YouTube: everything with no roadblocks

Raramente encontro na rede alguém com uma visão que partilho a 100% sobre a convergência da fruição musical multimediática para o formato videomusical. É por isso que faço questão de deixar aqui esta pequena citação de Frank Woodworth no hypebot (sublinhados meus):

The other interesting thing about YouTube as a destination for music discovery is that playlists and curation are not driving it. Just like Wikipedia, IMDB or Google itself, YouTube is a conversion of offline conversations into online discovery. It works with our natural rhythms. This makes me wonder if the race to have the perfectly curated service is necessary. There are a numerous places for music discovery, but the best service is one that has everything with no roadblocks so that if a song or artist enters a conversation a fan can search and play the music seamlessly. Currently, this is YouTube. It has the largest selection and no walls. (fonte)

Faina videomusical #7

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Joel Compass: «Back To Me» (real. Ian & Cooper)

Apesar de o formato videomusical ter sido ao longo da sua história um formato fértil na experimentação de novas técnicas de filmagem e de efeitos especiais, a sua convergência para as plataformas digitais veio atenuar essa tendência, o que é em parte explicável pelo pendor vernacular e baixo orçamento de parte considerável das produções. Este vídeo é, por isso, hoje em dia, um caso relativamente bissexto de exploração de uma técnica recente chamada cinemagraph em que cada enquadramento é cristalizado (freeze frame) com a excepção de um pormenor que é animado, podendo essa animação ser pós-produzida em câmara lenta, forward ou rewind. Neste caso, o resultado da utilização desta técnica é bem mais do que uma sequência de gifs e aproxima-se de uma espécie de fotonovela videomusical com pulso, onde as elipses acabam por ter uma papel narrativo tão preponderante quanto o das imagens. Belíssimo.

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Cat Power: «Manhattan» (real. Chan Marhall & Greg Hunt)

Por falar em belo, o punctum deste avassalador objecto videomusical é bem capaz de ser o billboard que surge aos 1’27″, porque veicula a posse de um lugar que entra em tensão com o We’ll never be Manhattan proclamado no refrão. Ter e Ser são coisas distintas, todos nós o sabemos. Mas raramente esse facto nos é explicado de forma tão sublime e eficiente.

Robin Thicke: «Blurred Lines» (ft. T.I. & Pharrell) (real. Diane Martel)

Coloco este vídeo como ponto de fuga à gravitas dos dois anteriores. Believe it or not, este rebuçado absolutamente inofensivo foi banido do YouTube, o que demonstra que ainda há algum terreno a galgar para o portal da Google Inc. superar os pretéritos tiques moralistas da MTV. O Vimeo agradece. E eu lamento.

Sobre a contabilização das visualizações no YouTube

Já falei sobre o tema anteriormente, mas este vídeo dá algumas luzes sobre a forma como o YouTube processa e contabiliza as visualizações. Reparem como o técnico da Google Inc. atribui um valor económico (“currency”) às visualizações dos seus vídeos – afinal de contas, esta é a base sobre a qual assenta todo o modelo de negócio do portal.

YouTube meets Billboard

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Era inevitável: a Billboard e a Nielsen anunciaram esta semana que iriam passar a incorporar dados das visualizações do YouTube na ordenação das diversas tabelas do seu Hot 100: Hot Country Songs, Hot R&B/Hip-Hop Songs, Hot R&B Songs, Hot Rap Songs, Hot Latin Songs, Hot Rock Songs and Dance/Electronic Songs.

Até a semana passada, estes prestigiados tops da indústria norte-americana baseavam-se exclusivamente em dados monitorizados pela Nielsen relativos às vendas físicas, airplay radiofónico terrestre e on-line streaming (via radio e on-demand). Doravante, as visualizações de utilizadores dos Estados Unidos a vídeos musicais oficiais e vídeos produzidos por fãs com áudio autorizado pelas editoras discográficas passam a ser tidas em conta. Apesar de estar no segredo dos deuses a forma como a Nielsen integra estes novos dados no caldeirão (vulgo algoritmo), os resultados já se fizeram sentir no Hot 100 desta semana com Baueer (autor do famigerado Harlem Shake) a entrar directamente para o topo da tabela.

Ainda assim, não deixa de ser admirável o tempo que a indústria discográfica precisou para reconhecer esta nova realidade: a fruição musical está, definitivamente, a convergir para o formato videomusical.

Da maneira que quisermos

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A crónica de hoje de Miguel Esteves Cardoso no Público aflora uma questão que tenho abordado diversas vezes neste blogue (e que é, de resto, uma das pedras angulares do meu projecto de investigação): a convergência da fruição musical para o formato videomusical digital.

O MEC (que, confesso, conheço mais como melómano do que como audiófilo) começa por admitir que, à semelhança da esmagadora maioria dos utilizadores, recorre quase sempre ao YouTube (ou seja, ao formato videomusical) quando quer ouvir uma música (sobretudo quando é um tema que não conhece) para, logo de seguida, lamentar a qualidade audio da plataforma. Algumas observações:

- A relação de qualidade que estabelece entre os diversos media invocados (YouTube < MP3 < CD < vinil) não é inequívoca ou objectiva e mistura o digital como o analógico. O audio bitrate do YouTube, por exemplo, varia dos 64 aos 192 kbits/seg e só recentemente é que o iTunes permitiu uma resolução de 320 kbits/seg (fez furor, por exemplo, o descontentamento dos fãs dos Radiohead quando a banda disponibilizou em 2007 o disco In Rainbows com um bitrate de 160 kbits/seg.). Não existe qualquer critério objectivo que permite valorizar o som analógico (vinil, cassete e bobine) em relação ao digital (YouTube, MP3 e CD) e, por exemplo, nos últimos anos tenho visto inúmeros audiófilos renderem-se ao FLAC. Empiricamente, confesso que sinto uma diferença entre o som de um CD e de um vinil e que prefiro o do último – no entanto, essa valorização é subjectiva. Há uma famosa frase de Ian Davis que exprime essa diferença de uma forma que considero muito pertinente: o analógico é a aproximação da perfeição; o digital é o aperfeiçoamento da aproximação.

- O medium (seja ele digital ou analógico) que armazena as gravações musicais é apenas uma das variantes para a qualidade de reprodução: a outra é, obviamente, o dispositivo que lê/reproduz/descodifica essas gravações. Já ouvi temas no YouTube a partir do meu iPhone com uma fidelidade superior à de um gira-discos com umas colunas manhosas. No som analógico, os audiófilos (sim, conheço alguns) dão, por exemplo, muito importância à qualidade dos cabos que ligam o gira-discos às colunas.

- O MEC exemplifica na sua crónica um contexto para o recurso ao YouTube para ouvir música: quando o NME elogia uma música que nunca ouviu. Ora o que o MEC não refere era o que poderia fazer antes da emergência das plataformas digitais: ficava, como eu, a chupar no dedo até ao bendito dia em que uma loja de discos tivesse adquirido o disco ou à feliz coincidência de estar com a radiofonia ligada e sintonizada na estação de rádio que resolvesse passar, naquele preciso momento, o referido tema. Hoje em dia, não: pode ir imediatamente ao YouTube para, com grande probabilidade, ouvir o tema de imediato. Se a baixa resolução o incomodar, pode ir ao iTunes e descarregá-lo ou então à Amazon para encomendar o disco e depois ouvi-lo no seu Nakamichi/JBL. Qualquer uma destas práticas possibilitadas pela Web implicam sempre compassos de espera consideravelmente inferiores aos que tínhamos de suportar até meados da década passada.

Respondendo à questão promovida a título desta crónica, penso que, hoje em dia, a maioria dos utilizadores (e, definitivamente, o MEC) pode ouvir música de inúmeras maneiras e, pormenor importante, nenhuma delas é exclusiva. Para saciar a curiosidade imediata, temos o YouTube e outras plataformas como o SoundCloud. Se queremos andar com o tema no nosso leitor de MP3, podemos sacá-lo de borla ou adquiri-lo no iTunes ou no Bandcamp. Por fim, se desejamos ouvi-lo com a máxima qualidade e de acordo com a nossa sensibilidade audiófila, podemos sempre adquiri-lo (e caso esteja disponível) em formato digital ou analógico em inúmeras lojas virtuais. Ou seja: não é apenas para os melómanos que a emergente paisagem mediática digital é uma mais-valia. Sinceramente, e para mais tendo em conta o recente renascimento do vinil, não me parece que os audiófilos tenham motivos de queixa.

Nota

Ontem, com um aviso de apenas 3 horas, os My Bloody Valentine disponibilizaram, após mais de duas décadas de espera, uma hiperligação na sua página do facebook que redireccionava para uma página do portal da banda onde os utilizadores podiam comprar e descarregar o novo álbum intitulado mbv. Quase simultaneamente, a banda carregava para a sua página do YouTube nove diaporamas videomusicais com a capa do novo disco e cada uma das suas nove faixas. Ou seja, mais uma vez, o formato videomusical é accionado quase de imediato para suportar o lançamento de um novo disco, o que demonstra pela enésima vez que a fruição musical está a convergir para o formato. Anúncio no facebook + descarregamento pago num portal + disponibilização das faixas no YouTube. Está aqui a fórmula que, estou seguro, será cada vez mais a utilizada para lançar discos nas plataformas digitais.

mbv

Top 10 – vídeos musicais mais difundidos na Web

screenshot_08Acrescentei à página de dados quantitativos, um estudo intitulado The Most Viral Music Videos Of All Time, que consiste num Top 10 dos vídeos musicais mais difundidos na Web. Os dados, compilados pelo True Reach (um algoritmo da Visible Measures), engloba não apenas a disseminação (difusão com ou sem recontextualização) como a propagação (difusão com transformação):

Ranked by True Reach views, each music video on this list contains the original music video and related content, from song covers by fans, live performances, mashups, parodies, and more. True Reach provides a holistic view of complete performance online. (fonte)

A utilidade desta ferramenta é enorme, na medida em que fornece dados webométricos não apenas sobre os diversos intertextos (ou cópias integrais) de um determinado conteúdo mediático como dos conteúdos que lhe são derivados. Tivesse o meu projecto de investigação os meios financeiros necessários e teria sem dúvida recorrido à mesma para testar e afinar o meu modelo conceptual de difusão. Quem sabe, possa vir a ter, no futuro, os meios para tirar proveito desta engenhoca.

No entanto, já é possível tirar algumas conclusões a partir deste Top 10. Para isso, dei-me ao trabalho de ir há minutos ao YouTube sacar o número de visualizações de cada um dos vídeos musicais citados. Eis a tabela que compara os dados obtidos pelo True Reach com os fornecidos pelo YouTube:

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Reparem como a ordenação do True Reach não corresponde à do YouTube. Por exemplo, apesar de o vídeo de Carly Rae Jepsen ser apenas o 8.º mais visto (ou disseminado) da lista no YouTube, ele é o terceiro mais difundido segundo as medições do True Reach (ou seja, o seu índice de propagação é superior ao da sua disseminação). Por sua vez, o da Jennifer Lopez, apesar de ser o 3.º da lista mais visto no YouTube, apenas ocupa o décimo lugar do ranking do True Reach (isto é, seu índice de propagação é superior ao da sua propagação).

Que conclusões se podem tirar desta tabela? Várias, todas elas elucidativas:

- Em primeiro lugar, que os intertextos oficiais alojados no YouTube representam uma média elevadíssima de 44% do total de visualizações dos vídeos musicais e dos conteúdos derivados.

- Em segundo lugar, que apesar de o número de visualizações no YouTube ser um indicador não apenas fidedigno como incontornável da disseminação de um conteúdo mediático na Web Social, o mesmo nos dizer pouco sobre o seu potencial propagatório. Veja-se, por exemplo, o caso do vídeo da Beyoncé: apesar de ser o menos visualizado da lista no YouTube, a webometria do True Reach quadruplicou-lhe o número de visualizações, o que indicia ser este o vídeo com maior potencial propagatório da série.

- Em terceiro lugar, e mais importante ainda, que não existe nenhuma proporcionalidade directa entre o volume de disseminação e o de propagação de um determinado conteúdo mediático na Web Social.

Todas estas conclusões vêm, mais uma vez, reforçar a complexidade dos mecanismos difusores operados pelos utilizadores da Web Social. Coisa que não me tenho cansado de repetir nos últimos, vá lá, dois anos.

NOTA: sobre a (infeliz) utilização do termo “viral” no título do estudo, e para não mais bater no ceguinho, remeto quem estiver interessado para aqui.

Rewind YouTube Style 2012

Ora aqui está uma coincidência que me enche de orgulho.

No passado dia 26 de novembro, publiquei aqui um post intitulado O vídeo musical é, definitivamente, o YouTube Style sobre a furiosa difusão de um certo vídeo musical coreano e a inegável predominância do formato videomusical neste autêntico vórtice audiovisual que é o YouTube.

Pois bem, anteontem, ou seja, no dia 17 de dezembro, o Youtube carregou uma súmula dos vídeos mais difundidos no portal em 2012 intitulada Rewind YouTube Style. Para além da feliz coincidência dos títulos, o que é particularmente significativo é o facto de o vídeo ser uma colagem de pastiches (o termo mash-up é, definitivamente, vago e pouco preciso) dos dois vídeos musicais mais vistos no YouTube em 2012 interpretada por uma série de personagens (predominantemente vernaculares) que marcaram o portal no último ano.

Eis o vídeo em toda a sua glória:

Viral, o tanas

Esta TED Talk de Kevin Alloca (um alto quadro do YouTube) aborda a nemesis do meu projecto de investigação: a concepção viral da difusão na Web Social.

Aproximo-me sempre deste tipo de paleio com duas pedras na mão, preparado para insultar o badameco que me aparece com o seu argumentário da treta de que eu, à semelhança dos outros utilizadores das plataformas digitais, não passamos de hóspedes ou pacientes à espera de ser “infectados” pelas características virais de certos conteúdos mediáticos que depois difundimos pela Web independentemente da nossa vontade seguindo a lógica de contágio inerente à metáfora biológica implícita à designação “viral” (ufa!). Este é, como é óbvio, um discurso ideológico e o facto de o mesmo ser repetido por tanta gente que estuda a Web mexe-me, como já devem ter reparado, com o meu depauperado sistema nervoso (‘tadito dele).

Claro que há imensa gente que usa o termo sem ter consciência das suas implicações ideológicas e posso mesmo admitir que “viral”, em muitos casos, é um adjectivo utilizado apenas como sinónimo de “popular”. Como é óbvio, se isso é desculpável (mas igualmente irritante) no caso de muitos utilizadores, já me custa imenso engolir quando o emissor é, repito, alguém cuja profissão passa por reflectir diariamente sobre estes fenómenos.

É o caso de Kevin Alloca.

Não me custa nada admitir que subscrevo grande parte das suas reflexões sobre o agenciamento da difusão pelos utilizadores da Web: a existência de curadores digitais (tastemakers), a importância de comunidades participativas e a apropriação deste capital cultural por parte dos utilizadores (fenómeno que apodo de propagação (difusão com transformação) e o Kevin de remixing). Já quando ele fala do efeito surpresa (unexpectedness), sinto que o termo é insuportavelmente vago e pouco preciso e que um pouco de enquadramento teórico poderia dar mais consistência à coisa (estou a pensar, por exemplo, no “horizonte de expectativas” definido pela Escola de Constância).

Mas o que realmente me faz torcer o nariz é a forma gratuita como ele utiliza o termo “viral”: apesar de ser promovido a elemento do título da palestra, Kevin Alloca jamais articula as implicações da designação com as características que aponta para o sucesso da difusão de certos vídeos do YouTube. Sabem porquê? Porque tudo o que ele diz vai precisamente contra os pressupostos que estão na origem do termo “viral”: são os utilizadores que decidem voluntariamente o que difundir, na medida em que difundem apenas o que é relevante para eles ou para as diferentes comunidades que integram. Tentar simplificar isto com o termo “viral” é, no mínimo, um exercício pouco sério.

O vídeo musical é, definitivamente, o YouTube Style

Quando, no passado dia 9 de Agosto, escrevi aqui sobre o Gangnam Style estava longe de pensar que o mesmo viria, três meses depois, a destronar o Justin Bieber do posto de vídeo mais visualizado de sempre do YouTube. No momento em que escrevo, são mais de 820 milhões de visualizações, o que dá uma média superior a 6 milhões de visualizações por dia, 250 mil por hora, 4 mil por minuto e cerca de 70 visualizações por segundo. Reparem só na rapidez de difusão do vídeo de Psy em comparação com o de Justin Bieber: é, no mínimo, impressionante.

De resto, actualmente, no Top 10 dos vídeos mais vistos do YouTube, não estão dois, nem três, nem quatro, nem cinco, nem seis, nem sete, nem oito, mas nove vídeos musicais. Está visto que a videomusicalidade é, às tantas, é um fenómeno que vale a pena estudar nas plataformas digitais.