabilidade de isto ser mesmo uma novidade na esfera do formato: uma comunidade de fãs compilar uma série videomusical em que os vídeos realizados pelos fãs cobrem a totalidade dos temas de um disco de originais de uma banda. Essa banda, como não podia deixar de ser, são os Boards of Canada, talvez o projecto musical cuja música mais vídeos inspira na rede. O que torna a coisa ainda mais interessante (e híbrida) é o facto de estar incluído na série o vídeo oficial de Reach for The Dead de Neil Krug que, como já tive a oportunidade de referir antes, não passava de um fã voluntarioso que fazia vídeos caseiros ao som de temas da banda antes de ter sido contratado pelos dupla escocesa. A qualidade do resultado final é surpreendentemente elevada do princípio ao fim e é mais do que digna da fabulosa música dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin.

CRÉDITOS: “Gemini” by Beta 401 * “Reach For The Dead” by Neil Krug * “White Cyclosa” by TBJ Productions * “Jacquard Causeway” by Mhorg * “Telepath” by Drog * “Cold Earth” by Julien Lavigne * “Transmisiones Ferox” by Carlos C. * “Sick Times” by David Mike * “Collapse” by MrSeriouslySerious * “Palace Posy” by Yellow Jacket * “Split Your Infinities” by Carlos C. * “Uritual” by Fabien Dendievel * “Nothing Is Real” by Iphanners * “Nwodnus Sundown” by Faastwalker * “New Seeds” by Alexis Zeville * “Come To Dust” by Jason Donervan * “Semena Mertvykh” by Turk242.

Três tipos de fãs (video)musicais

bbeats

Acrescentei no sítio do costume a apresentação da Nielsen na edição deste ano do SXSW intitulada The Buyer And The Beats: The Music Fan[s] And How To Reach Them.

O documento apresenta os resultados de um estudo conduzido pela Nielsen junto de 4000 consumidores musicais e apresenta resultados que confirmam a actual conjuntura da emergente paisagem mediática digital: os nativos digitais descobrem mais música através do YouTube do que através de qualquer outro portal ou serviço (nem sequer o Spotify com um incremento de 253% de utilizadores em 2012 lhe faz sombra); os fãs utilizam as redes sociais para obterem um relação mais pessoal com os artistas; e 75% do consumo musical pago é feito pelos fãs.

Até aqui nada de novo: o vídeo musical continua a ser o formato mediático mais procurado pelos utilizadores para a sua fruição musical, na medida em que é este que lhe possibilita uma fruição multimediática rápida e grátis. A relativa novidade é o facto de haver dados quantitativos que apontam para uma evidência: para um determinado tipo de utilizadores (fãs), o formato videomusical não implica o fim do consumo musical pago. Mais: existe um mercado em franco crescimento neste segmento específico, visível na proliferação e crescimento da audiência de plataformas de financiamento feito por fãs para projectos artísticos em que se incluem, como é óbvio, os de cariz musical: Kickstarter, PledgeMusic, Pozible, Fansnextdoor, SellaBand, ArtistShare, Indiegogo e RocketHub, entre outros.

No entanto, o que me pareceu sinceramente mais interessante é a tentativa da Nielsen em tipificar ou segmentar os fãs musicais em 3 grupos: aficionados, digitais e big box. Elaborei uma pequena tabela que permitirá, porventura, perceber melhor os critérios que motivaram a proposta de classificação da Nielsen:

3tiposfas

A divisão é inteligível e, até certo ponto, faz sentido. Mais: este parece-me ser um belo e útil ponto de partida para a indústria musical re-equacionar o seu modelo de negócio na emergente paisagem digital. Termino com a seguinte observação: não é preciso ser nenhum especialista para rapidamente perceber que o consumo videomusical é uma característica comum ou transversal aos três tipos de fãs definidos pela Nielsen. Será desta que a indústria musical acorda para esta evidência e corrige o rumo que tem vindo a seguir nos últimos anos? A ver vamos.

Graham Coxon: «What It’ll Take» (Ninian Doff, 2012)

Mais um exemplo de um vídeo musical que contou com a participação dos fãs. Desta vez, o realizador Ninian Doff pegou em filmagens feitas por 85 fãs de Graham Coxon (o regressado guitarrista dos Blur) oriundos de 22 países e engendrou uma forma muito original e criativa de os incorporar no vídeo. Um comentário na página do YouTube resume bem o efeito da estratégia seguida para esta produção:

I love the concept of this video. really brings people together. I mean just look at the comments: it’s fantastic. (@ronmascara)

Nem mais. E o tema é fabuloso, o que sempre ajuda à fruição da coisa.

Nota: Sim, mudei novamente o template do blogue. Os leitores têm sempre razão e este design tem um look Apple que me agrada de sobremaneira. Grato pela vossa opinião, JP.

Boards of Canada: «In A Beautiful Place Out In The Country» (Neil Krug, 2007)

Se há uma banda que demonstra que a música não é apenas para ser ouvida, essa banda são os Boards of Canada. Alvos de um culto que consegue ser quase tão fascinante como as capacidades evocativas da sua música, não é de estranhar que, apesar dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin apenas terem apadrinhado oficialmente a edição de um (belíssimo) vídeo musical, pululem hoje na rede milhares de vídeos amadores feitos por fãs ansiosos por partilharem as suas experiências sinestésicas. A banda, de resto, foi precursora na prática de legitimar oficialmente a produção vernacular dos seus fãs ao terem promovido, em 2002, um concurso para a criação de vídeos musicais.

Como qualquer sensação estética, a sinestesia audiovisual depende não apenas das características do objecto artístico, mas da sensibilidade ou capacidade neurológica dos seus hipotéticos fruidores. O vídeo musical que vos deixo aqui parece-me cumprir largamente os critérios mínimos para accionar o primeiro factor da equação. Cabe-vos a vós, leitores, aceitarem o desafio de se deixarem levar pelo seu estímulo. A experiência, garanto-vos, pode ser verdadeiramente avassaladora.