Dois vídeos tugas cheios de letra

Os vídeos musicais textuais (ou lyric music videos) começam a ser um caso sério em Portugal. Como é óbvio, este subgénero videomusical não funcionará para qualquer canção ou sequer projecto musical, mas os dois exemplos recentes que vos trago aqui são uma bela demonstração das potencialidades do formato.

O primeiro é uma bela tipografia cinética realizada por Joana Faria para o novo tema dos Diabo na Cruz e a coisa funciona tão bem que já me apanhei a cantarolar o tema no carro com as imagens do vídeo a invadirem-me a cachimónia. O tema presta-se muito a este tipo de tratamento visual devido aos trocadilhos, às rimas internas e, claro, ao ritmo com que o Jorge Cruz debita uma letra que agarra bem o Zeitgest actual do nosso país.

Coisa bem distinta é a proposta dos Clã e do realizador Victor Hugo Pontes em que o formato textual é um mero pretexto para um genuíno exercício coreográfico filmado num único take que faz, de imediato, recordar a perícia dos Ok Go (e o Hélder Gonçalves está mesmo super-parecido com o baixista da banda norte-americana). Está a ser giro acompanhar esta aventura dos Clã na promoção do seu novo disco: estão a arriscar e, pouco a pouco, a tentar sair da sua zona de conforto. Espero ansiosamente pelos novos capítulos.

Nota

Das centenas de hiperligações que, nos últimos três anos, têm direccionado inúmeros leitores para este blog, confesso que nenhum me deixou mais orgulhoso do que este oriundo do blogue da recente obra de Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green relativo ao póster que leva a cabo uma análise textual à videografia dos Ok Go que apresentei com o meu orientador Rui Raposo no passado dia 19 de Junho no Research Day da Universidade de Aveiro. Relembro que o modelo da “espalhabilidade” desenvolvido por estes três autores é uma das pedras basilares do meu projecto de investigação.

mvflux no spreadablemedia.org

UA Research Day Poster

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Figure 1. Screenshots of Ok Go music videos

Figure 1. Screenshots of Ok Go music videos

CORPUS
A Million Ways (2005)
Here It Goes Again (2006a)
Do What You Want (2006b)
This Too Shall Pass (2010a)
End Love (2010b)
White Knuckles (2010c)
All Is Not Lost (2011)
Needing/Getting (2012)

ABSTRACT
The popularity of Ok Go music videography on the web is often referred to as a typical example of “viral media”. A textual analysis not only demonstrates that all their music videos follow a rather strict communication formula as it does a much better job of explaining its diffusion than the stale viral metaphors.

Although widely used in both corporate and academic contexts, the viral metaphors do not describe accurately the active role of users in assessing and spreading media texts on the Internet: any conception of self-replicating culture is oxymoronic, since culture is a human product and replicates through human agency (Jenkins et al. 2013: 19). On our Ph.D. research project devoted to the convergence of music videos, a textual analysis was conducted on the 8 most viewed music videos of the North-American indie rock group Ok Go (Fig. 1 and Table 1). The referred analysis provided valuable insights on how some peculiar textual features might contribute to trigger media diffusion by users.

Table 1. Ok Go music video's official YouTube views

Table 1. Ok Go music video’s official YouTube views

Firstly, the videomusical odyssey of Ok Go forms a highly spread and readable counterpower narrative. A Million Ways (2005) was not only home-made due to the refusal of their record label to produce it, as it became the first music video to ever be diffused in such a high-scale without being broadcasted by music television: 9 million downloads via an emailed link (Kot 2009: 214).

To this day, they are not only considered mavericks who predicted the decline of corporate music industry but also pioneers in exploring the sheer potential of social media. Nowadays, “Ok Go” has become a grassroots brand whose association to any audiovisual content guarantees thousands of views on the Web.

Secondly, Ok Go music videography follows a rather strict architextual (Genette 1982) formula, which can be divided by a series of hypertextual features common to all their music videos and a conceptual element singular to each one of them (Table 2). The dual nature of this formula allows Ok Go music videography to be both coherent and non-repetitive (i.e., an œuvre).

Table 2. Ok Go music videos' hypertextual features and conceptual hypotexts

Table 2. Ok Go music videos’ hypertextual features and conceptual hypotexts

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On one hand, almost every single Ok Go music video can be accurately described as self-produced one-take dance video performed by non-professional dancers (Ok Go band members). All these hypertextual features (amateurish choreography, lip synching, the predominance of a single fixed or sequence shot and the absence of special effects) are not only typical of the vernacular aesthetic (Burgess 2007) of user-generated content as they are quite effective in creating a potential empathy on the majority of the prosumers that populate the web: Ok Go’s counterpower narrative empowers them with the possibility of also becoming successful outsiders.

On the other hand, what makes every music video of the band singular is the fact that each one of them always includes a creative (re)mediatisation of a different conceptual element whose popularity has already been tested and certified either on YouTube (home dance, fail, pet and other music videos) or on other media such as cinema, videogames, comics and promo ads (hypotexts).

Figure 01. Architextual formula of Ok Go music videography

Figure 2. Architextual formula of Ok Go music videography

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CONCLUSION
The popularity of Ok Go music videos on the web has nothing “viral” or anaesthetic (Sherman 2008: 163) to it, but instead follows an elaborate communication formula (Figure 2) whose creative application aims to trigger its active diffusion by users. It’s this rare combination of an acute vernacular sensibility with an eye for top-notch hypertextual references and an intangible creativity factor that made possible for an indie rock band to go from a low-budget home-made dance music video (2005) to having their latest production (2012) not only sponsored by a top American corporation but also aired during the most expensive broadcasting airspace in the world (Super Bowl TV slot).

REFERENCES
Burgess, Jean. 2007. Vernacular Creativity and New Media. St. Lucia: Queensland University of Technology.
Genette, Gerard. 1982. Palimpsestes. La Littérature au Second Degré. Paris: Point.
Jenkins, Henry with Sam Ford and Joshua Green. 2013. Spreadable Media. Creating Value and Meaning in a Networked Culture. New York: New York University Press.
Kot, Greg. 2009. Ripped. How the Wired Generation Revolutioned Music. New York: Scribner.
Sherman, Tom. 2008. «Vernacular Video» in Lovink, Geert and Sabine Niederer (eds.), Video Vortex Reader. Responses to YouTube. Amsterdam: Institute of Network Cultures: 161-168.

YOUTUBE PLAYLIST
The following YouTube playlist containing the eight analyzed Ok Go music videos was digitally infused into the static poster via Layar.

STICKER
The following sticker was produced and then glued to several locations in the campus during the event (UA Research Day). It is a recreation of the iconic cover of Sex Pistols 1977 debut record with the title of the poster and a QR code with the URL of this post superimposed on it. Its aim was to create a buzz through mouth-to-mouth or through what marketeers would (wrongly) call a “viral marketing” action, which is quite ironic and suitable for a poster dedicated to renegade the viral/meme metaphors, which is definitely a rather “punish” statement in an academic context largely subdued by the marketing and memetics approaches.

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POSTER
Click here to download a A4 PDF version of the poster.

Ena! Hiperligações!

1) A secção do blogue referente aos Estudos Quantitativos continua em permanente actualização. Desta vez, destaque para:
- uma série de infográficos do Search Engine Journal com dados recolhidos a partir de diversas fontes sobre a evolução dos media sociais (tomem lá um PDFzito e não digam que foram daqui);
- um relatório da ComScore, onde se comprova que o conteúdo mais consumido no YouTube pelos utilizadores norte-americanos no mês de Julho foi… pois é, o vídeo musical – 40% dessa malta viu pelo menos um vídeo musical no referido mês.
- um estudo do Bit.ly que demonstra que a “meia-vida” (é ir lá ler) de uma hiperligação no YouTube é 2,5 maior (7,4 horas) do que a média (3 horas). Este gráfico é giro e elucidativo:

2) Um interessantíssimo artigo de Pat Muchmore sobre notação musical ergótica (utilizo aqui o termo no sentido definido por Espen J. Aarseth), onde se comprova que ímpeto multimédia da criação e fruição musical remonta pelo menos ao séc. XV (Baude Cordier);

3) Um dos clássicos absolutos da música indie da década de 90 tem agora um videojogo em formato arcade.

4) Uma bela selecção de vídeos musicais da década de 80 pode ser acedida aqui. Reparem lá nesta passagem que está em total sintonia com os argumentos que tenho utilizado para justificar a pertinência do meu projecto de investigação:

Thanks to the ubiquity of social media, the music video has vaulted from curiosity to shiny new toy to killer app, an artist-controlled platform for launching talent into mass consciousness, judging by the overnight success of growing numbers of YouTube sensations.

5) Este livrinho tem muitas similitudes com o formato do vídeo musical. Descubram lá quantas e quais.

6) E pronto, para terminar, uma adenda a este post. Cortesia de duas das maiores estrelas da era digital dos vídeos musicais: os Ok Go e os Muppets. Oh yeah.

Ok Go: «All Is Not Lost» (Ok Go; Pilobolus; Trish Sie, 2011)

Confesso que não era para publicar aqui mais nada até o fim das férias, mas um novo vídeo dos Ok Go é sempre um excelente pretexto para voltar a teclar no HTML. Desta vez, os rapazes uniram-se ao grupo de dança Pilobolus para criar mais um belo vídeo performativo superiormente coreografado. Deixo de seguida a versão simples, mas, pelo amor de deus, não deixem de espreitar a versão interactiva aqui (é necessário Google Chrome).

A propósito de duas TED Talks sobre vídeos musicais

Um manifesto sinal de que existe ainda um fosso considerável entre a importância dos vídeos musicais na paisagem mediática digital e o volume de reflexões que o formato suscita na comunidade científica pode ser verificado no número e na qualidade de palestras que uma valorosa instituição como o TED dedica ao tema. Convido-vos a visualizar e a discutir os dois casos mais proeminentes (eufemismo para «os dois únicos casos»), as palestras de Jakob Trollbäck (2008) e de Adam Sadovsky (2010).

 

A palestra de Jakob Trollbäck consiste numa breve apresentação do seu vídeo musical para o tema «Moonlight in Glory» do seminal álbum de David Byrne e Brian Eno My Life In The Bush Of Ghosts (1981). O propósito do seu vídeo, supostamente inovador e original, consiste em:
i) fugir à dimensão reactiva do formato; ii) remover do vídeo a presença autoral do realizador; e iii) subordinar todos os elementos visuais à trilha musical (pretensão curiosa para alguém que não refere sequer o título dessa mesma trilha). As premissas são particularmente ingénuas na medida em que i) a reactividade é uma característica intrínseca de qualquer vídeo musical, sendo a dialéctica entre o som e a imagem uma das características fundamentais do formato; ii) a remoção da marca autoral de um vídeo musical é simplesmente impossível e assenta num princípio inatingível e inconsequente de objectividade; e iii) a subordinação de todas as componentes imagéticas de um vídeo musical à trilha sonora é apenas uma das já muitas testadas possibilidades de relação entre esses dois elementos. Como afirmam Henry Keazor e Thorsten Wübenna (1.1, KEAZOR et al (eds.), 2010, p. 20) quem não conhece a história, corre o risco de repeti-la: o resultado do vídeo de Jakob Trollbäck nada mais é do que mais um exemplo, não particularmente conseguido, de um género que poderemos designar de vídeo musical karaoke, cuja génese remonta, pelo menos, ao clássico «Sign ‘O’ the Times» de Prince (1987):

 

Por sua vez, a palestra de Adam Sodovsky consiste igualmente numa apresentação do vídeo musical viral (termo particularmente pantanoso e que será o alvo de parte considerável do meu projecto de investigação) para o tema This Too Shall Pass dos Ok Go (cujo vídeo oficial no YouTube está perto de atingir 25 milhões de visualizações).

Adam Sodovsky enuncia 10 mandamentos que estiveram na origem da sua concepção e do seu (inegável) sucesso. Este dez tem óbvias ressonâncias bíblicas, sendo perceptível uma certa artificialidade nesse número na medida em que alguns desses mandamentos são manifestamente redundantes ou pouco pertinentes:

1. No magic – há imensos vídeos musicais de sucesso que contêm “magia” ou efeitos especiais, não sendo por isso este um dos factores que define a sua viralidade (custa-me tanto escrever esta palavra, mas por agora terá de ser);

2. Band integration – idem, isto é, há imensos casos de vídeos musicias de sucesso que não são performativos (ver o do Prince, por exemplo). De resto, é bastante óbvio que se estivessem ali três outras pessoas para além dos membros da banda a sua viralidade (ai) seria sensivelmente a mesma. No entanto, e como veremos de seguida, este mandamento levanta indirectamente a ponta do véu de um dos factores do sucesso do vídeo: o facto de o mesmo fazer parte do corpus videomusical dos Ok Go;

3. Machine action should follow the song feeling – este mandamento é ambíguo, na medida em que não é nada óbvio e é particularmente subjectivo o que se pretende designar por “feeling”. No entanto, parece-me que Adam refere-se nomeadamente ao sincronismo entre imagem e música, mas, novamente, há vídeos musicais de grande sucesso que fogem desse desígnio: um exemplo eloquente é o clássico vídeo que Mark Pellington (1991) realizou para o tema One dos U2;

4. Make use of the space – tirando os vídeos musicais em plano fixo (e ainda assim, há excepções), a esmagadora maioria do formato não abdica de potencializar a dimensão espacial;

5. Messy! – apontamento humorístico, dispensa comentários a não ser os que farei de seguida sobre as máquinas de Goldberg.

6. Machine starts the music; 7. Synched to rythm; 8. End precisely on time; 9. Machine should play part of the song – redundantes, ver mandamento 3. (sincronismo);

10. One shot: este é o único ponto em que, de facto, Adam Sodovsky acerta num ponto sensível do sucesso do vídeo e que é, de resto, uma das marcas da obra videográfica dos Ok Go: o do tempo da acção do vídeo coincidir com o tempo da sua fruição, isto é, do seu discurso videomusical. Isto apesar de não ser verídica a afirmação de o vídeo ser filmado num único take, como é de resto bem visível neste vídeo de um fã do formato:

Como é óbvio, não importa aqui que o vídeo seja, de facto, filmado num único take, mas que seja particularmente convincente na construção dessa ilusão. Por outras palavras, é sem dúvida mais importante parecê-lo do que sê-lo ou, se preferirem, o que interessa aqui não é a verdade de um único plano-sequência, mas a sua verosimilhança. Apenas um olhar atento ou treinado é que consegue detectar o artifício.

A palestra termina com dados (impressionantes) que demonstram a complexidade e a dificuldade da criação do vídeo musical: meses de trabalho que envolveram imensos objectos e artefactos criados e afinados por uma vasta equipa transdisciplinar. Mas novamente, a complexidade não pode, em princípio, ser invocada como um dos factores para o sucesso de um vídeo musical, bastando para isso recordar os primeiros grandes sucessos videomusicais da banda cujo interesse ou fascínio reside precisamente na sua desarmante simplicidade de processos.

Muito mais pertinente é um tópico referido (ou despachado) logo no início da palestra: o facto de o vídeo musical ser uma máquina de Rube Goldberg (há aqui um manifesto americano-centrismo por parte de Adam Sodovsky, na medida em que o ilustrador britânico William Heath Robinson é o verdadeiro precursor deste tipo de representação), que basicamente consiste na construção (ou melhor: na representação da construção) de máquinas excessivamente elaboradas que realizam tarefas paradoxalmente simples através de um complexo processo de reacção em cadeia.

Ilustração de Rube Goldberg representativa de uma das suas máquinas.

Ora, o fascínio por este tipo de representação possui uma larga tradição de remediatização em produtos tão diversos como o cinema (Back To The Future, Delicatessen, Edward Scissorhands, etc.), a publicidade (ver o clássico anúncio da Honda) e os próprios vídeos musicais (ver, por exemplo, o de An Honest Mistake dos The Bravery). Ou seja, uma das inegáveis razões para a popularidade do vídeo dos Ok Go é o de proceder a uma remediatização de um topoi cuja popularidade (ou, vá lá, viralidade) já tinha sido demonstrada em outros produtos mediáticos. É apenas neste contexto específico que a complexidade e a confusão (messiness, ver ponto 5.) podem, de facto, ser vistos como uma mais-valia para o sucesso do vídeo, na medida em que existe uma proporcionalidade directa entre a sofisticação de uma máquina de Goldberg e o fascínio que a mesma pode despertar na fruição da sua representação. Adianto que esta relação entre produtos mediáticos diversos (fluxos) será um dos objectos fulcrais do meu projecto de investigação e será sistematizado através da noção de transfluência.

Para terminar, parece-me ainda importante referir dois derradeiros factores para a popularidade do vídeo. O primeiro deles não é referido por Adam Sodovsky: o facto de este ser um vídeo dos Ok Go. O nome da banda, devido aos seus pretéritos sucessos no campo dos vídeos musicais, é um importante trunfo que dificilmente pode ser sobrevalorizado no domínio das plataformas digitais e que, só por si, garante milhões de visualizações. O segundo prende-se com a conjugação de uma componente (o factor humano) do ponto 2. com o facto de estarmos perante uma máquina de Goldberg: o vídeo, pela sua representação, enquadra-se de uma forma muito interessante no domínio dos conteúdos gerados pelos utilizadores (CGU), isto é, assume-se como um produto mediático que resulta do labor de diversos utilizadores das novas tecnologias e, ao fazê-lo, cria uma assinalável empatia entre os criadores e os potenciais fruidores. Apesar da sua complexidade (ainda assim manifestamente artesanal e forjada na ilusão de um único plano-sequência, a linguagem cinematográfica por excelência dos conteúdos gerados pelos utilizadores), o vídeo poderia resultar do labor de um conjunto de pessoas em tudo identificáveis com qualquer um de nós. É por isso que não é inocente um dos enquadramentos finais do vídeo, em que toda a equipa responsável pela sua concepção manifesta a sua alegria pelo sucesso da máquina. Bem pelo contrário, esse enquadramento é particularmente significativo: não se trata de se mostrar apenas que o projecto foi levado a bom porto, mas que a alegria dos seus criadores é em tudo identificável com a de quem o está a fruir.