PolyFauna

radioapp

Os Radiohead acabam de lançar um app intitulada PolyFauna (iOs e Android). Segundo o próprio Thom Yorke:

    PolyFauna is an experimental collaboration between us (Radiohead) & Universal Everything, born out of The King of Limbs sessions and using the imagery and the sounds from the song Bloom. It comes from an interest in early computer life-experiments and the imagined creatures of our subconscious.

A app consiste numa espécie universo audiovisual passível de ser visualmente explorado pelo utilizador (os grafismos são decididamente retro e fazem lembrar os primórdios da animação 3D nos computadores pessoais). Apesar de haver em PolyFauna coisas muito bem conseguidas (sobretudo o facto de a música e de o grafismo ser um desdobramento do trabalho minucioso que os Radiohead, o produtor Nigel Godrich e o designer Stanley Donwood desenvolveram em The King of Limbs), é de lamentar, em primeiro lugar, o timing absolutamente desastroso do lançamento (três anos depois do álbum? a sério?) e, em segundo lugar, a paupérrima jogabilidade da engenhoca. Em matéria de experiências videomusicais em apps, o Biophilia (2011) da Bjork continua insuperável e mesmo outros exemplos como o de Home dos The Suzan, BEP360 (2011) dos Black Eyed Peas ou Bullseye (2011) dos Poliphonic Spree parecem-me bem mais conseguidos do que este, apesar de tudo, simpático PolyFauna.

O importante, pelo menos para mim, é que continue a haver malta a explorar as (imensas) potencialidades da interactividade videomusical. E estou mesmo convencido que o grande contributo de Polyfauna pode mesmo ser a sua abordagem holística, isto é, o facto de o projecto envolver não apenas engenheiros e programadores informáticos mas também a banda, o produtor e o designer gráfico.

Punch-Drunk Surprise

Apesar de esta colagem videomusical de Hsien Lee ter sido carregada para o YouTube há quase 7 anos, apenas a descobri há alguns minutos. É um fabuloso exercício de montagem vernacular que sobrepõe segmentos do mais musical dos filmes de PT Anderson a um dos incontornáveis clássicos dos Radiohead. Não consigo imaginar melhor forma de fechar a semana.

Radiohead: Roseland Ballroom

rh2011-09-29 Roseland art

Já está disponível tanto no YouTube como para download (via Zomb) o vídeo musical de 2 horas que documenta o concerto que os Radiohead deram em Nova Iorque no dia 29/11/2011. Demorou quase um ano para ver a luz do dia, mas valeu a pena a espera, ou não fosse esta edição o resultado de um esforço colaborativo entre a banda (que forneceu o audio já misturado) e um conjunto de dez fãs que filmaram e editaram o concerto. Uma maravilha.

Vídeos musicais 2011 – uma selecção #5 (de 5)

Informações sobre esta lista aqui.

#5
No Age: «Fever Dreaming» (Real. Patrick Daughters)
Talvez a ideia mais genial para um vídeo musical em 2011 que gravita em torno de uma das mais basilares técnicas cinematográficas: a do enquadramento.

#4
Battles: «Ice Cream» (Real. Canada)
Os espanhóis Canada foram a grande revelação do ano (já falei nestes pasteleiros aqui). E os Battles a banda com o faro mais apurado para contratar realizadores em 2011.

#3
Manchester Orchestra: «Simple Math» (Real. Daniels)
Já falei neste bolo-rei aqui. Não há muito a acrescentar: é o melhor vídeo musical narrativo do ano.

#2
Radiohead: «Lotus Flower» (Real. Garth Jennings)
Também já falei deste bombom aqui. Sem dúvida, a grande surpresa do ano: o Thom Yorke a dar uma de Beyoncé.

#1
PJ Harvey: «The Words That Maketh Murder» (Real. Seamus Murphy)
E aqui está ele: o meu vídeo favorito do ano. É um monumento de subtileza dedicado a um dos grandes discos do ano. Talvez seja um anti-clímax para alguns devido à sua sobriedade, mas a escolha é para mim indiscutível: mais nenhum vídeo musical fez tanto vibrar a minha corda sensível este ano. E serve igualmente para referenciar uma das outras grandes tendências do formato em 2011: as séries videomusicais. Um nome a reter para os próximos anos: Seamus Murphy.

No cameras allowed

Um dos factores da ampla disseminação dos vídeos musicais nas plataformas digitais é o facto de o formato, devido à sua duração e inteligibilidade, prestar-se muitas vezes a ser utilizado como uma espécie de laboratório experimental para a demonstração de diversas inovações tecnológicas. Uma das mais fascinantes dos últimos anos é a captação de imagens sem o recurso a câmaras ou a qualquer fonte de iluminação.

O primeiro vídeo musical a conseguir este feito é o do já clássico «House of Cards» dos Radiohead (James Frost, 2008). A componente visual do clipe consiste exclusivamente no recurso às tecnologias Geometric Informatics e Velodyne LIDAR que capturam imagens 3D num raio de 360º através de feixes de lasers de curto e longo alcance, disponibilizando ainda o código-fonte do vídeo musical para a sua posterior manipulação pelos utilizadores. Podem aceder a um making of do clipe aqui.

 

Apesar da inovação tecnológica que representa este vídeo, a verdade é que a sua produção foi relativamente anacrónica, na medida em que envolveu meios consideráveis e uma equipa pluridisciplinar de técnicos e de empresas que elevaram o seu orçamento para patamares próximos dos que eram praticados na década de 90. Mais recentemente, em Novembro de 2010, a Microsoft lançou no mercado o Kinect, um periférico para a Xbox 360 que permite aos utilizadores interagirem com os jogos da consola sem a necessidade de ter nas mãos qualquer tipo de comando ou joystick, inovando ainda mais no campo da jogabilidade já anteriormente explorado por consolas como a Wii da Nintendo. Apesar do Kinect possuir uma convencional câmara RGB, o dispositivo inclui igualmente um sensor de profundidade que sonda o ambiente em sua volta em 3D gerindo dados que, após processados, permitem a sua reconstrução visual. Isto é: dois anos depois, é fornecido ao grande público e a um preço acessível um pequeno artefacto tecnológico que, apesar de não ter sido idealizado e concebido para esse fito, permite a qualquer utilizador captar imagens em 3D sem o recurso a uma câmara tradicional ou a uma vasta equipa de técnicos altamente qualificados.

Como é óbvio, o universo dos vídeos musicais não demorou muito tempo (na verdade, apenas um mês) para chamar a este invento um figo. Pelo que consegui apurar, o primeiro clipe a ser “filmado” com o Microsoft Kinect foi o de «Young Silence» dos Echo Lake (Dan Nixon, 2010):

 

Mas, pelos vistos, o segundo é, nada mais nada menos, fruto do esforço de três engenhosos portugueses: Luís Clara Gomes, Luís Calçada e Francisco Costa. O primeiro (mais um sinal dos tempos que vivemos) é igualmente o músico por detrás do projecto musical Moullinex responsável pela trilha sonora. Foi ainda disponibilizada online uma pequena memória descritiva da concepção do vídeo que, à semelhança do clipe dos Radiohead, inclui o código-fonte das diversas fases do projecto. Como podem ver, a inovação tecnológica vernacular no universo dos vídeos musicais também é feita, com resultados estéticos bem interessantes, com o recurso a mentes que pensam em Português. De parvo, este trio não tem nada.

De Alan Crosland a Garth Jennings com um apeadeiro em D.A. Pennbaker

Três momentos emblemáticos da videomusicalidade: The Jazz Singer (1927), Subterranean Homesick Blues (1965) e Lotus Flower (2010)

1.
No dia 6 de Outubro de 1927, a Warner Bros, na altura a enfrentar graves problemas financeiros, estreia em Nova Iorque The Jazz Singer, realizado por Alan Crosland. No filme, apesar de ainda subsistirem algumas passagens mudas, era possível ver e ouvir o actor Al Jolson, pintado de negro, a cantar acompanhado por uma banda jazz.

2.
Em 1965, o realizador D.A. Pennbaker filma um documentário intitulado Don’t Look Back sobre a primeira digressão de Bob Dylan no Reino Unido. O segmento de abertura do documentário, filmado no dia 8 de Maio, consistia num plano fixo no exterior do Hotel Savoy em Londres em que Bob Dylan, virado para a câmara, mostrava sucessivamente 64 cartazes ao som do seu mais recente single Subterranean Homesick Blues.

3.
No dia 20 de Fevereiro de 2011, os Radiohead disponibilizam no seu canal do YouTube, sem qualquer tipo de pré-aviso para a imprensa ou a sua comunidade de fãs, o vídeo musical do tema Lotus Flower, no qual se pode ver, a preto e branco, uma sequência de planos meticulosamente enquadrados e editados por Garth Jennings que captam o líder do grupo Thom Yorke a dançar e a mimar a letra do tema.

1+2.
Os dois primeiros segmentos entraram para a História por razões diferentes: o primeiro marca o início do cinema sonoro e o segundo inaugura a era moderna do vídeo musical. No entanto, facilmente se perceberá que ambos consistem no mesmo esforço: o da articulação, num único objecto, de uma sequência de imagens com uma trilha sonora (que, curiosamente, é musical em ambos os casos). O que verdadeiramente separa estes dois momentos históricos é a forma como cada um hierarquiza os elementos que o constituem. Em The Jazz Singer, o sonoro está subordinado ao visual, prenunciando o fim do cinema mudo; ao passo que no segmento de Don’t Look Back, as imagens pretendem de certa forma ilustrar o tema «Subterranean Homesick Blues», uma vez que os cartazes usados no registo vídeo reproduzem visualmente, de forma síncrona e com alguns erros voluntários («Suckcess» em vez de «Success», por exemplo), algumas palavras-chave cantadas por Bob Dylan, sublimando o impacto da letra.

3. (reprise)
Apesar de alguns evidentes e fulgurantes indícios (como o facto de ter ultrapassado a barreira das 5 milhões de visualizações em menos de uma semana), será ainda porventura prematuro afirmar que o terceiro segmento deixará a sua marca na história. Os Radiohead, no entanto, já têm o seu nome inscrito nos anais do vídeo musical, não apenas por possuir na sua videografia obras que são clássicos absolutos do formato (ver, por exemplo, os realizados por Magnus Carlsson, Jonathan Glazer, Grant Gee ou Michel Gondry), mas sobretudo por estarem associados ao momento inaugural da convergência do formato nas plataformas digitais. Em Outubro de 2000, como forma de colmatar a ausência de singles e de vídeos musicais para o álbum Kid A, a banda sugeriu à sua editora, a Capitol Records, a encomenda aos colectivos Shynola e The Vapour Brothers uma série de blips (3.1, SHYNOLA et al., 2000) destinados a promover na Internet o lançamento do novo disco da banda. Os blips mais não eram do que pequenos vídeos musicais em Java applet exportável, cuja duração média de 20 segundos era imposta pela então modesta velocidade de acesso à Internet. A inovação que os blips de Kid A representaram é bem visível no facto de alguns autores não terem hesitado em os apodarem, com alguma precipitação, de anti-vídeos (1.2, TATE, 2005, p. 103).

O sucesso dos blips foi tão significativo entre os utilizadores da rede que, passadas algumas semanas, era possível vê-los na MTV não como um spot publicitário, mas integrado na playlist do canal à semelhança de qualquer outro vídeo musical tradicional (2.3, COHEN, 2000). Parafraseando Henry Jenkins, o paradigma da convergência permite-nos entender este momento inaugural da presença do vídeo musical na Internet não apenas como o fluxo de um determinado conteúdo (vídeo musical) através de múltiplas plataformas (televisão e Web), como a cooperação entre diferentes indústrias dos media (indústria discográfica e televisiva) e o comportamento migratório de audiências (fãs da banda) que recorrem a todos os meios (televisor e computador) na busca das experiências de entretenimento (videomusicalidade) que procuram (2.1, JENKINS, 2006a, p. 2).

1+2+3.
Apesar dos anos que separam cada um destes três momentos videomusicais, todos partilham, curiosamente, 3 características fulcrais: o preto e branco; a performatividade; e a representação de uma persona. No caso de Al Jolson, essa persona remete mesmo para a etimologia grega da palavra, na medida em que usa, literalmente, uma máscara; enquanto que, nos casos de Dylan e de Yorke, as respectivas performances, como cue card holder e bailarino, respectivamente, operam um efeito surpresa que, tanto em 1965 como em 2011, não terá deixado de criar uma certa perplexidade nos fãs. Mais importante ainda, os três segmentos representam igualmente um período de transição mediática ou de remediatização: do cinema mudo para o sonoro; do vídeo musical como objecto autónomo que viria, a partir da década de 80, a imperar como formato televisivo; e, finalmente, do apogeu do formato enquanto objecto digital, incorporando características evidentes do vlogging. O facto de os três segmentos videomusicais partilharem, num intervalo de 84 anos, tantos similitudes parece indiciar que há sempre algo que se mantém neste jogo fascinante de sinestesia aplicada à cultura popular, seja ele oriundo do music-hall, do folk-rock ou do dubstep e seja ele fruído numa sala de cinema, num televisor ou num dispositivo ligado à net. Se tal vos parecer uma evidência, mil perdões. A mim, que tenho dedicado tantas horas ao estudo e à fruição da evolução do formato, tudo isto me soa a epifania, a descoberta.

2+3.

1+3.

The song’s much talked-about video, featuring Yorke’s postmodern vaudeville act, dramatizes all the more vividly this tug-of-war between the organic inspiration and tech-driven art that Radiohead finds itself caught in the middle of: While online smart alecks have set Yorke’s un-self-conscious moves to “Single Ladies” and goofed on his herky-jerky boogie as his version of Elaine’s dance from Seinfeld, it’s actually the Chaplin-esque bowler the frontman is wearing in the clip that might hold a clue to understanding the method to his madness. Maybe it’s reading too much into things, but Yorke’s unsynchronized, idiosyncratic grooving represents the body and music in a moment of liberation, however fleeting, the flipside and bookend to the iconic factory scene in Modern Times when, as film scholars have noted, Chaplin critiqued modern life by making pop art out of vamping the automaton-like gestures of working on the assembly line. As much as people may point and giggle at Yorke in what’s his most vulnerable moment, the video and the song are really providing a glimmer of hope for reaching out and touching someone in a virtual world. (Arnold Pan, PopMatters, negritos meus)

Radiohead: «Lotus Flower» (Garth Jennings, 2011)

Era para ter escrito sobre isto ontem, mas confesso que passei as últimas 36 horas completamente submerso em The King Of The Limbs o novo álbum dos Radiohead. Na senda de In Rainbows (2007), o grupo britânico continua não apenas a subverter o modus faciendi da indústria discográfica, os ditames dos manuais de marketing e a própria mecânica da imprensa musical (que foi duplamente apanhada desprevenida com o anúncio feito há 4 dias e a antecipação do lançamento para ontem e que agora anda feita barata tonta a disparar críticas impressionistas feitas em cima do joelho), como volta a conseguir algo de muito raro no actual panorama mediático: pôr uma imensidão de utilizadores a ouvir pela primeira vez o seu novo disco sensivelmente ao mesmo tempo. Chapeau.

E por falar em chapéus, era para mim óbvio que a forma a todos os níveis original como o disco foi lançado (com total secretismo, revelando apenas a capa e o título 4 dias antes do lançamento e sem a prévia edição de qualquer single) não poderia jamais dispensar o recurso a um vídeo musical. E que vídeo caramba (dois milhões de visualizações em pouco mais de 24 horas).

Muito se tem escrito sobre este soberbo «Lotus Flower» (Garth Jennings, 2011). Uma possível similitude com dois clássicos do formato (tendo a concordar sobretudo com o segundo exemplo), o seu caracter vaudevilliano e, como não podia deixar de ser, a sua particular apetência para exercícios de remistura. É, em todo o caso, um absoluto caso de estudo ao qual prometo voltar nos próximos dias. Há aqui pano para fartas mangas.