Este vídeo musical carregado no YouTube em Agosto de 2010 é um belo exemplo de como o formato não apenas utiliza as plataformas digitais como veículo de difusão mas como fonte de inspiração. O conceito do clipe é, novamente, muito simples e consiste num ciclo de planos aproximados dos três membros da banda: à medida que o tema vai progredindo, as suas faces vão progressivamente exibindo sinais cada vez mais evidentes de violência: sangue, feridas e hematomas. A fruição deste vídeo é uma experiência intensa e algumas pessoas a quem o mostrei não conseguiram sequer vê-lo até ao fim. É como se, no intervalo de dois planos que separa o enquadramento de cada um dos músicos, esses fossem vítimas de agressões cuja visualização nos é negada: apenas vemos, de forma cumulativa, as marcas corporais dessa violência. É essa passividade / impotência de quem vê e ouve o vídeo (reflectida na própria passividade / impotência dos músicos) que torna a sua fruição particularmente difícil ou incómoda. Do ponto de vista sinestésico, para além da edição em sincronia com a trilha sonora e de a tensão das imagens acompanhar o crescendo da música, há ainda a ter em conta a letra do tema que retrata uma cena bélica recorrendo a um campo lexical que estabelece de imediato uma relação dialéctica com as imagens: blackness, veins, moans, arms, legs, teeth, nail, etc.
Mas há ainda outro aspecto, porventura mais subtil, que torna este vídeo musical ainda mais eficaz no impacto que provoca nos seus fruidores. Os três enquadramentos em plano fixo do clipe, somado com o facto de os três membros da banda mimarem a letra da música, estabelecem de imediato uma analogia com uma das formas mais emblemáticas de participação no YouTube: o video blogging. Para além de ser a forma dominante de conteúdo gerado pelos utilizadores das plataformas digitais (CGU), o vlogging é igualmente um género audiovisual fundamental para o noção de comunidade dos portais de partilha de vídeos. O vídeo musical dos Esben and the Witch mima deliberadamente a sua estética vernacular que consiste, predominantemente, num monólogo debitado perante uma câmara em plano fixo. Mais: no vlogging predomina um simulacro de autenticidade (digo simulacro porque o que interessa aqui é a verosimilhança dessa autenticidade e não a sua verdade – ver o famoso caso da saga da vlogger LonelyGirl15) que está metaforicamente representado no vídeo musical através da nudez dos três membros da banda. Como muito bem apontam Jean Burgess e Joshua Green, o vlog é, por excelência, um género comunicacional que incita à crítica, ao debate e à discussão quer através de comentários ou de respostas via vídeo (2.1, BURGESS et al., 2009, p. 94). Fica a pergunta: até que ponto a violência de que são vítimas os protagonistas do clipe não pode ser vista como uma metáfora da interacção por vezes acintosa (eufemismo) do videoblogging? Este utilizador, por exemplo, pode não exibir marcas corporais dessa violência, mas parece-me evidente que não terá saído incólume da avalanche de reacções que provocou este seu já clássico vídeo. Qualquer pessoa que tenha participado de forma mais ou menos activa em fóruns, blogues ou redes sociais já terá sentido, de uma forma ou de outra, e em menor ou maior grau, os efeitos da autêntica arena virtual que por vezes se tornam as plataformas digitais. Tal como as personagens deste vídeo musical, um dos custos da nossa participação implica por vezes estarmos sós e indefesos perante esta massa não raras vezes anónima que são outros. Porventura, o que paradoxalmente nos choca e seduz neste vídeo é o quão fácil é nos identificarmos com os seus protagonistas.

