Esben and the Witch: «Marching Song» (Peter King & David Procter, 2010)

Este vídeo musical carregado no YouTube em Agosto de 2010 é um belo exemplo de como o formato não apenas utiliza as plataformas digitais como veículo de difusão mas como fonte de inspiração. O conceito do clipe é, novamente, muito simples e consiste num ciclo de planos aproximados dos três membros da banda: à medida que o tema vai progredindo, as suas faces vão progressivamente exibindo sinais cada vez mais evidentes de violência: sangue, feridas e hematomas. A fruição deste vídeo é uma experiência intensa e algumas pessoas a quem o mostrei não conseguiram sequer vê-lo até ao fim. É como se, no intervalo de dois planos que separa o enquadramento de cada um dos músicos, esses fossem vítimas de agressões cuja visualização nos é negada: apenas vemos, de forma cumulativa, as marcas corporais dessa violência. É essa passividade / impotência de quem vê e ouve o vídeo (reflectida na própria passividade / impotência dos músicos) que torna a sua fruição particularmente difícil ou incómoda. Do ponto de vista sinestésico, para além da edição em sincronia com a trilha sonora e de a tensão das imagens acompanhar o crescendo da música, há ainda a ter em conta a letra do tema que retrata uma cena bélica recorrendo a um campo lexical que estabelece de imediato uma relação dialéctica com as imagens: blackness, veins, moans, arms, legs, teeth, nail, etc.

Mas há ainda outro aspecto, porventura mais subtil, que torna este vídeo musical ainda mais eficaz no impacto que provoca nos seus fruidores. Os três enquadramentos em plano fixo do clipe, somado com o facto de os três membros da banda mimarem a letra da música, estabelecem de imediato uma analogia com uma das formas mais emblemáticas de participação no YouTube: o video blogging. Para além de ser a forma dominante de conteúdo gerado pelos utilizadores das plataformas digitais (CGU), o vlogging é igualmente um género audiovisual fundamental para o noção de comunidade dos portais de partilha de vídeos. O vídeo musical dos Esben and the Witch mima deliberadamente a sua estética vernacular que consiste, predominantemente, num monólogo debitado perante uma câmara em plano fixo. Mais: no vlogging predomina um simulacro de autenticidade (digo simulacro porque o que interessa aqui é a verosimilhança dessa autenticidade e não a sua verdade – ver o famoso caso da saga da vlogger LonelyGirl15) que está metaforicamente representado no vídeo musical através da nudez dos três membros da banda. Como muito bem apontam Jean Burgess e Joshua Green, o vlog é, por excelência, um género comunicacional que incita à crítica, ao debate e à discussão quer através de comentários ou de respostas via vídeo (2.1, BURGESS et al., 2009, p. 94). Fica a pergunta: até que ponto a violência de que são vítimas os protagonistas do clipe não pode ser vista como uma metáfora da interacção por vezes acintosa (eufemismo) do videoblogging? Este utilizador, por exemplo, pode não exibir marcas corporais dessa violência, mas parece-me evidente que não terá saído incólume da avalanche de reacções que provocou este seu já clássico vídeo. Qualquer pessoa que tenha participado de forma mais ou menos activa em fóruns, blogues ou redes sociais já terá sentido, de uma forma ou de outra, e em menor ou maior grau, os efeitos da autêntica arena virtual que por vezes se tornam as plataformas digitais. Tal como as personagens deste vídeo musical, um dos custos da nossa participação implica por vezes estarmos sós e indefesos perante esta massa não raras vezes anónima que são outros. Porventura, o que paradoxalmente nos choca e seduz neste vídeo é o quão fácil é nos identificarmos com os seus protagonistas.

Never Gonna Fool You Up

O meu último post terminava com uma hiperligação que remetia, inesperadamente, para uma versão em arte ASCII do vídeo musical de «Never Gonna Give You Up» de Rick Astley (Simon West, 1987). Caso tenham clicado no mesmo, parabéns, foram rickrollados.

O Rickrolling é uma das provas mais eloquentes do protagonismo e da universalidade da videomusicalidade nas plataformas digitais. A prática terá surgido em 2007 e consiste em introduzir num texto uma hiperligação aparentemente relevante para o tópico abordado, quando, na realidade, a hiperligação redirecciona inadvertidamente o leitor para o famigerado clipe. A prova da popularidade do Rickrolling pode ser confirmada não apenas no facto da versão oficial do clipe (carregada em Outubro de 2009) estar no limiar das 30 milhões de visualizações e da intitulada RickRoll’D (carregada em Maio de 2007) já ter mais de 44 milhões, como nas inúmeras remisturas e recriações que o vídeo tem sido alvo nos últimos três anos. Permitam-me que destaque um Rickroll interpretado pela bonecada do The Muppet Show, outro que consiste num mashup do clipe com um episódio de Family Guy e, finalmente, o famosíssimo e premiado Barack Roll que nada mais é que um hino à paciência, dedicação e labor dos utilizadores das plataformas digitais.

Como é que se pode explicar a popularidade do Rickrolling? Em primeiro lugar, há que pensar no óbvio: são as possibilidades de interacção do medium (a Web 2.0) que permitem e potencializam a fruição participativa dos seus utilizadores e que fornecem, de resto, o mecanismo fundamental para um Rickrolling: a hiperligação. Depois, convirá não esquecer que o tema de Rick Astley foi um dos maiores sucessos discográficos da década de 80, tendo alcançado o topo das tabelas de venda de 25 países. Finalmente, temos o vídeo musical, absoluto arquétipo do teledisco performativo da década de 80 no que diz respeito ao guarda-roupa, aos cenários, à iluminação, às bailarinas, aos movimento da câmara, à proliferação de planos redundantes e, claro, como não podia deixar de ser, à inolvidável e paradigmática coreografia de Rick Astley. De certa forma, penso que não será descabido considerarmos o Rickrolling uma espécie de emulação da omnipresença do tema no airplay do já distante ano de 1987. Na época, o vídeo musical foi um apêndice relativamente dispensável para o sucesso planetário da canção, tendo a MTV se limitado a acompanhar o seu sucesso radiofónico. Nos últimos 3 anos, graças ao Rickrolling e às virtudes kistch que o tempo acrescentou ao clipe, os utilizadores das plataformas digitais transformaram Rick Astley numa das figuras mais populares do universo dos vídeos musicais: foram, por exemplo, os seus 100 milhões de votos que, em 2008, forçou a MTV a conceder-lhe o hiperbólico prémio dos MTV Europe Music Awards para Best Act Ever.

Se, em 1987, bastava ligar um rádio numa estação qualquer para sermos bombardeados com a canção de Rick Astley, hoje em dia, basta clicar numa hiperligação do HTML mais insuspeito para correr o mesmo risco com o respectivo vídeo musical. E assim, mais de duas décadas depois, uma armadilha musical transformou-se, graças à fruição participativa dos utilizadores das plataformas digitais, numa armadilha videomusical.

Interactividade vs Participação

Uma das imprecisões terminológicas mais problemáticas da mediação tecnológica prende-se com a definição do termo interactividade. Anotemos, por exemplo, a definição dada por Randall Parker e Ken Jordam em Multimedia: From Wagner to Virtual Reality (itálico meu):

Interactivity: the ability of the user to manipulate and affect his experience of media directly and to communicate with others through media. (2.1, PARKER et al (eds.), 2001, p. xxviiii).

Esta definição, subscrita pelo próprio Manuel Castells em The Internet Galaxy (2.1, CASTELLS, 2002a, p. 201), é excessivamente abrangente e presta-se a algumas confusões, na medida em que tanto abrange i) a interactividade específica do medium (Web 2.0) ou de determinados produtos mediáticos (ver os vídeos musicais) como ii) a interacção mediatizada dos seus utilizadores. Parece-me muito mais frutífera a precisão terminológica de Henry Jenkins que separa com grande agudeza as duas componentes da definição, atribuindo o termo interactividade a i) e participação a ii) (itálicos meus):

Interactivy refers to the direct manipulation of media within tecnology. Participation refers to the social and cultural interactions that occur around media. (2.1, JENKINS, 2006b, pp. 137 e 305)

Desta forma, a interactividade corresponde às características tecnológicas que permitem a participação sócio-cultural dos utilizadores através de um medium ou em torno de um determinado produto mediático:

Interactividade vs participação

 

Esta distinção é particularmente operativa no caso da presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais como veremos num próximo post dedicado aos vídeos musicais interactivos.